Geniais e Geniosos

A morte do lendário skatista Jay Adams me fez refletir sobre alguns ídolos do esporte que sempre serão lembrados por seu carisma e genialidade. Atletas que conquistaram um destaque maior do que os dos grandes campeões. Como Jay foi minha fonte inspiradora, começo por ele. Integrante das equipes Zephir Skate e Zephir Surf, ele fez parte de um grupo de californianos que revolucionou o skate vertical em meados da década de 70. Uma seca na Califórnia, acompanhada por um longo período de flat, levou os surfistas de Venice a procurar algo que substituísse a vontade de surfar. O skate passou a ser praticado em piscinas vazias devido ao racionamento de água imposto pela seca. Eram verdadeiros bowls,  ondas de concreto que faziam a festa dos Z Boys, como eram conhecidos os membros da equipe da Zephir. Eles levaram as manobras do surf para dentro do skate, algo ainda não visto anteriormente. Tony Alva e Stacey Peralta completavam com Jay a trinca mais destacada deste grupo. Ao contrário de seus dois companheiros, Jay era muito irreverente e, de certo modo, contrário à profissionalização do skate que estava por vir com força total. Gostava de manobrar e criar novos movimentos sem ter de seguir os compromissos das marcas patrocinadoras, que queriam usar ao máximo a sua imagem. Não se imaginava vivendo com a grana da venda de produtos ligados ao seu uso diário. Era um artista genial e, ao mesmo tempo, genioso. Pensava em aproveitar o momento que estava vivendo da maneira que queria, sem imposições. Alva e Peralta, por outro lado, não perderam a oportunidade e, depois de alguns anos patrocinados por grandes empresas, criaram suas próprias marcas. Ganharam muito dinheiro com seus produtos. Aproveitaram seus nomes para expandir seus negócios. Jay ficou fora dessa onda por não ser a favor de seguir o sistema. Será lembrado por sua genialidade e seus movimentos revolucionários. Extremamente carismático, ficará na história como um mito do esporte, independentemente de feitos competitivos.

Jay Adams surfando no asfalto em meados dos anos 70.

Jay Adams surfando no asfalto em meados dos anos 70.

 

Na mesma Califórnia, uma década depois, em movimento contrário ao dos Z Boys, dois surfistas levaram as manobras do skate para o surf. Christian Fletcher e Matt Archbold, inspirados em Martin Potter, trouxeram as manobras aéreas para dentro d’água. Três surfistas irreverentes com estilos próprios, bem diferentes da maioria dos surfistas profissionais da época. Eram criticados pelos conservadores, que alegavam que as execuções das manobras tinham de ser feitas na onda e não fora dela. Os juízes não conseguiam compreender a vanguarda das manobras que eles apresentavam. Diziam que Fletcher tinha o estilo feio e justificavam suas notas medianas com argumentos  fundamentados na regra das competições, ainda defasadas. Não entendiam o grau de dificuldade das manobras executadas. Contrária ao pensamento dos juízes, a garotada idolatrava as sessões de Fletcher, Archy e Potter nos filmes de surf. A música era hardcore e o surf era pauleira total. Os Wave Warriors, filmes feitos pelo pai de Christian, Herbie Fletcher, exibiam sessões épicas dos três. Se vocês assistirem aos filmes hoje, vão achá-los superatuais. Fletcher e Archy seguiram o tour durante alguns anos, mas depois se cansaram de ser coadjuvantes.Martin Potter, respeitado por suas performances nos eventos da ASP, cansou de pedir a mudança dos critérios de julgamento dos circuitos. Alegava que uma manobra forte, com pressão, deveria valer mais que várias sem risco. Pedia a mudança do surf robotizado, imposto pelo sistema. Foi levado a sério em 1989, quando se consagrou campeão mundial de forma avassaladora. Os julgamentos seguiram novos rumos depois do título de Potter. A influência dos três para a geração atual é enorme. Hoje, um surfista não é completo se não souber executar vários tipos de manobras aéreas. Quem acompanha as competições de surf sabe do que estou falando.

