O suvaco de Medina

Realmente existem coisas que custo a acreditar serem possíveis. Uma delas vi nesta semana, quando o grupo Mesa Surfocrática, do Facebook, postou um vídeo com Gabriel Medina raspando sua axila com o Gillette Body, raspador de pelos para homens lançado pela marca da gigante Procter & Gamble. Este clip faz parte de uma mídia da Gillette Brasil no You Tube: https://www.youtube.com/user/gillettebrasil. Nesta página, Medina ensina como se usa o produto na hora de raspar o peito, abdômen e axila.

Não sou preconceituoso! Cada um faz o que quer de sua vida. Este tipo de produto, típico dos homens metrossexuais, pode agradar a quem tem muitos pelos e se incomoda com isso mas no caso, achei de extremo mau gosto a forma de divulgação. Me soou vulgar e apelativo. Sem falar que visivelmente Gabriel não estava à vontade fazendo aquilo. É óbvio que está na hora do staff do jovem de 21 anos faturar com a imagem vencedora e de bom menino de Gabriel, mas tudo tem um limite. E pior do que o mau gosto, foi a enorme bola fora perante as pessoas que comentaram tal vídeo. Afirmo que a repercussão, ao menos no meio do surf, foi bem negativa. Para ilustrar o que digo, você já viu algum anúncio de depilador feminino sendo usado na virilha por uma mulher de pernas abertas? Não! Sabe porque, é de mau gosto e agressivo! Ou seja desnecessário! Existem outras formas de mostrar o uso de um produto.

Gabriel está abrindo um novo caminho ante a grande mídia brasileira. Seus feitos e até passos estão sendo exibidos em rede nacional para milhões de pessoas e cada acerto ou erro repercutirá bastante. Por isso, penso eu, ele necessita de gente capacitada para poder tocar sua imagem perante os possíveis patrocinadores e mídia. Vender a cara de um garoto campeão no auge é mole, quero ver manter isso dando tiro no pé e parando de vencer. Sim, porque no esporte em geral, não é todo dia que surgem Federer, Tiger, Rossi, mesmo Slater, verdadeiros multicampeões. Gabriel é um excepcional surfista, mas ainda está anos luz atrás deste rol de ídolos. Não digo que seja incapaz de no futuro cravar seu nome na lista, mas vivo o presente, e agora ele não faz parte disso.

O surfista sempre foi um ótimo estereótipo para vender saúde, beleza, culto a natureza. E continua assim. Existem diversas formas de utilizar a imagem de uma celebridade, seja esportiva ou não, na divulgação de um produto polêmico (sim, porque não conheço nenhum homem que raspa as axilas, bem talvez um…). E o fato de se submeter, mesmo que seja por inteira vontade, demonstra que talvez  tenha faltado bom senso ao surfista (continuo a bater na tecla de que Gabriel é muito novo e sem a maturidade necessária para tomar decisões que certamente o afetarão) e visão de marketing a quem comanda o destino de sua imagem.

Cansei de frequentar o ambiente publicitário e conheci muita gente genial, da mesma forma que um monte de incompetente, puxa-saco, que não conseguia ter nenhuma idéia razoável. Não conheço o responsável, ou responsáveis, pela idéia de jerico de pôr o campeão mundial de surf raspando seu suvaco, mas realmente torço para que tenham um mínimo de humildade e reconheçam o passo em falso, para que possam entender que nem sempre o dinheiro vale a pena. Nesta mesma página do You Tube, vemos o time de estrelas da Gillette como Lionel Messi, Vitor Belfort, Roger Federer e nenhum deles usa o lançamento da marca se raspando. Será que a empresa achou que eles não seriam bons garotos propaganda ou o staff dos ídolos mundiais vetou uma ação deste tipo? A resposta parece ser óbvia.

Muitos podem até falar que este assunto não é da minha conta. Discordo! A partir do momento que uma ação de marketing chega a meu computador, TV ou meio impresso, passa a ser de minha conta também. E tenho total direito de achar bom ou ruim. No caso, vou além, digo que foi péssimo e chego a acreditar que Gabriel está arrependido de ter feito isso. Afinal, se neguinho tá zoando ele nas redes sociais, imagine quem tem mais intimidade.

Aproveitando o texto, vou cravar outra medida que julgo ser emergencial para o sucesso a longo prazo de Medina. Precisa melhorar o seu inglês, e muito! Uma coisa é saber se comunicar com a galera, outra é se comunicar com a mídia. Fazer-se entender é um dos principais conceitos para se tornar uma boa imagem. E se você não sabe se comunicar, certamente falará bobagens, como no caso da entrevista à Peter Mel após a derrota para Glen Hall no Quiksilver Pro. Ver Gabriel brigando para se expressar passa uma imagem de ignorante (não adianta os pseudo-patriotas falarem que saber inglês não é importante, pois é, afinal a língua universal é o inglês) que não condiz com um exímio competidor de raro talento. Ao invés de pensar no agora, o staff de menino precisa se lembrar de que existe futuro. E por favor, sem mais raspadas!

7 Responses

  1. Ciclotron 19 de março de 2015 / 17:21

    Amigo, me desculpe, mas estais sendo preconceituoso e muito. Suas palavras estão carregas de ódio ao modelo de novo homem, aquele que raspa os pelos do corpo, o homem do futuro e Gabriel representa bem esse homem independente de raspar as axilas ou não. Se raspa quem quer, o importante é que tem mercado para isso e o garoto está cumprindo a agende de seus patrocinadores. Seu agente Charles sabe muito bem o que está fazendo: faturando para garantir o futuro da família quando o dia de “vencedor” chegar ao fim como é o caso do Slater que passou a camisa para o Gabriel. Claro que Gabriel ficou desconcertado ao falar do produto porque sabe o quanto conservador é o surf, mas isso mais aqui no Brasil do que em qualquer outro lugar. O surf mundial é nosso e o futuro é AGORA.

    • Guaraná 19 de março de 2015 / 17:55

      Não costumo aprovar nem responder comentários de gente que não tem coragem de se identificar, mas como as suas palavras foram a de muitos outros que também sei não terem muita afinidade com a leitura, resolvi fazer uma exceção. Em primeiro lugar não fui preconceituoso, pois pouco me importa se o Medina ou qualquer um vá raspar o saco, a cabeça, o peito… Isso, como afirmei, é um problema de cada um, de acordo com a vaidade ou sei lá o que. O que frisei foi que acho de extremo mau gosto fazer um vídeo com uma pessoa que ainda não tem uma imagem consolidada, exatamente por ser muito jovem e surgir para o grande público há menos de um ano. Se os grandes nomes do esporte patrocinados pela Gillette não fizeram, não soa meio estranho pegar um garoto e usá-lo para averiguar o mercado? Pois foi isso que ocorreu. Se a marca estivesse tão segura do que fez, este anúncio estaria passando no intervalo do Jornal Nacional ou da nova novela da Globo, onde aí sim, se tem uma audiência. Como disse, é óbvio que está na hora de faturar com a conquista do título, mas não a qualquer preço, pois lhe garanto que o dinheiro ganho para fazer isso não fará tanta diferença no atual momento de sua carreira. O surf não é conservador, ao contrário, a sociedade é conservadora. O surf sempre foi contracultura e por isso tem o status de rebelde. Só que até nisso é necessário ter bom gosto, coisa que infelizmente os responsáveis pela propaganda não tiveram. Viu o anúncio do Guaraná Black? Aquilo é de bom gosto, linkando o esporte com o produto. Agora, gosto não se discute, se lamenta, se você achou bacana vê-lo raspando o suvaco, ótimo para ti. Eu, e muita gente não curtiu!!!

      • Ciclotron 19 de março de 2015 / 22:14

        Eu tenho identidade sim, basta clicar no meu nome que você será direcionado para o meu site. Mas se for muito trabalho segue minha ficha:
        Nome: Irajá D’Almeida Lins Neto
        Profissão: Surfista / Psicólogo / Fotógrafo
        Empresa onde trabalha: CICLOTRON
        Cargo: Esquizoanalista
        Você me respondeu porque eu tive coragem de me expor e fazer um comentário no excelente site de surf que acompanho todos os dias, coisa que nunca vi ninguém fazer.
        Acho que você leva a sério demais propagandas. Todas elas são apelativas, enganosas e passam rápido, logo mais ninguém vai se lembrar de Medina “raspando o suvaco”.
        Já que tocou no assunto do “Guaraná Black”, saiba que a propaganda foi processada por está divulgando um produto enganoso uma vez que foi comprovado que não contem “acaí” no tal refrigerante. Isso sim é uma repercussão negativa pra imagem de um atleta, mais do que raspar “o saco, a cabeça, o peito…”, visto que a marca submeteu o mesmo a divulgar um produto enganosos. Eles já retiram da propaganda o anuncio de que havia “acaí” no produto depois de pagar uma multa, claro. Mais uma vez essa sua analise é preconceituosa sim por deixar passar um fato como esse na propaganda da Guaraná e se apegar ao fato de “homens se depilarem” independente de ser o Gabriel Medina.
        Tem solidificação maior de uma imagem para um atleta do que ser Campeão Mundial, independente da sua idade? Basta um único título para isso. Alguém aqui esqueceu da imagem de Nick Wood vencendo em Bells Beach aos 14 anos de idade? E o surf e os artigos de Alex Guaraná para a Fluir? Quem acompanho o surf sair da “contracultura” e conquistar a “cultura”, nunca esquece dessas imagens.
        Quanto ao surf ser conservador ele é sim, olha pra você se importando com os homens que raspam o saco. Mais conservador que isso só deixando o pelo do nariz crescer junto com a barba até chegar no chão. O futuro é agora e ser rebelde hoje é raspar a cabeça e não mais deixar os cabelos crescerem. Namastê!

