Era Pré-histórica

Tem gente que acha as mídias socias perda de tempo. Eu discordo! Acho atualmente a principal forma de expressão de uma geração. Sendo assim, fico ligado no que rola, principalmente no Facebook, que ainda é o meio mais procurado. Numa destas navegadas encontrei um post de Roberto Perdigão, diretor executivo da ASP South America, sobre a ausência de um time brasileiro num evento da ISA (International Surfing Association, entidade que gere o surf amador) no Peru. A contestação aumentou com palavras fortes sobre a atual gestão da CBS (Confederação Brasileira de Surf), atualmente presidida pelo baiano e ex-surfista profissional Adalvo Argolo.

Vou explicar a diferença entre ambos. Perdigão é um representante da ASP na América do Sul e o interesse financeiro de seu escritório logicamente é vender eventos chancelados pela entidade que representa. Ou seja, o cunho é profissional e remunerado. Adalvo é o presidente da CBS, órgão sem fins lucrativos, eleito por um colégio de Federações e Associações. Ou seja, um dirigente esportivo responsável pela gestão do surf brasileiro junto ao Ministério dos Esportes e Secretarias país afora. Até onde sei, sem remuneração. O que desde já acho errado.

Perdigão, reclama do pouco caso do maior órgão esportivo do surf no Brasil ao não fazer um trabalho competente e transparente. Olhando o ocaso do Circuito Brasileiro Amador, acho que ele tem uma boa parcela de razão. Desde que Adalvo assumiu, o surf amador  a nível nacional ficou bem restrito a região Nordeste, de onde vem grande parte do seu apoio. Longe de ser hipócrita, digo que por muitos anos a situacão era invertida, com mais de 70% dos eventos nacionais sendo disputados no sul/sudeste, o que prejudicava os surfistas nordestinos, principalmente pelo enorme custo para ficar na parte sul do país.

Só que um erro não justifica outro. O desenvolvimento do esporte na base tem de ser homogêneo, sem prejudicar nem ajudar região, afinal de contas não gosto de pensar que o discurso petista de dividir o Brasil entre pobres e ricos e sulistas e nordestinos já esteja em ação. Somos todos brasileiros.

Não posso julgar o trabalho de Adalvo pois pouco sei (e, mea culpa, na verdade nem procuro saber) sobre o que rola na categoria amadora. Mas sou copiado em diversos emails de atletas da categoria Masters, todos reclamando da forma como as coisas acontecem na CBS. E se gente como Ricardo Tatuí, Sergio Noronha e Guilherme Herdy estão insatisfeitos, creio que algo de errado esteja no ar.

Minha opinião sobre a categoria amadora é bem simples. Deve existir para educar as crianças, fazendo a interação entre jovens de lugares e culturas diferentes. Assim foi comigo, que passou a conhecer gente de tudo quanto é canto do país, me tirando do mundinho onde eu vivia. Saber vencer, saber perder, trabalhar em equipe, tudo isso são lições que servem para toda uma vida. E sinceramente não me parece que isso esteja sendo feito, ao menos da forma que deveria. Pode ser apenas má impressão, mas é o que acho.

Tenho um pensamento em relacão a mandatos longos. Acho que nenhum dirigente deveria ficar mais de três anos em cargo algum. Penso também que este papo de não ser remunerado é antiquado e contraproducente. O esporte deixou de ser amador, no sentido literal, há muito tempo. Os eventos, sejam amadores ou profissionais, custam uma grana preta e o Estado banca a maior parte com dinheiro público. Creio que a única forma de ser transparente é ter pessoas competentes e responsáveis no comando, e este tipo de pessoa você não vai achar sem pagar. Seria pura utopia. Mesmo sabendo que uma bom salário não garante gente honesta. Além é claro da fiscalização dos envolvidos, afinal cobrar sobre o uso de dinheiro público de forma correta não é ser chato mas sim cívico.

Quem tem de dizer se a gestão está ruim são os próprios filiados. A insatisfacão deve vir através de protestos pacíficos, produtivos e objetivos. E se conseguirem provar fraudes, como aconteceu nas Confederacões de Volei, Tênis e Judô por exemplo, que deixem o Ministério Público agir e investigar, já que grande parte da verba oferecida a estas entidades vem do meu, do seu, do nosso bolso.

Já critiquei surfistas profissionais por não correrem atrás de sua profissão. Acho que as Federacões, caso não estejam satisfeitas com o rumo da CBS, deveriam ser as primeiras a reclamar e tomar atitude, pois omissão é conivência. Sinto que falta uma liderança atuante. Já passou da hora de surgir alguém que pregue a união e faça um trabalho em prol do coletivo. Chega de dinossauro querendo tomar conta da planície. Vamos mudar os nomes, as idéias. Não sou tolo o suficiente para acreditar que tirando um Brontassauro e colocando um Tiranossauro vamos acabar com a Era Pré-histórica que o surf se encontra.

Adoraria ver um cara de seus 35 anos, cheio de energia, se juntar com um cara mais experiente e, juntos, tentarem reerguer o surf amador no Brasil. Precisamos de gente capaz e jovem, para tentar mudar o horizonte cinza que nos encontramos. Será que não existe ninguém com este perfil? Será que vamos continuar vendo as mesmas pessoas dirigindo o nosso esporte? Me recuso a acreditar que somos tão patéticos a este ponto. Nada contra quem fez e ainda faz, mas a renovação é saudável e necessária, mesmo que em doses homeopáticas. Se uma má gestão for o caminho para encontrar este Homo Sapiens, assim seja. Quem sabe ele não reinvente a roda para que possamos sair da Idade da Pedra. Afinal de contas, estamos vivendo um sonho emprestado do sucesso de alguns meninos no WCT, que mesmo sendo formados pela CBS há alguns anos, tiveram praticamente apenas o apoio de seus familiares e patrocinadores pessoais.

O Brasil no surf não é o do WCT, mas sim de suas categorias de base. E quando os questionamentos começam a pipocar, é sinal de que tá na hora de parar, refletir e caso seja necessário, mudar. Antes de ser campeão mundial, é preciso ser campeão na vida. Foi por isso que meus pais sempre apoiaram eu e meu irmão, até decidirmos mudar nossos objetivos. O surf foi, para mim, a maior escola. E espero que não mude, para o bem dos seus filhos, netos, irmãos, amigos…

Equipe brasileira não foi para o evento da ISA, no Perú.

Equipe brasileira em destaque  no evento da ISA.

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