Xandi explica

Xandi Fontes, responsável pela organização da etapa brasileira do WSL, que será realizada na Barra da Tijuca em maio, responde minha matéria “A Vaga”, me corrigindo e tirando dúvidas em relacão a escolha dos convidados para o Oi Rio Surf Pro. Abaixo sua explicação:

“A regra está atualizada (última atualização início de Março de 2016) e é clara! Artigo 14: Wildcards: 14.01 Segundo o Artigo 14.02, para cada Temporada de Surf em Eventos do CT: (a) 2 (Masculino) / 1 (Feminino) Wildcard(s) devem ser escolhidos pelo Comissariado para a Temporada de Surf (Wildcards de Temporada). Os Wildcards de Temporada receberão pontos durante toda Temporada de Surf; e (b) 2 (Masculino) / 1 (Feminino) Wildcard(s) devem ser escolhidos pelo Comissariado para cada Evento (Wildcard de Evento). Os Wildcards de Evento receberão pontos de CT. 14.02 Todos os Wildcards que competem em Eventos da WSL devem assinar o Contrato dos Surfistas da WSL e estarão sempre sujeitos à aprovação do Comissariado. Explicando melhor: no masculino – Top 32 + 4 convidados = 36 competidores. Dos 4 convidados 2 vagas são dadas pela WSL Internacional para os atletas que não se classificaram por contusão (anual) e as outras duas vagas restantes  são indicadas pelo WSL Commissioner’s Office (Comissariado), o qual não faço parte, para cada evento, ou seja, estas vagas podem trocar de evento para evento! No caso do CT do Brasil uma dessas vagas foi repassada para a WSL South America, que assim como nos anos anteriores, destinou está única vaga para a Federação Estadual de surf – FESERJ, que neste ano decidiu fazer uma triagem local.”

Na explanação acima, Xandi deixa claro que não tem nada a ver com a escolha dos convidados. Nestes meus 35 anos de surf dentro e fora d’água, sei que a política interna age forte para que os interesses de organizadores, patrocinadores e a própria ASP, no caso agora a WSL, vão de acordo com o que seja melhor para eles e, nem sempre, para o esporte em si. Digo que o responsável pela escolha do outro convidado terá, na minha humilde opinião, um ato covarde e sem bom senso se não chamar o atual campeão brasileiro de surf profissional Bino Lopes. A FESERJ pode ter sido corporativista no seu direito de escolha mas está sofrendo as consequências encarando de frente sua decisão. Qua apareça o gênio, ou gênios, que farão o segundo convite, e tal qual a entidade carioca, que de, ou dêem, a cara a tapa.

Como disse antes, o que falta nesta polêmica toda é transparência. Afinal, boa parte do dinheiro que está sendo usado há tanto tempo neste evento vem do meu, do seu, do nosso bolso carioca.

 

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A vaga

Tá dando o que falar a decisão da FESERJ (Federação de Surf do Rio de Janeiro) de fazer uma triagem com 16 surfistas pela sua vaga de convidado na etapa brasileira da WSL, que rola em maio na Barra da Tijuca, ou quem sabe Grumari. Tradicionalmente, e não é de agora, mas sim de algumas décadas, o campeão brasileiro sempre teve o direito de participar do evento de forma direta, salvo uns dois ou três anos atrás, quando Jean da Silva foi obrigado a disputar um trials também.

Entenda como funciona a escolha dos quatro wildcards nos eventos da WSL: Segundo o artigo 14.01 do Livro de Regras da entidade que promove o Circuito Mundial, a própria WSL tem o direito de convidar dois surfistas a sua escolha. As outras duas vagas são do promotor do evento, no caso o catarinense Xandi Fontes. Como a Prefeitura do Rio é uma das fortes apoiadoras, seja com o empenho da Secretaria Municipal de Esportes ou com incentivo fiscal, no caso para a Oi (a Prefeitura por meio de ISS. Não sei se o Estado autorizou o uso de incentivo de ICMS), um destes convites, por acordo, é da FESERJ, por onde é obrigado a sair a verba municipal (não o $$ incentivado). Antes desta polêmica, as duas vagas eram oferecidas ao campeão carioca e ao campeão brasileiro, isso quando o evento era o Alternativa International e depois, na era da promotora Leilane Barros durante os anos de 1997 a 2002, antes do evento ir para Santa Catarina. Pelo que saiu de notícias, Xandi estaria inclinado a convidar o atual campeão mundial Pro Jr Lucas Silveira, que é da Cidade Maravilhosa. Se for assim, fica mais latente a falta de bom senso dos cariocas, já que estariam sendo representados por Lucas, uma ótima escolha por sinal.

O atual campeão brasileiro, o baiano Bino Lopes, questiona a participação dele na triagem. Foto: Abrasp

O atual campeão brasileiro, o baiano Bino Lopes, questiona a participação dele na triagem. Foto: Abrasp

Pois bem, o presidente da Federação, Abilio Fernandes, pressionado pelos surfistas filiados que não queriam perder sua vaga, resolveu ser democrático e deixou a cargo deles a decisão de quem seria o dono do convite. Numa escolha digna do Congresso Nacional, fez-se uma lista, incluindo aí o nome de Bino Lopes, o atual campeão do país e mais 15 atletas, escolhidos pelo ranking carioca de 2013 (??????), melhores colocados fluminenses no Circuito Brasileiro de 2015 e Lucas Chianga e Jerônimo Vargas por suas posições no WQS 2015 (Lucas o 221º e Vargas o 262º) além de um indicado da ASBT (Associacão de Surf da Barra da Tijuca) e outro pela ASAG (Associacão de Surfistas e Amigos de Grumari). Ora, mais corporativismo que isso no nosso esporte, realmente nunca tinha visto.

Sou obrigado a concordar que Abílio teve bom senso em passar a bola para os verdadeiros donos das entidades. É uma pena que eles não consigam entender o quanto é importante seguir uma boa tradição, homenageando o campeão nacional, não interessando de que Estado ele seja, afinal este evento é internacional. Os surfistas cariocas deveriam estar se preocupando em ter um Circuito Estadual Profissional de verdade, cobrando seus dirigentes por uma melhor ação em seus cargos. Quem sabe assim, eles tivessem chances maiores de trazer o caneco da Abrasp para o Estado do Rio e de quebra o direito de disputar este evento tão importante.

O campeão mundial Pro Jr, Lucas Silveira, será um dos convidados do evento. Foto: WSL

O campeão mundial Pro Jr, Lucas Silveira, será um dos convidados do evento. Foto: WSL

É claro que os surfistas daqui têm o direito de escolher seu representante, mas usar como argumento que toda a verba de surf do Município vai para este campeonato me soa como papo de quem não está a fim de realmente tocar o dedo na ferida, que é o completo descaso em relação ao surf carioca. Talvez, a desorganização e pouco comprometimento sejam as causas. O Estado ou Município não tem a menor obrigação de custear etapa do Circuito Mundial ou Estadual. A realidade é que as entidades esportivas ficaram viciadas em se sustentarem com ajuda política e esqueceram de como se faz para correr atrás de patrocínios no setor privado. É difícil, sim, mas não impossível.

Tenho certeza de que vão ter mais vagas em jogo, porque sempre falta gente na etapa daqui. Isso é notório. Creio que a triagem acabará premiando ao menos mais um surfista. E torço para que Bino consiga uma destas vagas. Nestes tempos de Governo e oposição “comprando” votos para conseguirem seus objetivos, o surf do Rio dá um mau exemplo. O pessoal podia passar por cima de ego, dinheiro e continuar prestigiando uma situação idealizada lá pelos anos 80, quando Roberto Perdigão, Arnaldo Spyer, Flávio Boabaid e outros grandes nomes responsáveis pelo Brasil entrar de vez no mundo do surf, fizeram com que o Hang Loose Pro Contest se tranformasse de semente em uma linda árvore, que deu como frutos Gabriel Medina e Adriano de Souza, nossos campeões mundiais.

Só que ficam duas perguntas: Como convidar o campeão carioca se não tem um Circuito no Estado há dois anos? Porque Xandi Fontes não pega a outra vaga da qual tem direito e convida Bino Lopes para ser wildcard?

Por mim, os convidados seriam Lucas e Bino! Sem mais nem menos!

Sim, cavalo paraguaio

Matt Wilkinson venceu as duas primeiras etapas do Tour, feito que poucos surfistas tiveram o êxito e a sorte de conseguir. Lidera o WSL com uma folga e tanto, é verdade! Quebrou a bolsa de apostas de praticamente o planeta do surf todo (nem seu técnico Glenn Hall apostou nele, rs)! Mas daí a achar que será campeão do mundo já é outra história. Diz meu amigo e shaper Cláudio Valle que ninguém tem bola de cristal, mas não me permito achar que um cara mediano como “Wilkso” seja o virtual dono do caneco desta temporada.

Pra início de conversa, não foi nem de perto o melhor surfista em Snappers e Bell’s. Passou as baterias surfando o de sempre, encaixando alguns adversários mais fracos e contando ainda com alguns empurrões do destino como a contusão de Filipe Toledo na Gold Coast e a prancha partida de Mick Fanning, que parecia imbatível em Bell’s, no Round 5. Muitos falam em performances incríveis de Stu Kennedy e Jordy Smith na primeira e segunda etapas respectivamente mas tanto Toledo quanto Fanning, eram pra mim os bicho papões e com pedigree de campeões. Ambos seriam rivais bem mais complicados do que foram Kolohe Andino e Jordy nas finais. Ou seja, imprevistos (ou sorte) fazem parte do jogo.

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Não acredito que Matt vá repetir o feito de Curren e Slater vencendo as três primeiras etapas do Tour. Margaret River é uma onda pesada, tubular e mais a feição para caras como JJF, Parko e Kelly. Com as opções de The Box e North Point, duas direitas quadradas, acho bem complicado qualquer goofy vencer este evento, ganho apenas por Occy e Tom Carroll, os dois backsides mais potentes da história do surf mundial.

Como Wilko não tem um histórico muito bom em ondas como Fiji, Teahupoo e Pipeline, diria que apenas J-Bay seria um pico onde ele poderia tornar a vencer. De qualquer forma, duas vitórias, algumas semifinais e um tanto de quartas podem lhe dar a consistência necessária para levar o caneco, assim como Adriano de Souza o fez em 2015. Ainda tem que contar com os tropeços dos reais favoritos como Medina, Toledo, Florence e Parkinson, que ao meu ver, são caras que certamente vão fazer finais neste ano.

Creio que será mais uma temporada equilibrada, onde a decisão deve acontecer no Hawaii, na última etapa. A favor de Matt, a comprovada capacidade de seu coach Glenn Hall, um surfista mediano, mas muito inteligente, que está sabendo conduzir seu pupilo a um nível de concentração elogiável, visto que o aussie soube exatamente o que fazer para virar baterias ou manter-se na frente usando com destreza a prioridade, o que poucos Top sabem fazer. A sorte acompanha quem trabalha e a dupla Wilkinson/Hall é quem mais está suando nestes 30 dias iniciais de Circuito.

Como penso que o talento, na maioria das vezes, supera o esforço, continuo apostando minhas fichas numa vitória de um cara menos surpreendente. Não fosse a contusão de Filipinho, o tirando de duas etapas, diria que o garoto era a bola da vez. Não fosse a falta de sintonia de Medina com seu equipamento na perna australiana, apostaria cegamente nele. Não fosse a idiotice de Florence de perder duas bateria ganhas nos minutos finais para Stuart Kennedy (na Gold Coast) e Caio Ibelli (em Bell’s), onde tinha a prioridade e a perdeu bobamente, cravaria seu nome no topo. Como o “se” não é o “foi”, Matt Wilksinson lidera a WSL com 100% de aproveitamento, numa mistura de aplicação, competência e porque não dizer, acaso. Cabem aos bambambãs mostrar serviço e fazer virar realidade o favoritismo. Enquanto isso, o” espantalho aussie” saboreia a camisa amarela, que tem muito mais cara de preta e branca listrada. Se ele será o cavalo que desponta na frente mas sucumbe no final, só o tempo dirá. Mas minha aposta é que este cavalo tá mais pra paraguaio do que para um puro sangue inglês.

Wilko teve estrela na escolha de onda em bells. Foto: WSL

Wilko teve estrela na escolha de onda em bells. Foto: WSL

A âncora de Kelly

A etapa de Bells continua trazendo surpresas para os seguidores do circuito mundial. Ainda estamos no meio da competição, mas nomes consagrados já se despediram no round 3. Joel Parkinson, Taj Burrow, Kelly Slater, Adriano de Souza, John John Florence e Gabriel Medina não conseguiram superar adversários considerados mais fracos. Poderia ficar aqui analisando cada caso, mas meu intuito é entender o que faz um atleta 11 vezes campeão do mundo usar equipamentos tão piores que seus anteriores, no meio de um circuito com os melhores do mundo. Olhei vários posts nas redes sociais que concordavam com meu pensamento. As apresentações de Kelly Slater em Snapper Rocks e Bells foram bem abaixo do que estamos acostumados a ver. Tenho certeza que não é a questão da idade, como alguns tentaram justificar seu baixo rendimento.

Kelly Slater ajudou a desenvolver vários modelos de seu antigo patrocinador de pranchas. O modelo Semi Pro, um dos melhores de performances da Al Merrick, é considerado por muitos, ideal para ondas do circuito dos sonhos. O fato de ter comprado parte das ações da fábrica de pranchas Firewire o fez mudar seu equipamento para algo totalmente diferente do que usou a vida toda. Nos tempos de Al Merrick sempre testou modelos diferentes, sendo muitos deles referência para seus seguidores. As surpresas sempre foram positivas e por isso muitos o consideravam um ET. Porém, o que estamos vendo agora pode ser um marketing inverso. Quem vai querer comprar um modelo que piorou em demasia o surf do melhor do mundo por mais de uma década. Será que ele pensou nisso antes de se apresentar desta forma ? Não foi um pouco de soberba testar modelos no meio do tour ? Sinceramente, acho que isso pode ter sido um tiro no pé.

Kelly Slater não conseguiu fazer uma apresentação boa em Snapper Rocks. Foto: WSL/Kelly Cestari

Kelly Slater não conseguiu fazer uma apresentação boa em Snapper Rocks. Foto: WSL/Kelly Cestari

Não quero dizer que as Firewire são ruins, de forma nenhuma. Michel Bourez e Sally Fitzgibbons surfam com as pranchas e arrebentam. Taj Burrow já usou anos, e foi vice campeão mundial com esse equipamento. Filipe Toledo foi outro que já foi patrocinado. Stu Kennedy, um dos destaques da primeira etapa, estava quebrando com um modelo totalmente diferente da normalidade em Snapper, o que não ocorreu em Bells. Porém, Stu surfa de Firewire a muito tempo e está acostumado com os modelos alternativos do shaper Daniel Thomson.

O equipamento do Kelly em Snapper Rocks foi diferente do que usou em Bells. Parecia mais lento e fora do tempo das manobras na Gold Coast. Em Bells, o equipamento pareceu ser muito leve, um pouco lento nas cavadas, mas que funcionava melhor nas sessões mais em pé da onda. Não sei se é falta de adaptação, mas o resultado não foi bom. Ficou em vigésimo quinto na primeira etapa e décimo terceiro na segunda, um começo pífio para um atleta vitorioso nessas duas etapas. A cara que fez ao sair da bateria do primeiro round, e na sua eliminação, no round 3, demonstraram a frustação que estava sentindo.

Questiono a situação que Kelly criou para ele. É um dos donos de uma fábrica de prancha que não conseguiu criar, ainda, uma prancha que tenha o mesmo desenvolvimento que tinha com sua antiga marca, agora concorrente dele no mercado. Está demonstrando isso a nível mundial, para seus eternos fãs. Por isso analiso como um marketing negativo para o comércio do seu equipamento, neste começo da temporada. Se ele vai se adaptar, e quebrar tudo depois, só o tempo dirá.

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Vítima? Nem tanto.

Acabei de ler parte de uma entrevista concedida pela Silvana Lima à BBC no site Waves. Pela enésima vez, ela reclama da falta de apoio, agora para poder disputar o WQS e tentar retornar a elite mundial, a qual deixou ano passado. “Eu não sou modelinho, eu não sou bonitinha. Sou surfista profissional. As marcas de surfwear, na parte feminina, querem modelo e surfista ao mesmo tempo, então quem não é modelinho acaba não tendo um patrocínio, como no meu caso. Acaba ficando de fora, é descartada. Os homens não têm esse problema”, disse Silvana.

Acho que o buraco é bem mais embaixo do que este embate de beleza X competência. No caso, o maior problema de Silvana é o marasmo do mercado de surf feminino no Brasil. Se mal temos marcas, imagine eventos. Na realidade este mercado nunca existiu de verdade, ao menos num percentual digno. O que rolou foi um boom nos anos 2000 em que as marcas gringas aportaram de vez no Brasil e trouxeram a Roxy, Rip Curl Girls e Billabong Girls. Com uma pitada tupiniquim, as lojas se encheram de produtos bacanas e a mulherada, principalmente paulista e sulista, caiu dentro. Sei disso porque ajudei a fazer a FLUIR Girls, que foi o maior termômetro que tive em relação a este assunto.

Mesmo nessa época “dourada”, fechar a publicidade da revista, que tinha pouquíssimas páginas, era uma enorme dificuldade. E o número de exemplares vendidos raramente ultrapassavam a casa dos 2 mil. Muito pouco. Começamos tentando fazer da FLUIR Girls uma revista com padrão masculino, ou seja, matérias com as profisionais, capa de ação e algumas colunas… e o fracasso foi imediato. Depois de algumas reuniões, decidimos deixar a revista na mão de uma mulher, a editora Nilma Raquel, que deu uma repaginada mudando o visual e deixando o veículo com a cara mais feminina. Apesar do grito de um punhado de pros reclamando que isso não daria retorno, foi quando conseguimos melhorar as vendas e atrair marcas de biquíni, beleza e até alguns anúncios de agência.

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Só que este público nunca cresceu, pelo simples fato de que o surf feminino no Brasil sempre foi restrito. Sabendo que grande parte do consumidor não pratica surf, acho que um dos motivos para que a venda de surfwear para as mulheres tenha minguado seja a concorrência de uma enorme indústria de beach wear brasileira, com algumas das melhores marcas do planeta. Neste caso, o nosso ramo não dá nem pro cheiro. E esta, para mim, é a principal resposta as queixas de Silvana.

A questão me parece maior do que ela não se achar linda, mas sim não ter consumidoras para bancar o sonho da cearense de viajar o mundo competindo e curtindo. As marcas de surf vivem basicamente da moda masculina (bermudas, t-shirts, tênis) e os empresários não querem dividir suas verbas para outro segmento. E ninguém tem obrigação, em qualquer negócio, de dar mais e receber menos. Se preferem uma modelinho que mal sabe surfar, talvez seja porque o retorno seja melhor comercialmente, que é o que importa no fim das contas. Ou até porque é bem mais barato. E as marcas femininas, sejam de roupas ou estética, já tem um modelo de sucesso ligado a beleza. E não será uma talentosa surfista que irá mudar esta cultura, tão incrustada na sociedade, seja boa ou ruim.

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Não adianta comparar a Carissa Moore, que também não é nenhuma brastemp, pois o mercado americano é simplesmente gigantesco e lá a Roxy por exemplo é uma das grandes marcas de beach wear do continente. Num mundo consumista como o nosso, é natural que as pessoas quem possuem uma imagem mais impactante, seja por grande beleza, vitórias globais ou feitos inacreditáveis, sejam levadas mais a sério. E para a infelicidade da Silvana, ela não se enquadra em nenhum destes tópicos. Injusto? Sim! Mas C’est la Vie!

Silvana, teve um bom começo de ano em 2015, ao menos em suas atuações. Mas incrivelmente, depois de reclamar bastante e conseguir um patrocínio da Oi, teve maus resultados não conseguindo se reclassificar para o WSL. Curioso não? Será que o patrocínio da Oi fez mal? Lógico que não! A realidade é que o nível das meninas está muito melhor e Silvana ficou um pouco para trás. É uma grande surfista, precisa de apoio para ficar mais tranquila, mas não é só isso que atrapalha. Tá faltando alguma coisa e isso fica nítido quando se compara o surf dela com a das Top 8. O que não ajuda é culpar os outros pelos insucessos. Se a roda gira para este lado, vamos segui-la. Se tiver que dar um tapa na imagem, que o faça. Mas que isso seja um complemento, pois a verdade é que Silvana tem que se superar dentro d’água se quiser ser levada a sério pelos donos de marcas. E isso, em 2015, não aconteceu. E com patrocínio. Sei que é duro falar isso, mas ela sofre a consequência de um mercado pequeno, sem compromisso com a base do esporte e luta para que o mundo, cada vez mais ligado a perfeição, deixe de lado a obsessão pelos musos e foque em performance. Poucos atletas conseguiram ultrapassar os preconceitos da sociedade através de seus dotes esportivos, mas dos que ficaram para a história, 100% deles sempre cuidaram de sua imagem além dos campos, quadras e até praias.

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Ah, se quiserem saber qual foi a capa mais vendida da FLUIR Girls, eu digo: a estampa de Felipe Dylon, na época muso juvenil e recordista maior com quase 8 mil exemplares vendidos. Incrível não?!

