Feras feridas

A vitória de Jeremy Flores no Billabong Pro Teahupoo não foi uma surpresa. O local das Ilhas Reunião já é, há algum tempo, um dos melhores tube riders do planeta e junto com John John Florence, um dos mais insanos surfistas do Tour. Sua coragem e ousadia já foram premiados em Pipeline, onde venceu em 2010, e agora no Tahiti, somando os dois troféus mais cascudos da WSL. O que foi bacana é a conquista com um coágulo na cabeça depois de quase morrer na Indonésia dois meses antes. Coisa de guerreiro!

Porém o que me fez realmente pensar foi a performance de Gabriel Medina no evento. Diria que suas atuações foram mais técnicas do que ano passado, quando venceu em ondas incrivelmente perfeitas, embora grandes. Com o swell de sul e o forte vento deixando as cracas menos tubulares e a saída dos tubos mais complicadas, Medina deu aula de escolha, colocação e talento para percorrer com velocidade os canudos da temida bancada. Parecia que o brasileiro surfa o pico desde os 5 anos de idade tamanha desinibição. Um caso de amor, só pode ser!

Acho que os eventos em Fiji, J-Bay e agora em Teahupoo foram bons para o menino, pois como todos são lugares onde tem pouca gente (no caso de Jeffrey’s poucos brasileiros), a pressão em cima dele diminuiu horrores e ele pode se focar apenas em surfar e competir. Me parece também que já está se habituando aos poderosos holofotes, pois até nos comerciais para a TV ele se mostra mais a vontade com as câmeras. Nada como a maturidade.

Medina foi o melhor surfista do evento, de longe. Caiu para Flores na final porque obviamente o francês é ótimo mas também porque deu sorte naquela onda mágica enviada por Netuno, talvez arrependido por ter culpa no cartório na vaca brutal que quase fez nosso amigo Jeremy perder as botas. Sua bateria contra JJF foi épica e a vitória contra o cascudo Owen Wright nas semis foi absolutamente avassaladora, passando por cima do aussie como ele fosse um Zé Ninguém. Isso é atitude de campeão do mundo.

Gabriel voltou a mostrar surf de campeão mundial. Foto: WSL / Stephen Robertson

Gabriel voltou a mostrar surf de campeão mundial.
Foto: WSL / Stephen Robertson

Quem me agradou também foi Ítalo “Ídalo” Ferreira, como escutei na ESPN. O cabra é arretado mesmo. As vacas horrendas que tomou no penúltimo dia de campeonato podiam deixar qualquer um com os dois pés atrás. Mas não ele! Após se tacar nas morras de Cloudbreak, o garoto se entocou em ondas brancas e ocas com a rasa bancada de Teahupoo louca para tirar seu escalpo. Para mim, o prêmio dado a C.J. Hobgood (A.I. Memorial Award) tinha que ir para Ítalo, pois ninguém se atirou mais que ele.

Não falta disposição e coragem para Italo Ferreira. Foto : WSL/ Cestari

Não falta disposição e coragem para Italo Ferreira. Foto : WSL/ Cestari

Felipinho Toledo passou com nota 6 pelo seu primeiro ano na praia dos crânios quebrados. Ficou um pouco intimidado, o que é normal, mas se soltou quando o mar esteve de 4 a 6 pés mostrando controle nos canudos de backside, me surpreendendo positivamente. Acho até que pode ter se machucado por estar “à vontade demais”. Vai escutar um monte de bobagem por não ter pego nenhuma onda no Round 5 contra Ferreira, mas com 5 pontos no cotovelo, todo doído, o 9o lugar ficou de bom tamanho e o manteve forte na briga pelo título. Acho que seu staff devia marcar um período de treinos dele por ali, numa época sem eventos, para que possa se ambientar melhor, pois não adianta querer pegar quilometragem em período de campeonato, quando o crowd é chato. O negócio é surfar sem pressão e curtir os tubos do pico. Prazer supera o receio.

Quanto ao líder do ranking, achei normal a derrota para Bruno Santos. Aliás, tenho certeza de que o niteroiense era favorito em quase todas as bolsas de apostas de entendidos do assunto. Por diversas vezes o wild card em Teahupoo mandou cedo para casa o número 1 do Circuito e Mineiro não teve muito o que fazer. Escutei gente falando que Adriano está um pouco passivo mas a realidade é que ele já vem tendo problemas com este meio de temporada faz tempo. É seu calcanhar de aquiles, junto com Pipeline. Por isso, é necessário ele arrebentar em Trestles, Hossegor e Peniche, onde geralmente tem boas atuações, para voltar a ter uma boa vantagem no ranking (evaporada após Fiji, J-Bay e Teahupoo). Na minha opinião o que está faltando ao Adriano é o algo mais quando chega nas quartas-de-final. Na metade do Tour, todos os Top 10 já estão no ritmo e menos propensos a erros. Vence quem realmente está surfando melhor. E Adriano não está surfando melhor do que no primeiro trimestre. Ele sabe disso!

Adriano de Souza foi eliminado por Bruno Santos, que é um dos melhores tuberiders do Brasil e do mundo. Foto: WSL/Cestari

Adriano de Souza foi eliminado por Bruno Santos, um dos melhores tuberiders do Brasil e do mundo. Foto: WSL/Cestari

Guigui teve sua habitual classe exibida no Tahiti. Podia ter chegado mais longe. Mas demonstra desde o início do ano que chegou pronto ao Tour e que agora a evolucão apenas vai lapidar seu enorme talento. Vai ser bacana vê-lo atuar em Trestles, uma onda que não ponho entre suas especialidades. Miguel Pupo é que está cada vez mais sumido do noticiário e isso não é bom. A fase não está boa e resultados na Califa e Europa são fundamentais para se manter na elite em 2016. Nunca se deve depender do Hawaii, onde tudo pode acontecer.

No mais, estou ansioso por Trestles, uma das minhas ondas preferidas do Circuito. Vou torcer para que o mar fique como no último dia da etapa de 2014, quando Jordy Smith e CIA deram um show nas lindas direitas de 6 pés. Filipe Toledo é um dos favoritos. Florence, Julian Wilson e Fanning também. Adriano tem tudo para alcançar um belo resultado (só não pode pegar um Dane Reynolds pela proa de novo, só para complicar)  enquanto Medina deve surpreender agora, que está mais tranquilo e com a faca nos dentes. A incógnita será Kelly Slater. Maior vencedor ali, com 6 vitórias, o americano conhece como ninguém os atalhos para ganhar mas irá precisar lidar com os malabarismos da nova geracão e tirar coelhos da cartola. A não ser que as ondas fiquem maiores, sem tanta oportunidade para os truques. Aí, quem sabe, ele pode entrar de vez na briga pelo título, que está acirradíssima, como há muito não se via.

Entre mortos e feridos, o Circuito vai chegando a seu ponto crucial, quando se definem de vez os postulantes ao caneco e quem pode perder sua vaga na elite. Cada bateria terá mais pressão e somente os fortes mentalmente vão superar as adversidades. Tá chegando a hora da verdade.

 

1 Response

  1. Sergio Gadelha 27 de agosto de 2015 / 21:12

    Sucinto

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