Para onde caminha o nosso esporte?

Por Dada Souza

http://surfonline.com.br/news/mercado/2014/09/para-onde-caminha-o-nosso-esporte/

 

O surf é um dos esportes náuticos mais praticados no Brasil (e no mundo) e um dos esportes radicais de maior visibilidade. Como mercado, o surf movimenta bilhões de dólares e possui circuitos profissionais e amadores e um grande número de atletas amadores e profissionais que vivem exclusivamente desse esporte. São atletas, juízes, fotógrafos, filmmakers, organizadores de eventos, empresários, fabricantes, comerciantes, representantes, todos apaixonados pelo esporte e que fazem parte de uma imensa indústria.

Nunca antes o surf brasileiro esteve tão na moda. Nomes como Adriano de Souza, Gabriel Medina, Miguel Pupo, Filipe Toledo, Alejo Muniz e Raoni Monteiro são destaque no surf mundial e atletas de ponta no WCT.  O Gabriel Medina e o Adriano de Souza são atletas que fazem parte de uma elite dentro da elite do circuito mundial  e são esportistas com grande destaque nas mídias impressas, eletrônicas e televisivas. São atletas que levaram o surf brasileiro a um patamar nunca antes alcançado. Mais do que isso, o brasileiro Gabriel Medina é o líder do ranking mundial e considerado o grande favorito ao título mundial de 2014. Ironicamente, o surf nacional passa por seu pior momento em termos de mercado e de estrutura. Amadorismo na gestão das entidades e dos circuitos, a falta de interesse e de investimento por parte das marcas e muitas pessoas utilizando as federações para uso exclusivo de seus interesses particulares são algumas das principais causas do problema.

Em termos de estrutura competitiva, o Brasil já teve um dos circuitos profissionais mais bem pagos do mundo e etapas com grande público e visibilidade. Hoje, depois de viver o melhor dos mundos em termos de circuito, o surfe brasileiro faliu, morreu. Não temos mais um circuito brasileiro profissional e não temos muitos dos antigos circuitos regionais. Nossos atletas praticamente não tem mais eventos ou premiações que os sustentem, nossa mídia especializada praticamente abandonou o esporte e as marcas e lojas se esquivam dos patrocínios como que o diabo foge da cruz. Sem eventos, sem patrocínio e sem retorno, não há jeito do esporte sobreviver. Hoje falta investimento e patrocínio e falta gente com credibilidade para administrar o esporte. Só falta a pá de cal.

Muita gente que faz parte da história do surf levanta uma questão importante: existem federações que foram transformadas em um negócio privado por seus presidentes. Não existem assembléias, nem prestação de contas, muito menos novas eleições. E isso tem acontecido de norte a sul do país. Sem uma gestão profissional e com dirigentes amadores e gananciosos, que visam somente seus interesses particulares, a maioria dessas entidades se transformou em empresa privada disfarçada de federação. O mesmo parece acontecer com as associações afiliadas. Quem está no poder não faz pelo esporte e nem larga a boquinha. Transparência e prestação de contas são conceitos que alguns dos  cartolas do surf parecem desconhecer.

Para onde vai o dinheiro das inscrições? Porque quase não acontecem novas eleições nas federações e associações? Por que não existem prestações de contas? Por que sempre as mesmas panelinhas controlam o surf nacional há décadas? Não deveria haver uma entidade idônea cobrando resultados e prestações de conta das Federações e Associações de surf? Por quantas vezes um dirigente de federação ou associação pode se reeleger? Quantas entidades de fato respeitam os estatutos vigentes? Quantas entidades dão algum apoio efetivo para seus atletas? De que lado está a imprensa especializada? São muitas as perguntas e poucas as respostas.

O surf, antes um esporte livre, rebelde e de contracultura, parece que vai aos poucos seguindo o modelo tão criticado da CBF: vive mamando nas tetas do governo e muitos de seus dirigentes administram em causa própria. Sem uma fiscalização e sem prestações de contas verdadeiras, a maioria dos “cartolas” do surf nacional usam as  entidades para seu próprio benefício.

Viver de verbas públicas tem sido a principal estratégia das federações. Em vez de conquistar respeito e credibilidade ou de criar parcerias com empresas privadas, hoje os dirigentes querem o caminho fácil das verbas públicas. E verdade seja dita, se não fossem os governos estaduais e municipais, há mais de 10 anos não teríamos um único evento importante em nossas praias. As marcas malandramente se esquivam de patrocinar alegando problemas financeiros e a crise do esporte.

Em um post do Sérgio Gadelha (Head Judge da ASp e diretor de prova) que causou polêmica no facebook, Juca de Barros ainda alertou: Em 2013 foi sancionada uma lei que proíbe a reeleição dos dirigentes de entidades que constituem o sistema nacional de desporto, que só podem ser reconduzidas por mais um período e depois não podem mais ser eleitos, nem seus familiares. Mas será que isso acontece? 

Existe uma necessidade latente de que o surf brasileiro seja reciclado, renovado e profissionalizado. Mas para haver tamanha mudança, é preciso ação e cumprimento das leis. É preciso que as denúncias sejam encaminhadas e que auditorias sejam feitas em todas as entidades. Só com as laranjas podres sendo retiradas do cesto é que o esporte poderá novamente crescer. Só com pessoas comprometidas e preparadas é que o esporte pode mudar e evoluir. Mas para isso, é preciso também que os atletas se unam, que sejam mais inteligentes e que façam valer seus direitos, afinal são eles os primeiros interessados e os primeiros prejudicados com esse atual sistema, viciado em verbas estatais e com muito pouco comprometimento com o esporte e com os atletas. Enquanto continuar essa privatização das entidades esportivas, enquanto dirigentes trabalharem em benefício próprio e não do esporte, enquanto não houver uma renovação de dirigentes, juízes e equipe técnica, enquanto as associações não participarem do conselho das federações, enquanto não houver transparência e prestação de contas, o surf, como esporte, continuará sem credibilidade, sem um retorno justo para com os atletas e caminhando a passos largos para o fundo do poço e rumo à falência do esporte.

Luis ‘Pinga” Campos, empresário de atletas e profissional de marketing, recentemente fez um comentário com um grande conhecimento de causa; “Ao meu ver e uma questão de gestão esportiva, coisa que não vem acontecendo. Estão tratando de forma amadora e pessoal. Devemos reunir um grupo de pessoas que realmente tem o interesse que a coisa melhore em um aspecto geral. Com base no esporte, mas que melhore o mercado em um todo, pois com as entidades estruturadas, seguindo a cadeia de associações fortes, Federações Fortes e Confederação / LIGA forte, todo o mercado se fortalece, passando credibilidade e assim atraindo investimentos do próprio mercado de empresas de grande porte. Temos que ter em mente que estamos passando por um momento de crise de identidade, precisamos resgatar a identidade e colocar a direção do esporte e mercado no trilho novamente, ai sim melhora para todos, mas e preciso realmente vontade entrega e feeling.”

Bira Schauffert, organizador de eventos, empresário de atletas e responsável pelo grupo SalvaSurf, vive do surf há exatos 30 anos. Segundo ele, um dos maiores problemas está exatamente no nível das pessoas que estão envolvidas na direção de algumas entidades que organizam o esporte, que não tem preparo para representar nosso esporte! Ele também cita a falta de transparência, que deixa o surf como um esporte com menos expressão. “Tivemos grandes momentos, períodos muito importantes no surf nacional amador e também profissional e hoje vivemos talvez o pior momento do nosso esporte em nível de Brasil. Vivemos o melhor momento da historia de alguns atletas brasileiros no WCT, mas isso não reflete no surf nacional, essas conquistas da nova geração não geram uma melhor estrutura do surf no Brasil. A base para formar novos talentos está comprometida por conta da desorganização das entidades nacionais”. Ainda segundo Bira Schauffert, “é necessário uma renovação completa de pessoas e uma mudança nos parâmetros até aqui estabelecidos. Mudanças de regras e nos formatos de competições e uma gestão mais profissional, que deixe para trás os vícios do passado, que hoje não se enquadram mais na gestão do esporte.” “Temos totais condições de criar uma nova fase para transpor esse momento delicado que estamos passando. Não tenho dúvida que nossos maiores obstáculos estão na gestão do nosso esporte. A surfwear tornou-se cara e perdeu muitas vendas ao longo dos anos e o consumidor final perdeu o interesse por essas marcas. Talvez a surfwear precise reciclar suas idéias, tendências, valores , etc…” finaliza Bira.

Jordão Bailo Junior, diretor técnico da Confederação Brasileira de Surf e profissional envolvido com grandes eventos nacionais e internacionais, comentou que a atual fase do surf, como esporte, passa por uma conjunção de elementos, que depende da situação política, econômica e social do país e de seus estados e municípios. “Sabemos que a situação no país é a pior possível em termos de investimento do poder publico em qualquer esporte que não seja o futebol. Dependemos de veículos específicos como a TV fechada e de publicações especializadas, mas sabemos que não é daí que vem o dinheiro que financiaria o esporte. E quando o poder publico realmente investe no surf, é com quem já não precisa, ou seja com os profissionais do circuito mundial. Gasta-se alguns milhões de reais para se trazer os gringos para o Brasil (o que é legal), mas não se gasta um décimo disso na formação de atletas na base e nos rankings regionais e nacionais. Também não se admite a valorização das pessoas que dedicam suas vidas a esse esporte. O que geralmente fazemos quando nos tornamos dirigentes de surf é gastar aquilo que não temos procurando ganhar aquilo que os outros pensam que ganhamos. Esses são alguns dos problemas conjunturais e sociais que precisam passar aqueles que vivem (tentam) do surf.”

Outro ponto importante que Jordão Bailo levanta é que a livre iniciativa, que paga impostos altíssimos, não tem excedente para investir no esporte, esse dinheiro se concentra no poder publico que o distribui de acordo com os seus interesses, e o surf não é um deles. “As associações, federações e Confederação não tem como investir em estrutura. Quase nenhuma delas tem dinheiro para simplesmente ter um escritório, com telefone, internet, funcionários (o que é o mínimo para se trabalhar). Quantas associações tem um timer, palanque, computação? Quando tem disponível, é particular. Quem tem dinheiro hoje para viajar o Brasil inteiro com uma equipe de surf com 15, 20 componentes? “ “Solução? Sim, ela existe, mas depende hoje, mais da união das forças daqueles que mais se preocupam em derrubar os outros, do que qualquer outra coisa. Não perceberam que estão todos no mesmo barco, estão todos sem dinheiro, e com a perspectiva de ver seus negócios perecerem. Ou sentam todos a mesa, cada um com suas crenças e convicções do que pode dar certo e se chegar a um acordo que viabilize um futuro para nosso esporte. Ou continuaremos vendo pessoas que poderiam ser bons amigos na vida, se xingando e brigando pelas migalhas, causadas pela divisão que eles mesmo causam.”

Virgílio Panzini de Matos já foi presidente da Federação Gaúcha de Surf, foi diretor da ABRASA e tem décadas de envolvimento direto com o esporte.  Virgílio fez uma abordagem mais histórica e comentou que na época da  ABRASA o surf era apenas diversão no Brasil, não fazia parte do Sistema de Desporto Brasileiro, não tinha regras padronizadas nem número e registro de atletas. Só com o com o título mundial de Fabinho Gouveia, em 1988, depois de pressionar o Conselho Nacional de Desportos é que o surf foi legalizado e o Perdigão, foi o primeiro presidente da Entidade e depois disso o Marcos Conde criou a CBS. “Tudo isso no tal estatuto sem fins lucrativos, uma mentira brasileira. Você e seu grupo trabalhavam que nem cavalo e tinham que inventar despesas, para justificar o pro labore justo (?). No final dos anos 90 surgiu a Lei Pelé, que regulamenta os Clubes de Futebol como Clube Empresa, ou seja, seus Diretores podiam (e deviam) ser remunerados. Só que o surfe ficou a margem disso. Ninguém levantou essa bandeira, nem mudaram o estatuto das entidades. Ficaram todos nessa mentira do sem fins lucrativos, isentos de pagar impostos. Ficou esse vazio administrativo. Quem possuía mais experiência se afastou e a boa gestão se perdeu.. Precisamos mudar as regras das entidades para que estas trabalhem em prol do desenvolvimento do esporte e para que seus dirigentes também tenham a sua fatia do bolo.”

“Nossa base está caótica, discuti isso no FESTIVALMA em São Paulo com o Avelino Bastos e o Neco Carbone. Deveríamos criar um Simpósio para debater tudo isso. Surf, competição, entidades, fabricação de equipamentos, regulamentação das profissões envolvidas, tudo isso. Nos Estados Unidos existe a SIMA, que regulamenta todos os boardsports, na Europa existe a EUROSIMA. Se não formalizar, não há como dar certo. Nossa cadeia produtiva só privilegia as grandes confecções, os tubarões do mercado que sugam a imagem do surf, mas que não pagam nenhum imposto a nenhuma entidade.” comentou Virgílio Matos.

Marcelo Andrade, ex presidente da ABRASP e organizador de diversas etapas do circuito brasileiro de surf profissional, também fez a sua análise. “A estrutura do surf brasileiro não está ruim, de forma nenhuma. Não acho que a divisão do gerenciamento do amador e do profissional também seja ruim, porque facilita no processo de organização de cada categoria. O que muitos questionam é como está sendo administrado cada entidade ( associações, federações ,etc).  As pessoas que fazem parte das entidades tem que cobrar uma administração séria e transparente. Se todas as entidades conseguissem fazer a sua parte de forma correta, ninguém questionaria nada e o esporte estaria em outro patamar. O que falta é uma unidade no pensamento e nas ações. As entidades trabalham como se fossem concorrentes.” Quanto ao futuro do surf e a evolução do esporte, Marcelo Andrade comentou “Primeiros as mídias especializadas deveriam mudar sua forma de cobrir as competições. Nenhum empresário quer apoiar atletas ou eventos porque sabem que terão pouco retorno. Os empresários das revistas e sites acham que o dinheiro que vai para eventos e atletas podem tirar anúncios da empresa e pensam pequeno. Não observam que isso faz parte de uma engrenagem que está parando por falta de lubrificação.  É um processo de médio e longo prazo que não estão enxergando.” “As entidades deveriam se unir para criar um projeto consistente para o surf nacional. Existe um isolamento das entidades que acham que são concorrentes para fechar seus eventos com as marcas do segmento. ASP, ABRASP e CBS tem um distanciamento gigantesco quando deveriam unir forças para seguir em frente neste momento de crise. Porém a forma de trabalho é totalmente separada e concorrente. Penso que os formatos deveriam ser repensados. O produto surf não está agradando e se não fosse o dinheiro público não teríamos nenhum evento de grande porte no Brasil.”

Outras pessoas que fazem parte da gestão do esporte e/ou da história do surf foram convidadas a participar do debate, mas não se manifestaram.

O que pude notar  é que existe uma grande quantidade de pessoas que amam e vivem do surf e que querem mudar essa triste realidade que o nosso esporte atravessa. Por outro lado existe um grupo também grande de pessoas que fecham hermeticamente em suas entidades morrendo de medo de perder a teta onde mamam às custas de todo um esporte. Claro que um possível título mundial do Gabriel Medina pode (pelo menos teoricamente) dar uma bela turbinada em nosso esporte e atrair mais investimentos, aumentar as vendas e fomentar o esporte entre as crianças. A grande quantidade de matérias sobre o Medina na TV e em todas as mídias e o exemplo da carreira bem sucedida dos nossos principais atletas, associados e diversos outros fatores irão de fato contribuir para o crescimento do surf. Mas crescer de um jeito desordenado, perder a alma e a cultura do esporte e continuar dando dinheiro para pessoas sem preparo que mais sugam do que contribuem com o surf, é algo que preocupa muito quem vive do esporte.

Aqui foram publicadas algumas das visões e pontos de vista e algumas opiniões de quem trabalha com o esporte. Quem quiser colaborar enviando críticas, idéias visões ou simplesmente contrapor as visões aqui apresentadas, o espaço está aberto. Se tem uma coisa de que nosso esporte realmente precisa, é de discussões sadias, de novas idéias e de uma gestão mais profissional. O espaço está aberto.

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