O milagre

Nestes 35 anos em que surfo, nestes 25 anos em que trabalho na mídia, nunca tinha visto algo tão aterrorizante quando o que aconteceu na final do J-Bay Open hoje, 19 de julho de 2015. Um ataque de tubarão, ao vivo para milhares de pessoas, talvez milhões, deixou os fãs do surf profissional em profunda agonia durante 20 “intermináveis” segundos. Mick Fanning tricampeão mundial, um dos maiores nomes do surf em todos os tempos, além de ser uma das pessoas mais amáveis e simpáticas do Tour, renasceu.

Não sei se outra pessoa teria tido a sorte de Mick. A mordida em sua rabeta, que arrebentou seu estrepe, o mergulho, sumido na água gelada por alguns segundos, o nado para a praia… Tudo digno do grande filme de Steven Spielberg – Tubarão, só que na realidade. Talvez o animal só quisesse saber que corpo estranho estava invadindo seu home break. Talvez estivesse com fome. Quem vai saber? O que importa é que o australiano saiu ileso, para o alívio de sua mãe Elizabeth e da esposa Karissa.

É sabido que a África do Sul tem tubarões agressivos em toda a sua costa. E na direita considerada por muitos a melhor do planeta, não é diferente. Taj Burrow já abandonou uma bateria ali alegando ter visto um enorme tubarão. A cerca de 2 anos, um mergulhador foi atacado e morto por um tubarão de aproximadamente 4 metros bem próximo dali. Ou seja, o pico tem um índice alto de probabilidade de um ataque durante um evento de 4 dias com baterias ao longo de 8 horas.

Não cabe a mim ficar discutindo se é válido ou não fazer campeonato em lugares assim. O surf é um dos poucos esportes onde a interacão passa-se totalmente num habitat estranho ao homem. Na água, somos intrusos. Ali, os peixes, pequenos e grandes, são os moradores. Sou contra qualquer caça a tubarão por simples esporte ou para deixar algum lugar menos traiçoeiro para o ser humano. Temos que respeitar, na medida do possível, o meio ambiente com sua fauna e flora. E J-Bay não foge disso.

Na Austrália, em Snapper Rocks por exemplo, existem redes ao longo da praia. Nos primeiros raios de sol, uma lancha da guarda costeira checa estas redes, para ver se existe algum animal por lá. Apesar de existirem nesta região uma infinidade de tubarões de todos tamanhos e espécies, é mais fácil você morrer por causa de um ataque de água viva. Ali, o governo foi precavido evitando ataques num pico onde muita gente surfa.

Já na região de Bell’s, no sul da Austrália, há menos precaução e o perigo é maior, com dezenas de quilômetros de ondas perfeitas sem um mísero surfista na água apenas pelo fato de que uma placa avisa da presença do verdadeiro black trunk da região, o temido tubarão branco. No Hawaii, onde existem muitos ataques de tubarão tigre, também não há uma ação enérgica visando a proteção dos banhistas e surfistas. Resumindo, o surf profissional tem em seu calendário alguns locais extremente perigosos, e não são apenas por causa de uma rasa bancada ou pelo lip assustador, mas sim porque no oceano qualquer surfista se torna presa fácil para qualquer predador.

Ainda bem que fora o susto, Mick esteja ok. Mas se a WSL quiser realmente mudar o rumo do esporte, terá que repensar a forma com que vai lidar com a segurança de suas estrelas maiores, pois não pegaria nada bem ver qualquer Top sendo devorado ao vivo, em imagens que irão circular certamente para todas as grandes emissoras de TV do mundo, noticiando o milagre que assistimos atônitos. Não tenho a menor idéia do que pode ser feito, mas apenas o pensamento de que algo precisa ser feito já é um início. Vamos torcer para que eles façam algo de concreto, ou não teremos J-Bay no Circuito em 2016? E não me venham com um animal morto porque isto definitivamente não é o certo nem o que resolverá a questão. Aconteceu? Uma pena! Agora vamos evitar que aconteça novamente!!!!

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