O Antagonista vem de lá

Depois de 14 anos a ASP entregou um troféu oficial de campeão mundial ao havaiano Sunny Garcia ontem durante a transmissão da triagem do Billabong PipeMaster 2014 in memory of Andy Irons. Entre 1990 e 2012, Sunny Garcia venceu 32 eventos da ASP: 2 do antigo Circuito Mundial, 7 do World Championship Tour e 23 do World Qualifying Series. Das 32 vitórias, 15 foram no Havaí. Único surfista a ganhar 6x a Tríplice Coroa havaiana, Sunny é, depois de Andy Irons, o mais vitorioso atleta vivo das ilhas do pacifico e sua figura polemica o faz até hoje uma lenda, ídolo e celebridade do esporte mundial.

Nada disso foi suficiente para que a ASP lhe desse um troféu até ontem (9/12). Pensando nas energias que o Havaí propaga e recebe em formas de onda, seria a quebra do troféu e a entrega de um novo um reflexo do que vai acontecer com o surf havaiano em 2015? O surf havaiano no âmbito competitivo andava mal das pernas desde a morte do Andy Irons. Só este ano senti algum movimento em prol de voltarem a antiga forma dominadora que praticavam nos áureos anos de Sunny e cia.

Sunny Garcia continua competindo após aposentadoria em 2005. Foto: ASP / Kirstin Scholtz

Sunny Garcia continua competindo após aposentadoria em 2005. Foto: ASP / Kirstin Scholtz

Quem acompanha meu trabalho sabe que sou fã da arte de surfar e não da bandeira que o surfista carrega. Sendo assim, obviamente sou fã do surfe havaiano assim como as ilhas que frequento anualmente. Na minha última temporada lá aluguei umas das casas da família Patacchia, entre Sunset e Rocky point. A casa é administrada pelo pai do atleta, shaper aposentado (diz ele que seu filho ainda usa suas pranchas) e homônimo do surfista profissional. Ao ver uma prancha shapeada pelo Wagner Pupo, Fred Patacchia Senior reconheceu seu par brasileiro e comentou a força da nova geração brasileira no tour. Morador do Hawaii a 20 anos, Fred Pai viu muitas gerações se formarem nas sete milhas da costa norte da ilha de Oahu. Assim começamos um longo papo sobre as diferenças entre as duas culturas, renovação e seus novos atletas. Curiosamente, o veterano admitiu a ausência de novos nomes havaianos com destaque no QS e reafirmou a dominância dos atletas brasileiros. Orgulhoso enchi o peito para dizer que a próxima nação a dominar o esporte seriamos nós porém também lamentei a falta de novos nomes por parte deles. E foi aí que me espantei com a justificativa dele: “O problema da nova geração havaiana é que eles sofrem de homesick”. Homesick = saudades de casa. Os atletas havaianos não aguentam a pressão de tantas viagens e ondas de baixa qualidade enquanto sabem que em casa podem usufruir de ondas de maior qualidade. Quando você ouve uma coisa dessa, com a mentalidade de quem mora em local de ondas ruins, logo pensa: “Que besteira, todo ano eles podem surfar na melhor época as ondas do Havaí”. Com a credibilidade de ser pai de um dos atletas de ponta o mesmo afirma que Fred Patacchia Jr reclama muito quando está fora de casa mas o faz por profissionalismo. E ainda reforça: “Os novatos não tem maturidade para aguentar as dificuldades de viajar grande parte do ano e receber mensagens de ondas perfeitas em casa”. Resumindo, quando você nasce em uma ilha de ondas perfeitas, se ausentar de casa é ruim, segundo ele. Ainda notei que os novatos citados por ele admiram mais atletas como Jamie O’brien, Matt Meola e Ian Walsh do que os que competem o tour. Uma das razões pode ser porque mercado de freesurfing vem crescendo muito e os havaianos sabem e podem tirar vantagem disso por um custo muito mais barato e, mais uma vez, devido aos benefícios geográficos. Hoje a maioria dos surfistas do Havaí com destaque na mídia são freesurfers. Somente Dusty Payne e agora Keanu Asing (esse vai ser café com leite, convenhamos rs) serão novidades no time que representará os nativos das ilhas havaianas no tour 2015.

Fred Patacchia Jr continua levantando a bandeira havaiana no tour 2015. Foto:ASP / Kirstin

Fred Patacchia Jr continua levantando a bandeira havaiana no tour 2015. Foto:ASP / Kirstin

Dusty Payne também é um caso à parte. Surfei com ele em Salinas Cruz e ao vivo foi um dos melhores que já vi. No mesmo ano foi desclassificado do tour. Seria o homesick a causa disso? Além desta síndrome clássica, o atleta de Maui é proveniente de uma família muito rica. Um amigo que já trabalhou para empresa que o patrocina uma vez me contou que a meta dele era vencer uma etapa do WCT e depois viraria freesurfer de vez. O objetivo era somente se divertir perto de casa. Até porque o 1º cartão de credito Amex Black que esse meu amigo viu foi na mão dele. Do outro lado do ranking está a aposta deles, o menino prodígio John John Florence. Arrisco dizer ser o melhor havaiano a pôr uma lycra de competição depois do ídolo Andy Irons. Se conseguir desenvolver sua fome competitiva será uma pedra no sapato do Medina.

Medina e John John, os melhores em 2015? Foto:Photo: Grind TV/ASP

Medina e John John, os melhores em 2015? Foto:Photo: Grind TV/ASP

Sunny Garcia agora tem seu troféu, mas o formato competitivo da ASP ainda não atrai os atletas moradores de ilhas com ondas perfeitas. Os brasileiros sonham com as viagens para surfar e melhorar a técnica nessas ondas. Os havaianos deixam de treinar em ondas boas quando viajam em busca de pontos. O Brasil é o país que mais cresce em número de integrantes do tour, o Havaí não. O Havaí já teve alguns campeões mundiais da 1ª divisão, o Brasil ainda não tem. Brasil tem o melhor surfista da atualidade. O Havaí não tem. O Brasil não tem mais campeonato nacional mas tem uma multidão faminta por disputar o título. O Havaí tem cada vez menos jovens querendo viajar para competir fora de casa. O Brasil não tem um freesurfer que inspire a juventude, o Havaí tem vários. O Havaí tem ondas world class que atraem o mundo todo, o Brasil não. O Brasil tem o Medina. O Havaí tem o John John. Benvindo 2015.

 

 

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