Fabio Fabuloso

Minha admiração por Fabio Gouveia começou muito antes dele ser um ídolo nacional. Foi nas competições em águas nordestinas, onde já era destaque. Ele e seu companheiro, o paraibano Brayner Brito, o Mocó, já faziam um estrago danado nos eventos amadores do nordeste. Fabinho era apontado por Walter Porpino, seu patrocinador local, como o futuro melhor surfista do nordeste. Não sabia que sua visão era curta e Fabinho seria um dos melhores do Brasil, e do mundo, em pouco tempo.  O garoto que surfava com uma base esquisita, tinha um potencial enorme, que não tínhamos como perceber naquele momento. Sua admiração por Tom Curren, e suas viagens para surfar ondas boas, corrigiram sua base. Seu estilo passou a ser muito polido e apreciado por todos.

Fabio Gouveia apurou seu estilo pegando ondas boas e observando seu ídolo Tom Curren. Foto: Pierre Tostie

Fabio Gouveia apurou seu estilo pegando ondas boas e observando seu ídolo Tom Curren.
Foto: Pierre Tostie

Era um garoto simples que gostava de frequentar as longas direitas da Baia Formosa, talvez o seu local de treinos favorito. Mas o Dique de Cabedelo, o Bessa, ou a Praia do Macacos podem ter tido muita influência na sua formação como atleta.  João Pessoa, sua cidade natal, é um lugar calmo, com astral de cidade pequena. As pessoas que surfam praticamente se conhecem. Nesse clima tranquilo Fabinho desenvolveu suas primeiras manobras. Certamente sabia que não seria um lugar para viver a vida toda, pois a qualidade e a consistência das ondas não eram as melhores para desenvolver seu surf. Teria que ir para locais com condições mais consistentes de treino, para se tornar um atleta de ponta.

Sempre foi um cara humilde, de muitos amigos. Me pedia para participar dos treinos do meu clube de surf, em Porto de Galinhas, mas a rapaziada não queria competir com surfistas que não fossem do grupo. Garanto que elevaria o nível de todos, mas como convenser os membros que isso seria benéfico a todos? Os surfistas de fora não tinham espaço, principalmente pela forte rivalidade que existia entre os nordestinos. Não tínhamos circuitos estaduais fortes, e corríamos atrás de eventos nordestinos, realizados por toda a região. Os paraibanos eram bem vistos, mas mesmo assim existia um certa rixa da galera. Pelo fato de treinarem bastante em Marcaipe e no Cupe, tinham algumas regalias que cearenses e potiguares jamais teriam. E nessa de surfar bastante em Pernambuco, Fabinho conheceu sua mulher Elka, que na época era bodyboarder.  O casamento deles deixou Fabinho bem inserido no surf pernambucano, ainda mais porque seus três filhos nasceram ali. Passou a ser visto como um membro local, o mais importante do estado.

Vice campeão master da ASP. Foto: ASP/ Dvulgação

Vice campeão mundial master da ASP.
Foto: ASP/ Dvulgação

O começo de 86 foi o marco da história de Fabio Gouveia no surf brasileiro. O segundo no Op da Joaquina, em janeiro, e o terceiro no Match Balin de Maracaipe, em fevereiro, mostraram ao Brasil quem era o cabra paraibano que chegava para ser uma das grandes estrelas do nosso esporte. Em 87 foi campeão brasileiro amador. Em 88 campeão mundial amador, em Porto Rico. Depois disso, todos sabem, saiu pelo mundo com o Teco, abrindo as portas para os brasileiros no circuito mundial. Minha intenção não é relembrar de todos os seus feitos, mas refletir a importância dele neste momento em que estamos assumindo um novo patamar como potência do surf mundial. Com certeza, ele e os brasileiros que seguiram no WCT, já tinham aumentado nosso espaço dentro do tour, mas o Fabinho foi o maior exemplo de que podíamos chegar onde chegamos. Essa molecada que está ai deve ter visto seu último título brasileiro em 2006. Bem como, o melhor vídeo já feito, na minha humilde opinião, da trajetória de um surfista brasileiro, Fabio Fabuloso. Sua maneira de se portar como atleta profissional também serviu de exemplo para muitos outros.

Hoje, Fabinho trabalha como shaper, continua viajando atrás das ondas boas e participa dos eventos master pelo Brasil. Em junho terá um  master em Saquarema e certamente pegarei meu carro para conferir mais uma performance de Fabinho, nas ondas perfeitas de Itaúna. Um ídolo que tenho uma admiração profunda, muito mais pela pessoa que é, do que por suas atuações e títulos. Se temos a melhor geração brasileira de todos os tempos (Brazilian Storm) podem ter certeza que o Fabinho ajudou muito nessa caminhada. Por isso o reverencio sempre que o vejo.

Exímio Tuberider, Fabinho adora se entocar nos tubos. Foto: Marcio Davi

Exímio tuberider, Fabinho adora se entocar nos tubos.
Foto: Marcio Davi

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