Como resgatar o surf do Rio de Janeiro ?

O termino de 2014 foi fantástico para o surf brasileiro. Gabriel Medina conquistou o tão sonhado título mundial para o Brasil, e Filipe Toledo e Silvana Lima foram campeões do WQS. Fora isso, ainda mantivemos 7 atletas na elite do surf mundial masculina e voltamos a ter uma atleta no feminino. Se olharmos pelo lado internacional, foi um ano em mar de rosas. Porém, não podemos esquecer que no ano passado o mercado do surf  passou por um dos momentos mais fracos de sua história. O circuito brasileiro profissional foi feito através do estaduais e o circuito amador ficou a desejar. As empresas passaram o ano reclamando e até a mídia especializada dá sinais de passar por grandes dificuldades. Olhem as principais revistas do país e vejam se não encolheram. Será o que o efeito Medina vai mudar o rumo dessa situação ? O momento interno é preocupante.

Fui presidente da extinta OSP do Rio de Janeiro e naquela época o surf carioca tinha sempre nomes fortes nos rankings . Olhei para a lista final do circuito brasileiro 2014 e para minha surpresa não tem nenhum atleta do estado entre os 20 primeiros. Não estou falando da cidade do Rio, mas sim do estado. Com a saída de Raoni Monteiro do WCT, o Rio ficou sem nomes representativos no cenário internacional . Como a situação chegou a esse ponto ? Depois da fortíssima geração de Leo Neves, Raoni Monteiro, Marcelo Trekinho, Pedro Henrique e muitos outros, apareceram ainda Simão Romão, Gustavo Fernandes, Leandro Bastos, e mais alguns que os sucederam e conquistaram grandes eventos e títulos. O Rio foi sempre celeiro de grandes nomes do surf brasileiro.

Se analisarmos com calma, depois dos anos 80 e começo dos 90, quando o Rio tinha grandes empresas cariocas patrocinando atletas locais, o estado ficou na dependência de marcas de outros estados para patrocinar seus atletas. Marcas como CG, Tico e Company/ Cyclone , tinham um número enorme de atletas vitoriosos em sua equipes. A OSP era forte e seu circuito era um dos melhores do país. Quem não lembra do Limão Brahma, um dos melhores circuitos estaduais de todos os tempos ? A premiação era ótima e vários surfistas de outros estados vinham pela grana e pela visibilidade que o circuito oferecia, com a Tv Globo cobrindo para o Esporte Espetacular . Em uma etapa em Saquarema, vencida por Dadá Figueiredo, Cheyne Horan, Rob Paige e Mitch Thorson, três atletas australianos de destaque do tour, participaram da etapa, para ver a importância que o evento tinha na época. Com a saida da Brahma, em 1996, começou o Circuito Cidade Maravilhosa, patrocinado pela prefeitura e por uma marca do ramo surfwear. Começou com a Company, passando para a Jamf e finalizando com a Rip Curl. Foram anos de bons eventos e formação de novos atletas.

E agora o que sobrou ? Não tem mais OSP, não teve circuito estadual em 2014 e os atletas estão sem patrocínio para correr o circuito brasileiro. Queria entender porque a prefeitura dispõe milhões para o evento do WCT e não coloca um centavo nos circuitos de base para formação de atletas da cidade. Quem paga os impostos são os cariocas ou os gringos que correm o WCT? Não sou contra o evento, muito pelo contrário, mas acho que poderiam tirar 1/10 do valor dado para a etapa do mundial e valorizar quem luta para melhorar o surf na cidade e no estado. A batalha da FESERJ agora é para tentar reverter esse quadro e melhorar a situação do surf competitivo no estado do Rio, mas sem apoio das marcas que vendem surfwear no estado, das prefeituras locais e do governo do estado, não vai conseguir  nada. É hora de arregaçar as mangas e colocar o Rio de volta no seu lugar de destaque. Tem que ser feito um esforço em conjunto para resgatar as tradições de um estado que já foi forte no cenário nacional e internacional do esporte.

Raoni Monteiro arrebenta com sua RM Wetworks. Foto: Ellis

Raoni Monteiro saiu do WCT e deixou o Rio sem nenhum representante. Foto Ellis

1 Response

  1. Luiz 13 de janeiro de 2015 / 16:34

    Marcelo, primeiramente, ótimo texto! Texto honesto e que retrata a realidade não só do surf carioca, como também do resto do Brasil.
    Penso que em partes o que falte seja uma união dos próprios surfistas junto e com a sociedade, algo que venha de baixo para cima. Também, assim como você, não consigo entender como o surf carioca deixou de ser representativo. Entretanto, quando temos (ou tínhamos) um cara como o Raoni no circuito mundial, sem patrocínio, enquanto outros brasileiros assinam contratos praticamente milionários, penso que alguma coisa de estranho está acontecendo. Pois, não há um preconceito contra o surfista carioca ou uma adoração pelo surfista paulista.. É algo estranho mas que deve ser discutido.
    Sempre pensei muito sobre essas questões do surf no Brasil, como fomentar o surf local e fazer esta economia girar de forma sustentável. Vejo a Austrália como um ótimo exemplo de sustentabilidade no surf. Eles se utilizam dos surf-clubs para agregar valor ao esporte. São lugares que servem tanto como um ponto para as pessoas passarem um tempo, comerem e verem as ondas, como também um local onde existe uma cultura do surf daquela praia em especial onde as crianças vão e têm aula de surf e treinos e brincam e desenvolvem amizades. Assim, cria-se uma força local e, unidos os surf-club, uma força social. Competições entre surf clubs acontecem normalmente, com diversas categorias (de grommet até master), atraem mídia e criam competidores ao mesmo tempo que envolvem a sociedade e criam um lugar comum de convivência e desenvolvimento do esporte. Vide Parko, Fanning e Josh Kerr, todos criados nos surf-clubs de Kirra e Snapper Rocks…
    Acredito que o Rio seja o lugar ideal para a criação deste tipo de iniciativa para o surf. Cara, o Rio é onde praticamente surgiu o surf no Brasil da forma como ele é hoje. Como não existem lugares em comum para os surfistas se reunirem e conversarem sobre o esporte, ou para treinarem como o High Performance Training Centre criado também na Austrália para auxiliar jovens no caminho para o surf profissional?
    Outra coisa que acho estranho é que parece que os próprios surfistas, que foram profissionais, após se aposentarem, aparentemente seguem cada um pro seu lado. Claro, cada um faz o que quer, porém, não vemos aquela força, parece que o negócio se dissolve no ar…
    E também, uma pergunta, o que aconteceu com a geração do Treko, Pigmeu, Simão, Pablo Paulino? A “geração mais promissora” antes da tal “braziian storm”. Daquela, quando havia 11 atletas no WCT, só o Raoni se salvou e, ainda assim, por pouco… Perdemos uma geração inteira entre a primeira turma do Fabio, Teco, Renan, Piu e a geração que, posteriormente, veio com o Adriano. Alguma coisa aconteceu ali no meio que tem de ser discutida e pensada.
    Será que o problema foram as marcas que pararam de patrocinar atletas e circuitos? Só se pararam no Brasil, porque no resto do mundo não. Será que o caminho seria procurar outras empresas e sair um pouco das marcas de surf? Será que o nível do nosso surf caiu? Pelo jeito também não. Será que foram as festas? O glamour que envolve o surf e o “ser surfista” pode destruir carreiras. Foram drogas? Falta de incentivo do governo? Falta de profissionalização e profissionalismo? Não creio neste última também. Afinal, o circuito brasileiro já chegou a ser um dos maiores do mundo e a organização até onde me lembro, sempre foi impecável.
    Bem, talvez eu tenha falado demais e talvez algumas coisas até infundadas. Mas a discussão tem que acontecer. E não só quando está flat e sentamos no computador para ver vídeos de ondas perfeitas em algum lugar longínquo. A discussão tem que acontecer em qualquer lugar…inclusive no outside, entre um serie e outra.

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