Intolerância

É dificil escrever com um sentimento de revolta e ao mesmo tempo de medo. Pois essa conta tá chegando próxima de nós.
O surf nunca esteve tanto em evidência como agora. Infelizmente, de forma trágica, o Jornal Nacional acaba de anunciar que o surfista Ricardo dos Santos, ou simplesmente Ricardinho, não resistiu aos tiros de que foi alvo. Faleceu na tarde de hoje. Um jovem cheio de futuro, que já havia feito história como um dos maiores big barrel rider – não sei nem se há essa classificação – do Brasil, mundo afora.

Escrevo não pela qualidade do surf do Ricardinho, que é inquestionável. Escrevo por ainda estar estarrecido com mais um fato inaceitável de nosso cotidiano.

Três coisas me chamam atenção nesse caso:

  1. Ocorreu na Guarda do Embaú, um local famoso por ser um destino de férias;
  2. Foi cometido por um Policial Militar de Joinville;
  3. Com três tiros a queima roupa, dois na barriga e um no peito, Ricardinho foi alvejado, ao que parece, com intenções claras de execução.

Qual o tamanho da raiva descabida que esse profissional armado carregava em um local que teoricamente é um destino clássico para descansar, relaxar? Um profissional legalmente armado para servir os seus cidadãos, não teria capacidade de argumentar de forma civilizada com o seu semelhante? Alguém na Polícia Militar avaliou este profissional antes que ele ingressasse na PM de Joinville? Após entrar na Polícia Militar, houve algum tipo de estágio probatório e avaliação para que esse profissional da PM permanecesse empregado e armado?

A comunidade do surf está de luto. Foto: Diario Catarinense

A comunidade do surf está de luto. Foto: Diario Catarinense

Enfim, são diversas perguntas que agora não vão trazer de volta Ricardinho, que lutou bravamente em mais de 7 horas em cima de uma mesa cirúrgica.

Agora, gostaria de escrever que a “presidenta” Dilma, com todas as suas atribuições, ao invés de pedir clemência por um traficante brasileiro condenado à morte na Indonésia, deveria sim liderar uma mudança ampla e profunda na sociedade brasileira. Uma mudança no pensamento de que tudo pode, de que há impunidade, de que o crime compensa.

Infelizmente, penso de modo romântico, pois os nossos governos (federal, estadual) mal conseguem planejar e gerir a oferta energética necessária para atender à demanda no verão; mal conseguem planejar e orientar a população quanto ao consumo e gestão adequada do abastecimento de água potável; mal conseguem controlar a inflação que eles mesmos fixam como meta.

A morte do Ricardinho é 100% culpa do governo federal e 100% culpa do governo de Santa Catarina. Mas também é 100% de todos nós que assistimos pacificamente à morte diária de milhares de inocentes em nossos telejornais, em uma frequência cada vez maior e com requintes de crueldade cada vez mais intensos.

Temos que berrar, chiar e manifestar sim. Hoje temos diversos canais para fazer barulho, mostrar a nossa insatisfação. Basta de morte de inocentes na Guarda, em Nova Iguaçu, de balas perdidas matando crianças. Se nós não temos respeito pelo próximo como é que podemos exigir que o governo, eleito por nós, tenha e imponha mudanças. Cabe a nós mesmos mudar, falar nos condomínios, nas comunidades, nas associações de bairro sobre cidadania, respeito ao próximo. Falar das leis que regem a sociedade. Avaliar se o nosso bom senso é só nosso ou é em prol da coletividade.

Vi um post no twitter de um amigo com o seguinte hashtag #Jesuisricardinho. Eu não quero ser Ricardinho, e nem quero que minha esposa e meu filho que vai nascer sejam. Aliás, ninguém mais precisa ser ele para que comecemos a mudar. As leis existem para ser cumpridas. Sem jeitinho, sem malandragem.

Toda vez que eu vejo um cara no acostamento ultrapassando os carros presos no trânsito, eu penso que a falta de respeito que esse motorista tem com o próximo é relativamente equivalente à falta de respeito demonstrada pelo PM assassino do Ricardinho. Imagino como o mundo ficará caso entremos num ciclo sem água no Rio/SP. Sem gasolina, temos o Mad Max. Agora, e sem água, que é um bem essencial e que não dá para não ter? Que sociedade será essa que construiremos sem começarmos uma mudança já?

Basta!

Que fique eternizada a imagem do Ricardinho dentro daqueles imensos salões em que ele surfava com uma grande maestria.

Ricardinho aonde se sentia mais a vontade. Foto: Surfer Mag

Ricardinho aonde se sentia mais a vontade. Foto: Surfer Mag

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