Plim! Plim!

Passados alguns dias da brilhante conquista de Gabriel Medina no Hawaii, dei uma pausa e começei a deixar a emoção de lado para raciocinar no que aconteceu nos últimos dois meses. Desde que o paulista ficou próximo de sagrar-se campeão mundial de surf profissional, a Rede Globo (TV, site, jornal) focou no garoto de tal forma, que a exposicão dele foi alçada a de um herói olímpico, se não tiver sido maior.

Não sou contra isso, ao contrário, Gabriel ou qualquer outro atleta vencedor de qualquer outra modalidade, merece todos os louros e reconhecimento pelo simples fato de que no Brasil estes exemplos de brasileiros passam o pão que o diabo amassou em grande parte da carreira. Nada mais justo que sejam elevados a categoria de semi-deuses. Mas já sou macaco velho e este tipo de exposicão, vindo de uma empresa gigantesca de comunicação, que faz jabá até em novela, não me parece apenas para criar e divulgar mais um ídolo nacional.

Já trabalhei em uma grande editora e sei que o faturamento, ainda mais nestes tempos econômicos complicados, exerce uma pressão enorme nas pautas, sejam esportivas ou de entretenimento. Isso pode até parecer antiético, mas não é, ao menos há algum tempo. Ficou esquisito, para mim, ver matérias grandes sobre Gabriel no Jornal Nacional e até chamada do evento nos intervalos da novela Império, horário mais do que nobre da TV brasileira. Uma propaganda de 30 segundos nesta faixa custava, há dois anos, cerca de 500 mil reais. Uma baba! Quanto você acha que a Rip Curl (estampada na camisa que o campeão mundial vestia) teve de retorno na entrevista ao vivo no JN, no sábado, dia 20 de dezembro, que durou cerca de 5 minutos? Também não estou aqui criticando a Globo por fazer um belo trabalho de jornalismo. Só não acredito que tenha sido porque a família Marinho pega onda. Tudo na vida tem um preço. E esta exposicão maciça não foi de graça.

Medina conta hoje com alguns patrocínios fortes como o Guaraná Antárctica (Ambev), Gillette (Procter & Gamble) Mitsubishi, Oi e Samsung, todos excelentes anunciantes da Rede Globo. Uma pressão desta galera poderia ser suficiente para mandarem uma equipe grande para o Hawaii no intuito de cobrir o tão esperado título mundial? Talvez, porém ainda acho que tem mais coisa.

Em novembro passado, rolou um Prime em Maresias, terra natal de Gabriel. O evento, o O’Neill SP, foi um sucesso. Pra quem não sabe, a Billabong pulou fora da etapa brazuca do WCT, atualmente realizada no Rio de Janeiro. O campeonato, basicamente bancado pela Prefeitura da Cidade Maravilhosa, está em compasso de espera, pois circulou pelos bastidores que em 2015 os promotores só contariam com a metade da verba dada anteriormente pelos políticos. Bem, isso foi antes de Gabriel se tornar o novo herói do Brasil.

Só que não me surpreenderia se o campeonato fosse para Maresias, bancado pelas marcas que apoiam o número um do mundo, com uma divulgação (diga-se de passagem mídia comprada) ainda maior da Globo. Pode ser um devaneio de minha parte? Sim! Mas impossível não é. Maresias tem excelentes ondas em maio, coisa que até agora não rolou no Rio. Maresias tem a família Medina e seus amigos. O Estado de São Paulo, junto com a Prefeitura de São Sebastião podem facilmente investir numa etapa do WCT, ainda mais com grana de publicitários que viram o surf ressurgir das cinzas na grande mídia (justiça seja feita, por causa da Rede Globo).

Tem um monte de gente que acha que o surf não deve se popularizar, pois com suas almas egoístas, não pretendem dividir o line up com mais surfistas. Mal sabem que a falta de educacão, um dos maiores motivos pelo preconceito que os viajantes brasileiros sofrem no exterior, é que torna o outside um lugar inóspito e com energia ruim. Por isso, mesmo achando que tem algum esquema em tamanha divulgacão, fico feliz que o surf retome seu lugar de direito entre os esportes. É uma atividade linda, natural, pacífica e saudável. E merece atenção de todos.

Já sei que grandes anunciantes estão voltando a procurar os dirigentes da ABRASP visando voltar a investir. Lógico que em moldes mais modestos. Que seja, pois para se chegar no topo da escada, tem que dar o primeiro passo. Se isso acontecer, os surfistas profissionais, omissos até agora, devem aplaudir, ler e assistir aos jornais, sites e programas de TV da Globo, 25º maior grupo de mídia do planeta em 2012 (dados: organização germânica IFM – Instituto para Políticas de Mídia e de Comunicação). Afinal de contas, foi a Plim Plim, personificada como Papai Noel, que deu o maior presente de natal para o surf no Brasil: a ressurreição.

Será que o WCT do Brasil pode parar Maresias ? Foto: Smorigo

Será que o WCT do Brasil pode parar Maresias ? Foto: Smorigo

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *