Visões distintas

Adoro ler as colunas no Waves do meu camarada Túlio Brandão, o jornalista não especializado (se bem que já o considero especializado) disparado que mais entende de surf (Renato Alexandrino também manda bem mas ainda não tem a bagagem do Túlio, talvez pela idade). Só que nessa última, Mosaico de Trestles, muito bem escrita, para variar, ele tocou num ponto onde discordo veementemente.

Na sua análise sobre o Hurley Pro, em Trestles, ele tocou em alguns pontos e fez uma citação especial a John John Florence: “O havaiano merece uma deferência também porque, nas duas últimas etapas, foi o melhor surfista. A despeito da qualidade de seu surfe – ele era, de fato, o melhor na água em Trestles– o surfe de JJ parece ter, ainda, alguns vícios e limitações, como um arco falho de backside e movimentos que se apoiam excessivamente sobre o fundo da prancha, sem o recursos das bordas… Os arcos de Jordy e de Adriano de Souza, por exemplo, são superiores aos de JJ.”

Bem, para mim, John John é o melhor surfista do planeta, muito a frente de qualquer um. Ninguém domina todas as condicões de ondas como ele, nem Kelly Slater e muito menos Jordy Smith, que realmente tem belas manobras executadas com as bordas, mas basicamente em ondas um pouco maiores. Ah, mas Gabriel Medina é o líder do WCT e já venceu em Snapper, Fiji e Teahupoo? OK, ele é excepcional. Compete como ninguém e tem uma vontade de vencer assustadora. Mas não surfa melhor que JJF. Isso é um fato e sou obrigado a aceitar, como você, porque basta olhar suas atuações em competições e free surf para ver que tem coisas que apenas ele faz.

Posto isso, minha discordância ao texto do meu camarada tem a ver com minha leitura de que um cara que não surfa de borda nunca seria bicampeão da Tríplice Coroa Havaiana. Ou não seria o melhor surfista em Sunset e Pipe onde cravar a borda significa as vezes sobreviver. Comparar então as viradas de Adriano de Souza, um dos surfistas que mais evoluíram neste aspecto, com as do havaiano, ao meu ver é inconcebível. Basta assistir aos aéreos altíssimos alcançados por Florence em ondas de 6 pés, como as que quebraram em Trestles. Sem contar seus carves e lay backs poderosos, lembrando até Gary “Kong” Elkerton pela força ( Pode olhar na postagem 5 notas acima de 9 )  http://surf100comentarios.com.br/5-notas-acima-de-9/. Quanto ao backside, se quiser ter a prova real, assista as baterias de Fiji em 2013, onde ele simplesmente detonou em Restaurants, umas das ondas mais complicadas de surfar por causa da velocidade e da rasa profundidade da bancada.

E ainda coloco Medina neste assunto, pois o garoto também usa bastante as bordas, talvez de forma diferente da linha clássica de Parko, Fanning e o próprio Slater, mas ainda assim com cavadas que geram muita projeção e uma velocidade ímpar rumo ao lip (e grande parte das vezes além dele). Medina e Florence são a redefinição do surf, adaptados as novas manobras, que pedem um approach diferente do que estamos acotumados a ver. Como ambos são leves, apesar de não serem baixos, acabaram criando, cada um num canto do mundo, uma forma similar de executar manobras clássicas e modernas. A vantagem do havaiano obviamente é ser criado nas melhores ondas havaianas, enquanto Gabriel cresceu surfando as ótimas e muitas vezes pesadas ondas de Maresias.

Sei que Túlio vai levar numa boa este texto, até porque vivemos numa democracia e cada um tem direito a sua opinião. Só tinha que escrever sobre o tema, já que não pretendo falar muito sobre o evento na Califa, onde dei meus palpites em relação aos favoritos após o Round 1 (e acertei os finalistas!) pois o próprio Túlio descreveu muitíssimo bem. Duas visões distintas, mas que servem para enriquecer quem gosta de ler sobre o melhor do surf competicão e seus ídolos.

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