O poder do futebol brasileiro

Sou daqueles que compartilham a ideia de que o apoio ao futebol é tão exagerado no Brasil que os outros esportes acabam sendo prejudicados. Não tem como comparar os números e os resultados desta paixão nacional com os dos outros, que são carentes de atenção e investimento. O destaque da mídia para o esporte número 1 é nocivo, já que atrai quase toda a verba de propaganda para o mesmo, comprometendo o resto.

O vôlei até agradou boa parcela de nossa população, mas ainda está em outro patamar, longe de atrair o número de torcedores que ama o grito de gol. O surf, então, esporte jovem de apenas cinco décadas em nosso país, caminha lentamente em busca de seu lugar ao sol. Está associado a uma imagem de saúde e de aventura, mas sofre por seu amadorismo e desorganização. E sua situação fica ainda mais precária porque não é esporte olímpico, que recebem recursos governamentais para se desenvolver.

Deixando as desigualdades de lado, aproveito o fato de a Copa do Mundo estar sendo realizada em nosso território, e penso na força do futebol sobre nós surfistas.

Antes do início de cada Mundial, ouço a mesma frase: “Enquanto todos estiverem vendo o jogo do Brasil, eu estarei surfando sozinho, sem crowd”. Certamente teria crowd se todos que afirmassem isso com veemência fossem surfar. Porém, a verdade não é bem essa. Em 94, enquanto o Arpoador quebrava clássico durante o jogo entre Brasil e Holanda, só dois caras surfavam as maravilhosas esquerdas do pico. Onde estavam todos aqueles que falavam que o surf seria a sua prioridade?

Eu estava em Pernambuco neste último jogo entre Brasil e México, e no dia da partida o mar estava bombando. Todos foram atrás de ondas nas bancadas de pedra, mas voltaram para assistir a peleja em seu horário marcado, às 16h. O que quer dizer isso? Simples! Que o que se diz não é o que de fato ocorre. Poucos conseguem deixar de lado o jogo do Brasil para surfar. Então, não é bem desse modo (pegando picos sem crowd) que tiramos proveito da paixão esportiva número 1 brasileira.

O futebol ainda fala alto quando a seleção canarinho entra em campo. Nosso complexo de vira-lata diante do mundo diminui porque somos os únicos com cinco títulos mundiais. Neste período, o orgulho de ser brasileiro é sem igual. Somos tomados por um nacionalismo que não existe sem as Copas. Por que torcemos para que esse status continue? Porque claramente ajuda muito nas trips pelos continentes afora. A camisa amarela do Brasil abre portas em diversos países que amam o futebol tanto quanto nós. Olham a camisa da seleção e dizem: “Pelé, Ronaldo, Romário”, e por aí vai. Criam um laço imediato que pode ser muito benéfico para as nossas viagens.

Lembro o período do ataque às torres gêmeas, em Nova York, quando o clima pesou entre os EUA e o mundo muçulmano. A fúria dos mulçumanos contra os americanos e seus aliados fez com que muitos ianques, temendo pela própria integridade física, deixassem de viajar atrás das ondas perfeitas. Marcelo Trekinho foi para Desert Point e surfou com a camisa do Brasil para não ser confundido com um americano. Por ser loiro e por receber o patrocínio da Volcom, achou que o bicho podia pegar por engano.

Quando fui para Tobago com alguns amigos, fomos convidados para jogar uma pelada com integrantes da seleção local. O fato de sermos brasileiros aumentou o entusiasmo da galera envolvida na partida. Por sorte, todos os que foram na trip tinham bastante habilidade com a pelota. Não fizemos feio, muito pelo contrário. Fomos convidados mais quatro vezes para jogar contra os melhores da ilha. Ice Cream, o craque do time deles, sempre pedia para jogar com os brazilians. Fomos tratados melhor pela comunidade local do que pelos surfistas de Tobago. Surfar maravilhosas direitas de manhã e jogar bola no fim de tarde nos deixou em forma.

Sonho com o dia em que seremos identificados por nossa nacionalidade e em que ouviremos os nomes de Medina, Miguel Pupo, Adriano de Souza, Carlos Burle, Danilo Couto, Maya Gabeira e de todos que levam as cores verde e amarela em seus feitos no surf. Na final entre Gabriel Medina e Nat Young, em Fiji, me senti como se estivesse numa final de copa antecipada. A vitória brasileira repercutiu muito entre nós, mas a imprensa em geral não deu destaque nenhum ao feito de nosso compatriota. Infelizmente, acho que isso vai demorar um pouco para acontecer no país do futebol.



Time brasileiro no WCT. Foto: TWITTER : @NikeRio

Time brasileiro no WCT. Foto: TWITTER : @NikeRio

1 Response

  1. Henrique Cesar Tupper 27 de junho de 2014 / 19:24

    É, Marcelo, por incrível que pareça, os esportes de luta MMA, embora tenham tido uma profissionalização recente, estão em um nível superior ao surf, ao menos em relação a geração de receitas de marketing e patrocínios.

    O UFC virou um grande business e os atletas profissionais tops estão ganhando muito. A forma de monetizar a exploração da imagem dos esportes (surf e MMA) são diferentes, mas acho que há alguns ensinamentos que podem ser extraídos.

    Agora, o futebol é o futebol…
    Abs

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