        • Guaraná 19 de março de 2015 / 23:04

          Que bom que você se identificou, já que é de praxe quando alguém envia uma mensagem ou comentário se identificar. Pois bem Irajá, com todo o seu aprendizado de psicologia, por favor, não diga coisas que não escrevi. Novamente falo que não me importo se fulano ou ciclano se depila, gosta de homem, mulher, é negro, ou branco. A questão do texto não é essa e se você não entendeu, vou tentar explicar, em letras maíusculas, pois quem sabe assim agora entende: O STAFF DO GABRIEL PODERIA TER APROVADO UM VÍDEO DELE RASPANDO O PEITO, AS COSTAS E ATÊ O ABDÔMEM, MAS AS AXILAS DERAM UM AR VULGAR E DESELEGANTE A UMA PROPAGANDA COM UM CAMPEÃO MUNDIAL, SEJA DE SURF, NATAÇÃO OU BOCHA. E O TRABALHO DE UM AGENTE É JUSTAMENTE NÃO EXPOR SEU PUPILO A SITUAÇÕES COMO ESSA. OU VC NÃO REPAROU QUE 99% DAS PESSOAS QUE COMENTARAM ACHARAM APELATIVO?????
          Quanto ao anúncio do Guaraná Black, não falei sobre a veracidade do produto e sim sobre o nível do anúncio, de extremo bom gosto. Ou seja, você deturpou o que eu disse.
          Discordo de ti quanto a todas propagandas serem enganosas. Você está errado! Ou então revoltado! Existem boas e más, simples!
          Se você acha o maior barato ver homem depilando as axilas ou mulher depilando a virilha num anúncio, problema seu. Se você quer ser careca e acha legal, problema seu! E tem todo o direito de ter sua opinião respeitada. Assim como eu e qualquer um temos o direito de achar rídiculo uma exposição mal feita e produzida sem alguém nos chamar de preconceituosos. Vamos terminar o assunto com eu achando caído este tipo de ação e você achando legal. Como te falei, gosto não se discute, lamenta-se!

          • Ciclotron 20 de março de 2015 / 00:05

            Bom, achei que minha foto no perfil dos comentários e meu site eram “identidades” sem ter que me dá o luxo de abrir aqui para todo mundo ver. E não vi comentário algum por aqui sobre o assunto para ver que 99% das pessoas desaprovaram a imagem do Gabriel na tal propaganda, sendo eu esse 1%, que prova o conservadorismo dos surfistas em relação as mudanças de gênero. É apenas uma propaganda, galera!
            Penso que se o incomodo fosse só esse de ver alguém raspando a axila num comercial de TV, não teria gerado uma matéria como essa e nós não estaríamos aqui discutindo sobre o assunto. O que fica parecendo que te incomoda o fato de “homens depilarem as axilas”, coisa que era só para mulheres, mas a propaganda sabe que isso mudou e o mercado tá cheio de consumidor. E por que não usar um surfista para isso?
            As propagandas são sim apelativas e enganosas uma vez que têm o objetivo de aguçar a imaginação das massas para despertar o desejo de consumo. Essa propaganda “apela” nas imagens (raspar axila, peito, cabeça, etc….) e nos induz acreditar que o produto é tão bom que ao usá-lo não corremos o risco de cortar a pele e isso é um “engano” pois a melhor formar de depilação ainda é a cera.
            Quanto ao “Guaraná Black” também achei de bom gosto mas ao saber que o produto não tinha “acaí” ela caiu drasticamente no conceito e manchou a imagem do atleta que está ali para passar uma confiança, uma veracidade, ao produto que está anunciando. Isso é mais grave que aparecer raspando a axila, a meu ver. A propaganda “apela” para que você “se jogue no escuro”, ou seja, se jogue no “sabor do guaraná com acaí” sem saber que não tem a fruta no produto apenas na embalagem. Se “engane” e viva a sensação de ser Gabriel Medina tomando “Guaraná Black”, um produto completamente enganoso.
            Então, quem nos enganou, a Guaraná ou Medina? Os dois!

  2. Raphael Campos 20 de março de 2015 / 01:15

    Olá Guarana. Em primeiro lugar, sou grande fã e admirador do seu trabalho pelo surf. Acabo de ler seu texto e gostaria de aproveitar para deixar mais algumas palavras sobre o assunto. Quero tocar em um ponto, que para algumas pessoas, pode parecer preconceito, mas não é. É uma observação que deve ser considerada.

    O fato é que assim como aconteceu com esta campanha criada para o Medina, muitas outras irão surgir, colocando os atletas neste tipo de situação. Isso porque teremos de aceitar pessoas que nunca surfaram e não fazem ideia do que o Surf significa, criando propagandas pro público surfista. São marcas que nunca contribuíram para o surf querendo se aproveitar do momento.

    Isto traz a tona o que considero o maior perigo, pois mais preocupante do que a imagem do Medina é a imagem do próprio Surf como esporte e estilo de vida. Isso sim me preocupa. Pois acredito que o surf tem uma missão a propagar bem diferente desta imagem que vem sendo explorada e “vendida”. E um bom exemplo dessa missão que o surf carrega são as ações realizadas pelo Rob Machado no mundo todo, principalmente nas regiões mais necessitadas de apoio, sobre tudo com o “Waves for Water”. Espero não ter dito apenas bobagens.. rss

    Abrs! Att, Raphael Campos.

  3. Ciclotron 20 de março de 2015 / 15:54

    Comparo o surf a uma arte zen budista. Quando estamos em cima de uma prancha, sobre as águas, deslizando nas ondas, toda a dualidade terrestre do mundo dos homens desaparece. Entramos em comunhão com a natureza e somos abençoados com uma sensação de unidade com Deus, com o cosmo. Essa é a filosofia do surf. Muitos nem sabe o que estão buscando, uns querem apenas surfar, outros competir, mas todos sentem algo transcendental nessa prática meditativa.
    Filmes sobre surf tentam nos passar essa filosofia como é caso de “Caçadores de Emoção” (Point Break), com Keanu Reeves e Patrick Swayze, onde um policial persegue um ladrão surfista que está em busca dessa transcendência e acredita encontrá-la surfando a maior onda da sua vida, cujo policial fica obcecado por essa figura do surfista em busca do mistério da existência humana.
    Outro filme bacana que assisti recentemente e trata do mesmo tema é “Profissão Surfista” (Surfer, Dude), com Matthew McConaughey, onde ele é pago simplesmente para surfar, mas ai entra a preocupação de grana e ele é levado a participar de um “reality show” que envolve um “game” e “realidade virtual” como propagação do surf fora d’água para qualquer pessoa experimentar….. Isso tudo para ele poder sobreviver, porém ele se recusa a participar em função apenas de sentir as ondas na realidade e transcender a matéria.
    Enfim, o que quero dizer é que existe uma espiritualidade no surf que está além das dualidades terrestres e suas competições por espaço social, patrocínio, propagandas e fama. Exatamente o que Rob Machado foi buscar depois das competições e Slater recentemente que rompeu com a grande Quicksilver e corre os campeonatos por pura diversão sem patrocínio no bico, será que o “careca” está tentando nos dizer alguma coisa?
    Todos sabemos da sorte que é ser pago apenas para ser “free surf” e sair das pressões competitivas do mundo terrestre e suas confusões dualistas entre: “bem e mal”, “feminino e masculino”, “certo e errado”, “raspar ou não raspar o suvaco”, etc… Surf é isso: está além das dualidades terrestres e conflitos sociais em relação ao que você tem que ser ou deixar de ser para conseguir ser aceito pelas pessoas que fazem a sociedade.
    Temos uma “Liga Mundial de Surf” que é super bacana de ver os melhores surfistas do mundo dando o melhor de si para promover um espetáculo e evolução do esporte para o mundo, mas o surf não pode ser definido pelas competições e seus organizadores.
    Foi essa atitude que vimos Bob Martinez fazer em função da alma do surfista, enfrentando a organização mundial de surf profissional (ASP) na tentativa de nos mostrar que o surf não pode ser definido pelas competições, que o surf é algo transcendente e as competições são apenas jogos, diversão, e não a sua vida, sua vida é o surf e não as competições, dinheiro e fama.

    Namastê!

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