Vítima? Nem tanto.

Acabei de ler parte de uma entrevista concedida pela Silvana Lima à BBC no site Waves. Pela enésima vez, ela reclama da falta de apoio, agora para poder disputar o WQS e tentar retornar a elite mundial, a qual deixou ano passado. “Eu não sou modelinho, eu não sou bonitinha. Sou surfista profissional. As marcas de surfwear, na parte feminina, querem modelo e surfista ao mesmo tempo, então quem não é modelinho acaba não tendo um patrocínio, como no meu caso. Acaba ficando de fora, é descartada. Os homens não têm esse problema”, disse Silvana.

Acho que o buraco é bem mais embaixo do que este embate de beleza X competência. No caso, o maior problema de Silvana é o marasmo do mercado de surf feminino no Brasil. Se mal temos marcas, imagine eventos. Na realidade este mercado nunca existiu de verdade, ao menos num percentual digno. O que rolou foi um boom nos anos 2000 em que as marcas gringas aportaram de vez no Brasil e trouxeram a Roxy, Rip Curl Girls e Billabong Girls. Com uma pitada tupiniquim, as lojas se encheram de produtos bacanas e a mulherada, principalmente paulista e sulista, caiu dentro. Sei disso porque ajudei a fazer a FLUIR Girls, que foi o maior termômetro que tive em relação a este assunto.

Mesmo nessa época “dourada”, fechar a publicidade da revista, que tinha pouquíssimas páginas, era uma enorme dificuldade. E o número de exemplares vendidos raramente ultrapassavam a casa dos 2 mil. Muito pouco. Começamos tentando fazer da FLUIR Girls uma revista com padrão masculino, ou seja, matérias com as profisionais, capa de ação e algumas colunas… e o fracasso foi imediato. Depois de algumas reuniões, decidimos deixar a revista na mão de uma mulher, a editora Nilma Raquel, que deu uma repaginada mudando o visual e deixando o veículo com a cara mais feminina. Apesar do grito de um punhado de pros reclamando que isso não daria retorno, foi quando conseguimos melhorar as vendas e atrair marcas de biquíni, beleza e até alguns anúncios de agência.

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Só que este público nunca cresceu, pelo simples fato de que o surf feminino no Brasil sempre foi restrito. Sabendo que grande parte do consumidor não pratica surf, acho que um dos motivos para que a venda de surfwear para as mulheres tenha minguado seja a concorrência de uma enorme indústria de beach wear brasileira, com algumas das melhores marcas do planeta. Neste caso, o nosso ramo não dá nem pro cheiro. E esta, para mim, é a principal resposta as queixas de Silvana.

A questão me parece maior do que ela não se achar linda, mas sim não ter consumidoras para bancar o sonho da cearense de viajar o mundo competindo e curtindo. As marcas de surf vivem basicamente da moda masculina (bermudas, t-shirts, tênis) e os empresários não querem dividir suas verbas para outro segmento. E ninguém tem obrigação, em qualquer negócio, de dar mais e receber menos. Se preferem uma modelinho que mal sabe surfar, talvez seja porque o retorno seja melhor comercialmente, que é o que importa no fim das contas. Ou até porque é bem mais barato. E as marcas femininas, sejam de roupas ou estética, já tem um modelo de sucesso ligado a beleza. E não será uma talentosa surfista que irá mudar esta cultura, tão incrustada na sociedade, seja boa ou ruim.

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Não adianta comparar a Carissa Moore, que também não é nenhuma brastemp, pois o mercado americano é simplesmente gigantesco e lá a Roxy por exemplo é uma das grandes marcas de beach wear do continente. Num mundo consumista como o nosso, é natural que as pessoas quem possuem uma imagem mais impactante, seja por grande beleza, vitórias globais ou feitos inacreditáveis, sejam levadas mais a sério. E para a infelicidade da Silvana, ela não se enquadra em nenhum destes tópicos. Injusto? Sim! Mas C’est la Vie!

Silvana, teve um bom começo de ano em 2015, ao menos em suas atuações. Mas incrivelmente, depois de reclamar bastante e conseguir um patrocínio da Oi, teve maus resultados não conseguindo se reclassificar para o WSL. Curioso não? Será que o patrocínio da Oi fez mal? Lógico que não! A realidade é que o nível das meninas está muito melhor e Silvana ficou um pouco para trás. É uma grande surfista, precisa de apoio para ficar mais tranquila, mas não é só isso que atrapalha. Tá faltando alguma coisa e isso fica nítido quando se compara o surf dela com a das Top 8. O que não ajuda é culpar os outros pelos insucessos. Se a roda gira para este lado, vamos segui-la. Se tiver que dar um tapa na imagem, que o faça. Mas que isso seja um complemento, pois a verdade é que Silvana tem que se superar dentro d’água se quiser ser levada a sério pelos donos de marcas. E isso, em 2015, não aconteceu. E com patrocínio. Sei que é duro falar isso, mas ela sofre a consequência de um mercado pequeno, sem compromisso com a base do esporte e luta para que o mundo, cada vez mais ligado a perfeição, deixe de lado a obsessão pelos musos e foque em performance. Poucos atletas conseguiram ultrapassar os preconceitos da sociedade através de seus dotes esportivos, mas dos que ficaram para a história, 100% deles sempre cuidaram de sua imagem além dos campos, quadras e até praias.

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Ah, se quiserem saber qual foi a capa mais vendida da FLUIR Girls, eu digo: a estampa de Felipe Dylon, na época muso juvenil e recordista maior com quase 8 mil exemplares vendidos. Incrível não?!

1 Response

  1. Mario Sergio 4 de março de 2016 / 14:38

    Que tem que ter um surf de top 8, isso é certo, agora a questão de ser ou não “bonitinha” o que falta é um bom “marketeiro” né, com isso até a Dilma ficou “bonita” rsrsrsrsr.

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