Medina e o X Factor

The X Factor é um reality show para a TV criado pelo empresário inglês Simon Cowell, descobridor de algumas superestrelas da música. A idéia básica do programa é achar cantores mais do que talentosos, que tenham também aquela coisa a mais, o tal Fator X.

Nas outras atividades, seja na medicina ou nos esportes, a premissa é a mesma. Caras como Roger Federer, Michael Jordan, Ayrton Senna e tantos outros atletas são exemplos de pessoas que além do talento aflorado possuem um carisma e uma aura divina, como se pertencessem ao Olimpo. E isso obviamente também rola no surf. Kelly Slater é o perfeito exemplo do cara X Factor. Desde muito cedo, aos 12 anos, já mostrava que seria diferenciado. Sua grandiosa carreira é reflexo direto de sua genialidade. Seres como eles, ficam para sempre em nossas memórias. Eles não morrem, transcendem! E Gabriel Medina surgiu com esta virtude.

Desde a entrada no profissionalismo até o título mundial em 2014, seu brilho foi intenso, tanto que arrumou um lugar no coração da juventude brasileira, tão magoada com os fracassos do futebol. Medina era o Neymar dando certo, tornando-se campeão. Com um empurrão do grupo Globo, aliado a seus resultados, conseguiu ultrapassar o lugar comum dos esportes menos midiáticos e chegou ao apogeu, virou celebridade. Tudo isso com apenas 21 anos.

Gabriel Medina no topo do surf mundial com o título de 2014. Foto:WSL/Divulgação

Gabriel Medina no topo do surf mundial com o título de 2014. Foto:WSL/Divulgação

Muita coisa mudou de lá para cá. Os compromissos no mar foram divididos com os dos estúdios. As férias surfando deram lugar a voltas de iate em Angra. Os (novos) amigos do peito não surfam, talvez nem se interessem por ondas. Tudo isso é uma questão pessoal e não requer opinião minha ou de qualquer outra pessoa. Mas nos meus recém feitos 50 anos, posso dizer que a vida é feita de ciclos, altos e baixos, e que a paixão por algo é capaz de te manter com os pés no chão. Tantas coisas pra fazer, lembrar, conhecer… tão de repente… Isso te leva ao céu, e ao inferno. Depois de tantas glórias, Medina está sofrendo por ser apenas “mais um” no Tour.

Vendo, de longe pela TV, o semblante tenso de Gabriel, por vezes penso que a cobrança em cima de seus ombros, por ele próprio e por todos em volta, está demasiadamente pesada. Olhando seu maior rival, o havaiano John John Florence, sempre sorrindo, perdendo ou ganhando, depois de um tubo ou após uma vaca, fica inevitável compará-los. Para mim, um está surfando forçado enquanto o outro é uma força natural de seu amor pelo mar.

Não acho que o tal Fator X desapareça assim, do nada. Penso que ele fica ali, no canto, quieto, esperando ser despertado. Fico imaginando se o surf perdeu um pouco a graça para ele, competindo com tantas outras diversões, algumas inimagináveis há 5 anos. Talvez esteja faltando aquele sentimento de acordar cedo, do lado da prancha nova, que passou a noite em cima da cama enquanto você dormiu no chão. Aquele desejo de pegar onda mesmo que o mar esteja horroroso só para acertar aquele aéreo que ficou em sua mente após o sonho noturno. Quem ama o surf, leva este amor para o resto da vida. Ele pode até descansar por um período, mas retorna. Que Gabriel Medina consiga relaxar e encontrar novamente o desejo de surfar apenas por surfar. Que seja menos robótico, competitivo e mais criativo e inconsequente. Se tivesse que dar-lhe um conselho, seria esse: “Cara, aproveite sua idade, seu momento e se divirta na água como se fosse um grommett. Surfe por você e por mais ninguém.”

O tempo voa, os problemas aparecem e a responsabilidade só aumenta. Nesta má fase que não acaba, pode estar faltando prancha, técnico, isso ou aquilo, mas creio que o que realmente não aparece é a alma. Prefiro ver o talentoso Medina se divertindo numa vala em Maresias do que se matando para passar uma bateria. Encontre o espírito e terá o fator de desequilíbrio. Este é o X da questão.

Gabriel é talento puro. Falta tranquilidade e confiança  para voltar a brilhar. Foto: WSL/Divulgação

Gabriel é talento puro. Falta tranquilidade e confiança para voltar a brilhar. Foto: WSL/Divulgação

11 Responses

  1. Wil Andrade 6 de junho de 2017 / 18:41

    Muito oportuna a mensagem do Guarana, servindo-se de sua experiencia para demonstrar o que esta realmente acontecendo com o jovem Medina. Que nosso campeao consiga se desligar dos flashes e dos olofotes da midia e se concentrar naquilo que ele sabe como poucos realizar. Somente gostaria de ressaltar que ao meu ver todo esse assedio da midia poderia ser evitado se o Charles, importante figura nas conquistas do Gabriel, tivesse mais tarimba como tecnico, pois seu envolvimento emocional nao esta trazendo os resultados esperados para a carreira do nosso garoto.

    • Ayrton Almeida 6 de junho de 2017 / 19:51

      Discordo dessa sua colocação. Graças a Chalés que Gabriel chegou onde chegou e isso inclui ele como técnico tb .O problema tá sendo justamente o afastamento de Chales como O cara que faz tudo.Por um bom tempo ele era tb o empresario.O que ,ao meu ver ,poderia mudar ,isso sim com a influência de Charles,seria acabar com essa vidinha paralela ao surf (janeiro e fevereiro nao tem que tá em Angra e sim no Hawaii)e tb que desse uma freada no atual empresário que só visa dinheiro ,pra que Gabriel pudesse focar mais no surf.

      • Guaraná 6 de junho de 2017 / 19:58

        Meu caro, sugiro vc reler o texto pois acho q não o entendeu. Não tem nenhuma citação ao padrasto.

        • Jairo 6 de junho de 2017 / 21:28

          Acho que ele se referiu ao comentário acima e não ao texto!
          Aliás excelente seu texto👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

  2. Rogerinho 6 de junho de 2017 / 20:38

    Concordo com suas opiniões Guaraná ,acredito que ele esteja precisando reencontrar aquela vontade de surfar por puro prazer ,sem pressões ou cobranças externas, porque talento e potencial ele tem de sobra !

  3. Marcio Mundim 6 de junho de 2017 / 21:12

    Excelente texto, Guaraná, e na torcida para que o Medina possa encontrar o caminho das vitórias novamente. Abraço

  4. arnaldo campello spyer 7 de junho de 2017 / 01:43

    Delicado dar conselho.O garoto é genial . Mas não consigo deixar de achar que ele está com cara que tudo aquilo pra ele está sendo muito enfadonho.Espero que ele ache o “mood “melhor possivel para desfrutar do tour.Que ele seja feliz independente do caminho que escolher !

  5. Marcelo 7 de junho de 2017 / 11:01

    Parabens pelo editorial guaraná exatamente o que eu penso sobre o Medina,Aloha!!!

  6. Armando mafra 7 de junho de 2017 / 15:58

    Concordo que o Medina deveria estar no Hawai em janeiro ao invés de Angra, e que ele deu uma deslumbrada depois do título andando com pagodeiro e pensando em ganhar 12 títulos ao invés de pensar no segundo. Mas o resto eu discordo. Em 2015 ele surfou muito bem no segundo semestre e viu que se não fosse a ressaca do título na perna australiana ele poderia ter levado o bi. Então em 2016 ele voltou focado e brigou pelo título mas perdeu por roubalheira mesmo. Depois de ser roubado em fiji e de ser assaltado em trestles, o que causou uma avalanche de reclamações de brazzos na net e muito falatório, não há como não mexer com psicológico. O campeonato foi melado ali em trestles mesmo. Pipeline tava pequeno e ruim. Esse ano ele voltou bem. Teve um bom resultado na gold coast e JJ não ganhou (foi o owen). Em margarets eles colocaram o medina na primeira bateria e soltaram ele na maré alta com onda gorda e ruim (loteria). Em bells eu nem lembro mas as ondas tavam ruins. Rio também é meio loteria, quem pega as melhores ondas ganha. Fiji perdeu por pouco pro ítalo que pegou 2 tubos e ele só achou um tubo. Ali o tubo decide, e não veio 2 pra ele. Mas surfou bem. Algumas baterias ele tá perdendo por falta de onda mesmo, outras por centésimos de ponto, mas o surf tá lá sim. O meu conselho pra ele é e esquecer título e focar em ganhar etapa que o título vem naturalmente. Focar em treinar em maré alta porque eles vão soltá-lo nessas condições sempre que puderem. Faça uma linha fluida sem aéreo e pronto. Esqueça aéreo e treina aquela rasgada meio de layback do JJ que os juizes adoram e faça igual. Foco em escolher as melhores ondas. E sim, os juizes vão te roubar de novo e de novo, então já espere por isso. Toda que vez que te deram uma nota baixa já saia remando com a cabeça pré programada pra pegar uma onda e arregaçar e outra e arregaçar, e que vai ganhar mesmo sendo roubado, e foda-se o resultado.

  7. Marco Tuba 7 de junho de 2017 / 19:23

    Perfeito Guaraná, só adicionaria que financeiramente ele está aproveitando seu momento muito bem , faturando alto e com investimentos consistentes. A hora que o turbilhão de dinheiro começar a diminuir, automaticamente lhe sobrará tempo e ele voltará. Acho que nem o gênio Slater aproveitou tão bem o seu momento no mainstream como a família Medina está aproveitando. Independente dele voltar ao topo ou não, já cravou seu nome na eternidade, mas surf pra voltar , todos sabemos que tem , é só tomar umas doses de mineirex.

  8. Rossi 7 de junho de 2017 / 21:08

    Gosto sempre de seu editorial. Medina está perdendo baterias por detalhes. Realmente o problema é mais comportamental do que técnico. A pressão é muito grande sobre ele. Nos fórum os demais surfistas brazucas são pouco lembrados enquanto ele… .

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