Viva os ídolos!

Há uns bons 10 anos, quando ainda era editor chefe da revista Fluir, tive um encontro com alguns surfistas profissionais num campeonato e eles, como sempre, me cobraram espaço nas páginas da revista. Diziam que a mídia especializada era a responsável por formar ídolos. Além de dizer que infelizmente nós tínhamos um limitador chamado número de páginas editoriais (obviamente não dava para colocar todos sempre), eu discordava, afirmando que os ídolos não são produzidos apenas pela imprensa e sim criados pelos próprios surfistas, com seu carisma e resultados, seja em competições ou em performances no free surf. E também, que a única mídia capaz de lançar um provável ídolo seria a TV, que atinge uma massa maior de pessoas. Pois bem, hoje, posso dizer que o surf tem ídolos de verdade. Sejam eles do seu gosto ou não, alguns surfistas se transformaram em semi-deuses para um enorme contingente de crianças e adolescentes, o que me soa extremamente ÓTIMO!

Com a exibição maciça de Gabriel Medina na mídias da Globo, logicamente ele é o precursor disso. Só que com os resultados apenas medianos neste início de temporada, ele acabou abrindo espaço para Filipe Toledo e Adriano de Souza, que não são desconhecidos do público, mas que agora, como vencedores e líderes do Circuito, chegam ao Brasil como estrelas de primeira grandeza. Gabriel e Toledo, por serem mais novos, acabam atraindo a atenção da galera mais jovem que não mede esforços para conseguir um autógrafo. Neste fim de semana, aqui na Barra, uma penca de garotos e garotas marcaram presença no gigantesco palanque do Oi Rio Pro à procura dos Top 32, de preferência os citados acima. O brilho nos olhos desta molecada ao falar dos momentos passados com seus ídolos, me fez lembrar da minha época de grommet, onde qualquer ação de um Tom Carroll, Occy ou Curren, o ídolo máximo, me faziam perder o sono. Me atrevo a dizer que o único estrangeiro capaz de igualar a procura seja John John Florence, que assim como os brasileiros, esbanja simpatia e um gigantesco talento.

Isto é muito saudável para o esporte, já que o surf vem dando sinais de esgotamento através dos anos, sendo ultrapassado no gosto da juventude brasileira pelo skate e sua geração de campeões como Bob Burnquist, Sandro Dias e o fenômeno Pedro Barros. Mas parece que a hora da virada chegou, pois além de ter uma geração vencedora, os surfistas tupiniquins no WSL são educados, com uma boa imagem e muito talentosos. E a cada evento no Rio, sinto que conseguem agregar mais fãs. Vejo inúmeras reclamações sobre as condições ruins de ondas, dificuldades de logística e agora a falta de limpeza das praias cariocas (realmente vergonhoso) porém é de suma importância este movimento na maior cidade litorânea do país (número de habitantes) e uma das maiores do mundo. O Rio, com seus prós e contras, sempre foi palco das novidades na cultura do Brasil e o surf está na raiz destas inovações. A região Sul e Nordeste, além é claro de São Paulo, são importantíssimas no nosso mercado e esporte, mas é no Rio onde muita coisa começa. E penso que estes anos em que o evento do WCT retornou a Cidade Maravilhosa, algo mudou, se transformou. Não é visível ainda, não atingiu talvez o mercado nem os promotores de Circuitos, mas existe, e está no sorriso de cada menino e menina de 10 anos correndo atrás dos seus ídolos.

Talvez a mídia não especializada escreva e produza muita besteira. Fato! Talvez estejam de olho neste momento de algumas marcas que estão investindo pesado aproveitando Medina e Cia. Fato! Mas o que importa são os frutos desta exposição e o uso disso em prol de nós mesmos. O SuperSurf voltou. O mercado, mesmo numa crise insana, continua vivo, não da maneira com que os atletas gostariam em relação a apoio, mas existe. As revistas especializadas, importantíssimas na credibilidade e termômetro do que rola, parecem estar melhor das pernas do que em 2014. Enfim, apesar de tudo, vejo uma luz no fim do túnel, iluminada por estes novos ídolos da juventude brasileira, que agora, mais do que nunca, tem o peso de não desapontar sua legião de seguidores, menos nos resultados e mais em suas atitudes. Ganhar é bom, ser um vencedor no sentido literal da palavra é ainda mais fundamental. Hoje, o surf tem ídolos de verdade, não menosprezando os nomes do passado, mas enaltecendo as consequências de um longo caminho que se iniciou na década de 70 e vive seu auge em 2015. De Cauli a Picuruta, de Teco a Fabinho, de Burle a Maya, agora é a vez dos “brazilian storm”.

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