Acabou a surf music ?

Por Carlos Pinduca

Tempos para cá, tenho redescoberto algumas bandas australianas dos anos 80, que, no Brasil, eram muito populares entre surfistas: INXS, Australian Crawl, Hoodoo Gurus, Midnight Oil, The Church, Spy vs. Spy e GANGgajang. Esse reencontro aconteceu via You Tube, provavelmente num acesso de saudosismo da minha parte. É engraçado, pois devo parte da minha aproximação com o rock ao surfe, esporte que pratiquei com alguma seriedade entre 1985 e 1988, quando morava em Recife e, depois, no Rio de Janeiro. Meu irmão, quase 10 anos mais velho do que eu, foi quem me apresentou as bandas “do momento” e gravou as primeiras fitas de rock para mim.

O estouro de uma banda no meio do surf acontecia (e ainda acontece), muitas vezes, graças à aparição de alguma de suas músicas nos filmes e/ou vídeos do gênero. Desta forma, lembro-me de Talking Heads tocando no vídeo The Performers (1984); de INXS, num vídeo dedicado ao bicampeão mundial Tom Carroll; de Hoodoo Gurus, no filme Beyond Blazing Boards, e, já nos anos 90, de bandas como Offspring e Pennywise servindo como trilha sonora para o “novo surfe” dos jovens (à época) Kelly Slater, Rob Machado e cia., na série de vídeos Momentum.

Capa do filme Momentum de Taylor Steele

Capa do filme Momentum de Taylor Steele

Como a maioria dos discos não era lançada no Brasil – com exceção de INXS e Midnight Oil, talvez – o jeito era gravar de quem os trazia do exterior. Em tempos modernos de fácil acesso à internet, até quem viveu naquela época esquece o quanto era trabalhoso conseguir determinados sons (não lançados no Brasil): ir à loja da esquina para comprar uma fita K-7 virgem, marcar uma ida à casa do amigo ou conhecido para gravar o disco, deixar a fita gravando por cerca de uma hora (trocando-a de lado a cada 30 ou 45 minutos). O fato é que, muitas vezes, ter a fita ou disco de um grupo desconhecido era uma espécie de prêmio, digno de tiração de onda com os amigos que não o possuíam.

Mas voltando ao rock australiano em si. Depois de tantos anos sem ouvir essas bandas, lembrei que algumas delas eram mais do que lembranças saudosistas: elas possuíam qualidade musical. O Australian Crawl, por exemplo, tem ótimos arranjos, letras irônicas e “para cima” e um guitarrista de mão cheia. Já o Hoodoo Gurus traz uma pegada mais roqueira, com influências de Beatles e rock sessentista em geral, além de um instrumental competente e ótimo vocalista. O INXS dispensa apresentações, mas é uma banda, infelizmente, não muito levada a sério no Brasil. Quem quiser prestar a atenção neles vai se deparar com um pop competentíssimo, com arranjos excelentes, instrumentistas de alto nível e um vocalista com boa voz e carismático – o finado Michael Hutchence. O Midnight Oil também é uma ótima banda, que chegou a ser candidata ao posto “novo U2”, por volta de 1988. O som deles traz um jogo afiado de guitarras (que remetem ao Clash, em alguns momentos) e letras ecologicamente engajadas do ativista carecão Peter Garret – só acho a batida, às vezes, meio repetitiva. O The Church traz um som mais psicodélico, com influências de folk e apoiados na voz cool do frontman Steve Kilbey. As únicas bandas que, para mim, não passaram no teste do tempo são as da safra imediatamente posterior: GANGgajang e Spy vs. Spy.

O sucesso alcançado pelo filme Pulp Fiction, em meados dos anos 90, fez com que muitos artistas da verdadeira surf music (norte-americana, dos anos 60) fossem redescobertos pelo grande público: Dick Dale, The Tornadoes, The Revels, The Trashmen, The Ventures, entre outros. Esse fato colocou em xeque o rótulo utilizado – pelo menos, no Brasil – para designar as bandas australianas dos anos 80. Algumas matérias publicadas na imprensa musical à época até chegaram a desdenhar Australian Crawl & cia., ironizando o fato de terem sido chamados erroneamente de surf music até aquele momento.

Rótulos à parte, essa geração australiana dos anos 80 acabou deixando um legado bem interessante para o rock mundial, com suas composições leves, ensolaradas e espertas – muitas vezes na contramão da sobriedade em voga na Inglaterra. Além disso, marcaram um momento importante de profissionalização e divulgação do surfe no mundo, o que ajudou a identificá-las com o esporte. Nesse sentido, mesmo que não tenham sejam os verdadeiros pais da criança, tais grupos acabaram conquistando, no imaginário popular, o direito de receber a alcunha de surf music.

Enquanto não pego “as manha” do podcast, seguem alguns títulos para serem baixados, os quais podem dar uma boa idéia do rock feito na Austrália nos anos 80:

LADO A

1 – Boys Light Up – Australian Crawl
2 – This Time – INXS
3 – Bittersweet – Hoodoo Gurus
4 – Under the Milky Way – The Church
5 – Beds Are Burning – Midnight Oil
6 – Credit Cards – Spy vs. Spy
7 – Gimme Some Loving – GANGgajang

LADO B

1 – Errol – Australian Crawl
2 – Don’t Change – INXS
3 – Leilani – Hoodoo Gurus
4 – Reptile – The Church
5 – US Forces – Midnight Oil
6 – Don’t Tear It Down – Spy vs. Spy
7 – Shadow of your Love – GANGgajang

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