Ubatuba 100% Surf

Em 1986, durante o campeonato Sundek Classic, tive o prazer de conhecer um dos lugares mais surf do Brasil. Morava em Pernambuco, com poucas investidas em picos do Sudeste que fossem além do Rio de Janeiro, minha cidade natal. Logo de cara fiquei maravilhado com o lugar. Muito verde cercando as praias, uma beleza totalmente diferente da que estava acostumado no Nordeste. As ondas também me impressionaram, com longas direitas, que entravam no canto de Itamambuca. Para quem é regular, como eu, surfar ondas daquela qualidade é certeza de muita curtição. Estávamos em pleno plano cruzado e as marcas de surf estavam cheias de dinheiro para investir em campeonatos de grande porte. Naquela época, Itamambuca tinha um localismo pesado, respeitado pelos atletas que vinham de fora para competir. Mesmo com o clima um pouco hostil dentro d’água, a cidade já recebia seus visitantes de forma acolhedora.

Em 1987, primeiro ano do Circuito Brasileiro de Surf, cinco etapas determinaram o título de campeão brasileiro. Patrocinadas por cinco marcas paulistas de grande representatividade no mercado surfwear, Joaquina, Pitangueiras, Stella Mares, Itaúna e Itamambuca foram as praias escolhidas para sediar as competições nacionais daquele ano. De 1987 até 2015, a única cidade que não saiu no calendário nacional foi Ubatuba. A constância e a qualidade de suas ondas e a boa estrutura oferecida pela cidade foram determinantes para que Ubatuba se tornasse parada obrigatória do circuito brasileiro profissional. Da mesma forma, passou a ser palco de eventos internacionais desde 1988. Na semana passada, fui novamente para Ubatuba para fazer a transmissão da segunda etapa do Super Surf 2015. Desta vez o local escolhido foi a Praia Grande, no pico conhecido como Baguari, canto esquerdo da praia. Muitos perguntavam por que o campeonato havia sido tirado de Itamambuca, tradicionalmente a melhor onda do município. Foi porque a prefeitura da cidade, que ajudou na realização do evento, viu a possibilidade de atrair mais público para assistir à competição, uma vez que a Praia Grande fica dentro da cidade, oferecendo mais facilidades para os moradores locais. Com certeza a escolha do pico foi um grande acerto. A ondulação de leste, predominante durante todos os dias de competição, entra melhor em Baguari do que em Itamambuca, que fica com uma corrente contrária à ideal.

Em 1993, a extinta Sea Club também teve esse feeling e fez a sua etapa do brasileiro no mesmo local. Foi um grande evento. Dadá Figueiredo levou a torcida local ao delírio com seu surf moderno para a época, trazendo o caneco para o Rio. Neste ano, o catarinense Tomas Hermes foi o grande campeão. Mostrou muita velocidade e fluidez para linkar suas manobras. O paranaense Jihad Khord, que estava voando, não conseguiu barrar Tomas na grande final. Com 160 inscritos, o Super Surf está aproveitando o bom momento do surf brasileiro. Os atletas novos sonham em ser novos Medinas e os mais experientes em mostrar que ainda estão em forma. O duelo de gerações está sendo benéfico para todos.

Tomas Hermes mostrou uma abordagem modena para vencer a segunda etapa do Super Surf. Foto: Smorigo

Tomas Hermes mostrou uma abordagem modena para vencer a segunda etapa do Super Surf. Foto: Smorigo

Não quero falar da competição, pois todos os sites já colocaram o release do evento, contando tudo o que aconteceu. O meu intuito é falar sobre a importância de Ubatuba para o surf local e, consequentemente, para o surf brasileiro. As escolinhas de surf têm apoio da prefeitura e são levadas a sério pela comunidade. Nas escolas municipais, surf é uma disciplina da educação física. Poucas cidades têm projetos de base tão forte. A AUS, Associação Ubatuba de Surf, recebe uma verba anual para organizar o melhor circuito municipal do Brasil. Neste circuito participam atletas amadores, profissionais e os masters da cidade. Todos se mostram engajados no sucesso do circuito, trabalhando com muita seriedade e ética, virtudes de poucas entidades quando se trata de Brasil. O resultado deste trabalho gerou campeões brasileiros como Ricardo Toledo, Renato Galvão e Suelen Naraisa, e atletas da elite como Tadeu Pereira, Filipe Toledo e Wiggolly Dantas, além de uma grande quantidade de surfistas de ponta. Sem o localismo dos anos 1970 e 1980, Ubatuba é o exemplo a ser seguido por todos.

Sempre fiquei tranquilo com os eventos da ABRASP em Ubatuba. Sabia que seríamos bem recebidos e que dificilmente algo sairia errado. A preocupação com os detalhes é uma característica da AUS. Mais uma vez, tudo saiu melhor do que o previsto. O hotel onde nos puseram era de primeira, assim como o restaurante onde jantávamos, cujo dono, o ex-surfista Alfredinho, fez questão de nos receber e dar uma total atenção. Me senti em casa novamente. Trabalhar num local onde você se sente bem é tudo de bom. Escrevo este texto para agradecer a todos que nos trataram com respeito e profissionalismo. Se no esporte tivéssemos vários exemplos iguais aos de Ubatuba, seríamos imbatíveis. Teríamos a certeza de que as gerações sempre seriam renovadas e de que a tempestade brasileira dominaria o mundo por muito tempo.

Jihad Khodr arrebentou com sua prancha 5'6". Foto: Smorigo

Jihad Khodr arrebentou com sua prancha 5’6″. Foto: Smorigo

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