A lenda continua

Mark Occhilupo e Tom Curren. Duas figuras distintas em praticamente tudo. Um é goofy, o outro regular. Um é australiano, o outro americano. Um é extrovertido, o outro super tímido. Um é força, o outro harmonia. Um é Indomável, o outro Perfeito. Ambos são gênios!

Uma das poucas coisas realmente interessantes que a antiga ASP tinha feito nos últimos anos era este revival entre grandes campeões como Sunny Garcia, Martin Potter, Simon Anderson, Tom Carroll e em diversas ocasiões Occy X Curren. A nova ASP manteve a boa idéia e apenas mudou o nome do desafio. Ao invés de Clash of Icons agora o duelo tornou-se ASP Heritage Series. O que menos importa é como serão chamadas estas batalhas. O que vale é que a galera nascida dos anos 90 em diante tenha a oportunidade de ver, ao vivo, alguns dos sujeitos que influenciaram os milhões de surfistas existentes, incluindo aí todos os campeões mundiais a partir de 92, quando Kelly Slater, fã de Curren, iniciou sua dinastia.

Tanto Mark quanto Tom, diferentes mas com destinos similares, passaram por inúmeros problemas em suas grandiosas carreiras. Occy abandonou o Tour, se envolveu com drogas e bebida e chegou a passar dos 100 kg, sendo salvo por Gordon Merchant, fundador da Billabong, que fez de tudo para sua cria dar a volta por cima culmimando com o merecido título mundial de 1999. Curren, figura um tanto enigmática, basicamente não aguentou tanta gente enchendo seu saco após o bicampeonato mundial em 1986 e sumiu aos poucos. Talvez precisando de grana, resolveu retornar as competições e com alguns convites e atuações espetaculares teve o maior come back da história do surf sagrando-se tricampeão mundial em 90, vindo das triagens, para logo depois abandonar novamente o Tour.

Assistindo ambos nesta manhã de 19 de julho de 2014, em ondas de 10 a 12 pés em Jeffrey’s Bay épica, tive um déjà vu bacana dos meus tempos de garoto, onde minha idolatria por Curren beirava o fanatismo. Ao vê-lo, com 50 anos, totalmente em forma, se dirigindo para entrar no mar com uma 6’6″ Channel Islands, senti o quanto o surf representa para si, como se fosse uma religião, mantendo-o focado em levar uma vida plena e saudável. Occy, completamente fora de forma, com uma prancha grossa feito uma balsa, mais uma vez foi a antítese do maior rival.

Occy mesmo fora de forma, ainda tem a leitura correta de J Bay. Foto: ASP/Kirstin

Occy mesmo fora de forma, ainda tem a leitura correta de J Bay. Foto: ASP/Kirstin

O mais impressionante foi que Tom Curren surfou melhor do que a maioria dos Top 32 nas perfeitas, mas difíceis, condições de J-Bay. Não só pela nota 10 unânime, mas sim pela fluidez, visão, domínio e harmonia numa das ondas mais complicadas do planeta. Como um mestre, Tom domou não só o Touro como também as volumosas e rápidas direitas.

O tempo, cedo ou tarde, é cruel com todos. Por isso a minha felicidade ao ver um cinquentão dar uma aula de categoria aos jovens milionários e egocêntricos que vivem em busca de imagem. Em tempos de aéreos, rabetadas e discussões sobre julgamento, foi agradável ter a certeza de que a lenda Mr. Perfection resiste. Sempre discuti que um ídolo se faz por si próprio e não pela mídia. Thomas Curren é a prova viva disso!

Tom Curren mostrando toda a sua categoria no duelo contra Occy. Foto: ASP/Kelly Cestari

Tom Curren mostrando toda a sua categoria no duelo contra Occy. Foto: ASP/Kelly Cestari

 

1 Response

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *