O ídolo Dadá Figueiredo

Era mais ou menos 16:30 h de um dia da semana, em meados de setembro de 1986. Minutos após a entrega da premiação do campeonato de surf do colégio São Vicente de Paulo, alguém grita, na areia do meio da Barra: “olha o Dadá na vala ali do lado…” Surfava há menos de um ano e não conhecia quase nenhum dos principais surfistas da época. Mas para não passar por um completo iniciante, apenas perguntei “Cadê?”.

“Ali na direita…. O estilo dele é irado…. Ele surfa com os antebraços arqueados em cima da prancha…” Identifiquei na hora. A onda que ele surfava tinha 1,5 mt e a figura dele composta em cima da prancha, bem como a leveza com que ele trocava de borda de backside, harmonizava com a perfeição da onda. Um belo por do sol emoldurava o momento.

Passado pouco mais de três anos, em algum dia de fevereiro de 1990, marco com o meu camarada de surf, Cristiano, de irmos surfar no meio da Barra, na altura do 3100. Sabíamos que o fundo estava excelente por lá. No auge dos meus 15 anos, surf é o único esporte que me interessa. E nessa mesma época Dadá é “o” surfista do RJ e certamente o surfista brasileiro mais talentoso.

Após a nossa terceira caída, eis que aparece do nosso lado a figura do cabeludo Dadá. Naquele momento, só havia 3 pessoas no line up: eu, meu amigo Cristiano e o Dadá. Lembro que o Dadá havia acabado de sagrar-se campeão carioca (antiga OSP), um ano antes, em 1989, com performances memoráveis. E, subitamente, surge uma onda excelente para a esquerda, com cerca de um metro.

No temor de não fazer feio perto do ídolo, nem percebo que a onda é para o lado em que ele está posicionado: faço a boia no mito e me posiciono mais a esquerda para dropá-la. Dadá rema para onda e toda aquela fama de ‘bad boy’ desaparece: sem reclamar que eu fiz a boia, nem simplesmente rabear, Dadá dropa e faz um movimento com a prancha, pisando forte na rabeta, como quem fosse entubar, para frear a sua prancha e permitir que eu passasse por ele.

Dadá fazia manobras inovadoras nos anos 80.

Dadá fazia manobras inovadoras nos anos 80.

Percebendo a atitude do mestre, bem como a minha indelicadeza em fazer a boia, o ultrapasso por baixo da onda, com todo o cuidado para não chocar as pranchas, e saio imediatamente da onda permitindo que ele a surfasse até areia.

Há três dias atrás, vi um post no Facebook homenageando os 50 anos do Dadá. Pensei, imediatamente, em quantas vezes fui surfar arqueando os antebraços, tentando rodar a rabeta na junção, ou tentando conectar as ondas do outside para o inside, com a mesma fluidez com que ele fazia. Em outras palavras, o quanto Dadá me inspirou durante esses 30 anos que eu pratico o esporte.

E, aproveitando a vitória do Filipinho Toledo em Snapper Rocks, penso o quanto importante foram as performances do Dadá ao longo de sua carreira, para ajudar a formatar essa geração Brazilian Storm, mesmo que indiretamente.

Pois bem, há 25 anos atrás, Dadá “plantou a semente” do Brazilian Storm com performances jamais vistas no Brasil ou mesmo no mundo. Destaco aquela batida na junção/layback, na final da etapa da OSP no Arpoador em 88; ou a memorável bateria em que ele perdeu para o sempre inspirado Ricardo Toledo no OP Pro de 88, no Quebra Mar; ou a velocidade que ele imprimiu durante o Tribuna Niasi, também em 88, no Canto do Maluf; ou a devastadora atuação durante o TDK Gotcha Pro, na praia de Sandy Beach, em 89. E muito mais…

A verdade é que o Dadá talvez nunca tenha sido um atleta profissional, obcecado por resultados. Acredito que ele foi um artista do esporte. Com toda a genialidade, peculiaridade e excentricialidade que qualquer grande artista possui.

Minha sincera homenagem. Parabéns e vida longa.

Com certeza um dos maiores ídolos do surf brasileiro de todos os tempos.

Com certeza um dos maiores ídolos do surf brasileiro de todos os tempos.

2 Responses

  1. leandro 17 de março de 2015 / 10:56

    surf de vanguarda, atleta de vanguarda, atitulde de vanguarda, personalidade de vanguarda, idolo de vanguarda,Dadá ta há mais de 50 anos na vanguarda!!!!

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