Martin Potter foi um dos responsáveis pela mudança do julgamento das competições de surf.

Martin Potter foi um dos responsáveis pela mudança do julgamento das competições de surf. Foto: Aaron Chang

 

No Brasil, Dadá Figueiredo também surfava de maneira totalmente diferente da maioria dos surfistas profissionais da ABRASP. Colocava muita velocidade na prancha e suas manobras eram inovadoras. O skate, que também fazia parte da sua vida, foi incorporado ao seu modo de surfar. Seu modo genial em cima da prancha também não foi muito valorizado pelos juízes. Venceu algumas etapas, mas o normal não era a vitória. Mesmo não tendo um título brasileiro, é um nome reverenciado por uma legião enorme de fãs. Contra o pensamento do sistema, como quase todos os geniais, criou uma marca chamada Anti-Fashion. Quando a marca se tornou fashion, resolveu abandoná-la e criou a Necrose Social. Fui seu técnico por um período e vi coisas incríveis por parte dos seus fãs. Caras que pintavam o nome Necrose em suas camisas, que tiravam fotos com máquinas descartáveis na beira do mar, pessoas querendo tocar nele e por aí vai. Seu carisma era maior do que o da maioria. Enquanto todos usavam bermudas curtas e coloridas, ele usava bermudas longas e escuras. Seu estilo era próprio e rebelde. Foi referência para as gerações futuras. Peterson Rosa e Binho Nunes sempre falam abertamente sobre a admiração que eles sentem por Dadá e sobre a influência que ele teve em suas carreiras. Na minha opinião, ele foi o Garrincha do surf brasileiro. Não vi nada parecido com ele, no Brasil, em meus 36 anos de surf. Infelizmente, sua relação com as drogas foi semelhante às de Jay e Archy, que chegaram ao fundo do poço. Os três conseguiram superar a fase ruim e seguiram adiante. Posso afirmar que Dadá foi o maior ídolo do surf nacional nos anos 80.

 

Dadá Figueiredo foi um dos maiores ídolos do surf brasileiro. Foto : Alberto Sodré

Dadá Figueiredo foi um dos maiores ídolos do surf brasileiro. Foto : Alberto Sodré

 

Algumas gerações após a de Dadá, apareceu Neco Padaratz. Este entrou bem cedo no mundo das competições, levado por seu irmão mais velho, Teco Padaratz. Com um jeito simpático de garoto feliz, seu surf moleque já mostrava força. Todos o apontavam como um possível campeão mundial, o primeiro brasileiro. Usava muita força nas manobras, com clara influência de Martin Potter. Entrou no WCT desejando se unir ao grupo daqueles que tinham ambições maiores do que figurar como simples coadjuvantes nos torneios da ASP. Sua forma de agir era um pouco rebelde. Não gostava de dar entrevistas durante as competições e fugia da praia como se estivesse sendo linchado. Uma pessoa dócil, mas com uma forma própria de agir. Carismático ao extremo, sempre foi adorado por seus companheiros de circuito. É outro surfista que tem uma legião de fãs dentro e fora das competições. Muitos diziam que ele era muito focado, mas, na minha opinião, ele não estava preparado para ser igual aos outros competidores. Havia algo de artista e de moleque na sua essência, disciplina e organização nunca foram seus traços fortes. Mesmo assim, seu lado competitivo o levou aos lugares mais altos do pódio por diversas vezes. Foi um vencedor nato.

Neco Padaratz foi um dos adeptos do power surf. Foto: Aleko

Neco Padaratz foi um dos adeptos do power surf. Foto: Aleko

Vejo nesses nomes citados algo contrário à mesmice. De uma forma ou outra, foram atletas que elevaram o patamar de suas modalidades com suas performances, estilos, atitudes e pensamentos. Pessoas que conquistaram fãs por seus carismas e por suas inovações . Serão sempre lembrados pela história de seus esportes. Uma vanguarda revolucionária.

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