A (in)justiça

Estou há um mês sem escrever. Dei uma relaxada. E adoraria estar falando de um assunto menos negativo, ligado diretamente ao surf, que é o tema deste blog. Mas não consigo pensar em outra coisa do que a execução de Curumim, no caso Marco Archer.

Conheci Curumim há cerca de 25 anos, quando acompanhei um amigo em comum que foi a casa dele. Não sabia que ele vendia drogas e fiquei surpreso quando vi pela primeira e útima vez um pacote de 1 kg de cocaína. Na verdade tinha de tudo, mas aquele pó branco realmente me deixou impressionado. Eu tinha um pouco mais de 20 anos, o que para a época correspondia a um adolescente hoje.

Curumim era um cara engraçado, de riso fácil e já conhecido pelos feitos no vôo livre. Gostava de pegar onda, mas acho que não era o que ele curtia. Algum tempo depois, após nos cruzarmos por algumas festas e eventos, soube que tinha partido para morar em Bali, o novo Hawaii para os brasileiros.

Com tantos amigos em comum, as histórias pipocavam sobre o talentoso voador e suas peripécias como rei da noite em Bali. Tenho certeza de que muita gente que lê este texto tem alguma história bacana com ele.

Quando foi preso, em 2003, fiquei até surpreso, pois depois de tanto tempo traficando, nunca imaginava que num país tão corrupto, algo do tipo aconteceria. Mas aconteceu e um ano depois sua pena foi concedida: morte. Até aquela data, pouquíssimos estrangeiros tinham sido executados. Pois mudou-se o presidente, mudou a política.

Não acredito em pena de morte. Mas as vezes me pego pensando que certas pessoas mereciam morrer. Sou humano, regado a emoções, mas definitivamente não acho que Curumim merecia ser fuzilado depois de passar 11 anos preso num inferno. Respeito a cultura dos outros e suas leis, mas simplesmente não acredito que sua morte vá mudar alguma coisa na entrada de drogas na Indonésia ou qualquer outro país.

Como comparar um cara que vai num jornal e mata doze pessoas a sangue frio com um traficante, que se tornou isso basicamente por não ter tido um lar normal, já que seu irmão, ironicamente um viciado, batia em sua mãe a procura de dinheiro para comprar drogas? Li muita gente dizendo que ele sabia o que fazia ou que a lei foi cumprida, mas em sua sã consciência, você mataria um amigo ou conhecido que vende ecstasy ou maconha? 13 quilos ou 13 balas não causam o mesmo efeito social? Todos somos produtos de um meio. Curumim errou, assumiu o risco e perdeu. Mas a vida?

Daqui há um ano, poucos se lembrarão que Curumim foi o rei da noite em Bali, até porque, certamente alguém já está ocupando este posto. Mais soldados do exército ganharão sua propina, mais políticos ganharão dinheiro com a venda de ópio e mais surfistas desembarcarão em Denpasar a procura das esquerdas mágicas e noites sem fim. A roda viva continua, a hipocrisia continua e a tristeza por ver uma pessoa que no fundo era um cara do bem, fazendo a coisa errada, partindo de forma tão cruel, marca este início de 2015, seco e infernal, como os corações de muitos.
A humanidade vive um momento terrível onde o amor ao próximo está findando. São tantas bárbaries, não existe compaixão. A vingança, preconceito e ódio estão caminhando rapidamente para o topo das emoções. Lendo tantas opiniões exaltando a punição para outro ser humano pelo simples fato de que é o certo pelo que diz a lei (dos homens), fico realmente consternado.
Não sou juiz, mas pergunto a você, se Curumim foi fuzilado por ser um traficante que levava e vendia drogas, o que fazer com um playboy que espanca sua namorada, ou um garoto de classe média que espanca um empregada doméstica? Morte para eles? Quem define? Nós?

3 Responses

  1. Janaina Fischer 18 de janeiro de 2015 / 05:13

    Eu digo que lamento. Uma vida foi ceifada por um erro humano. Se fosse somente ele! Se este exemplo consertasse a humanidade! Se vidas podem ser perdidas ! Não era meu parente, no o conhecia, mas para mim ele era um ser humano como eu, com sentimentos, quê já tinha ficado 11 anos preso e com este gatilho na cabeca. Homens estão querendo ser Deus e isto esta tudo errado. Ótimo texto. Vale a reflexão e também a indignação.

    • Rigo 18 de janeiro de 2015 / 13:26

      Sim , acho a pena de morte uma coisa a ser discutida, talvez em crimes bárbaros e diretos contra a vida …que o tráfico de drogas não deixa de ser…! Agora , essa pessoa sabia do risco que corria fazendo tráfico em um país com sua próprias leis e mesmo assim sua ganância fez com que ele se arriscasse!! Desculpe aos inconformados, mas ele sabia do risco e mesmo assim foi em frente … Lamentável…

  2. Marcelo 19 de janeiro de 2015 / 00:40

    Me desculpe, mas discordo 100% so seu texto. seu amigo era um traficante. Vendia drogas. Só fez isso a vida inteira e assumiu isso publicamente. A droga mata. Mata quem usa, quem vende, quem compra e quem não tem nada a ver com isso, como um pai de familia que leva um tiro em um assalto praticado por um drogado. Mata uma criança que está no banco de trás de um carro que passa por uma rua onde duas gangues de traficantes trocam tiros para dominar a boca. Mata o policial que tem que subir morro para prender traficante e ganhar o mísero salario lara pagar a escola da filha. Mata o futuro do país. Mata a esperança de um país melhor e mais justo para nossos filhos. A droga mata. Matou seu amigo, que pra mim não era um coitado. Era um marginal que já foi tarde.

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