Pitacos na colcha de retalhos

Caramba, faz tempo que não escrevo nada. Acho que tem uns 25 anos desde que fiquei mais de dois meses sem fazer nenhuma matéria. O motivo é realmente falta de tempo e de saco pra sentar e digitar. Até que ocorreram diversos fatos relevantes e merecedores de opinião, só que com a crise cravada no Brasil, tenho que priorizar onde sai meu sustento, que para quem não sabe não é este espaço aqui. Dada a devida explicação, resolvi dar meu pitaco nas coisas mais importantes que rolaram, para mim, no começo deste ano, sem nenhuma ordem específica.

Montanhas de água

Foi complicado sair da tela do smartphone e, depois do notebook ontem, dia 25 de fevereiro. O Eddie Aikau é um evento à parte, não só pela tradicão envolvida mas principalmente por ser realizado nas desafiadoras direitas de Waimea. Há muito a qualidade da transmissão pela internet vem evoluindo, em parte pela ASP e agora WSL. Pois este campeonato de ondas grandes certamente foi o mais assistido. A quantidade de posts e citações sobre os destemidos competidores que encararam um dos maiores mares em Oahu foi imensa. E a vitória do jovem John John, deixando pra trás lendas do big surf como Ross Clarke-Jones, Grant Baker e Greg Long, demonstra, ao menos pra mim, que obviamente a experiência conta bastante porém a genialidade de qualquer excepcional surfista com coragem faz a diferença. Entre os 5 primeiros, 3 são ou foram Top da elite (JJF, Shane Dorian e Kelly Slater). Destes, apenas Dorian é, de uns 10 anos pra cá, um caçador de emoções. Slater, que inclusive já venceu o Eddie e foi vice na última edicão, a cada dia que passa, mostra que se quiser pode se tornar um ET também nas big waves, enquanto Florence, um diamante bruto de talento, marca seu nome como o surfista mais completo da atualidade. Bonito de ver também o baiano Danilo Couto botando pra baixo, mesmo que aparecesse mais tomando uma das piores vacas do dia. Só cai quem tá lá fora! Foi um grande dia de surf!

John John Florence e Mason Ho no limite. Foto: WSL/Keoki

John John Florence e Mason Ho no limite. Foto: WSL/Keoki

Kelly rules

O Volcom Pro, realizado em Pipe no início de fevereiro foi o verdadeiro Pipe Masters (ao menos no que diz respeito as ondas). Talvez por não ter o azarado (alguns dizem incompetente) Kieren Perrow definindo os dias de competicão. O que importa é que os tubos plásticos de Pipe e Backdoor deram o ar da graça em todos os dias e Slater, há dois anos sem vencer nem purrinha, deu um show e levou o caneco com sobras. Não teve pra Jamie O’Brien nem JJF. O careca entubou de tudo que foi forma e parece que chegará zerado pra primeira etapa do Tour na Austrália. Nada como uma vitória convincente em Pipeline pra mudar o astral. Fiquei a procura de brasileiros de ponta na água. Não vi. Uma pena! Dado o devido desconto a Mineirinho, que até chegou a final deste evento em 2015 e merecia um descanso, acho que uma oportunidade dessas de surfar com outros 3 caras em ondas daquelas não pode ser desperdiçada!

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Descanso merecido

Mick Fanning anunciou que vai dar um tempo de boa parte do Circuito em 2016. Afirmou que irá correr as duas primeiras etapas da WSL e depois vai ficar um tempo de bobeira. Eu particularmente acho que ele merece, e muito, qualquer aliviada dos manda-chuvas da entidade, pois o que este cara passou ano passado só um masoquista. Quase foi engolido, perdeu o segundo irmão e de quebra não tem mais esposa, já que está se divorciando. Isso, sem abalar sua mente, já que por dois anos seguidos disputou palmo a palmo o título mundial com Medina e Mineiro. Vi muita gente falando que não concorda e tal, que ele tem que se reclassificar pelo WQS caso não consiga manter-se pelo Tour… Nego é muito murrinha! Deixa o cara! Ele é um ícone do esporte, e além de tudo o cara mais gente boa do Circuito. Um exemplo de profissional! Além de ser tricampeão do mundo! Aliás, meu parceiro Tulio Brandão escreveu um ótimo texto a respeito no site Waves, vale uma lida!

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Quem leva o caneco?

Se eu tivesse que botar meu dinheiro em alguém para apostar num título mundial em 2016 ele iria todo pra Gabriel Medina. E com a saída de Fanning de boa parte da temporada, acho que fica mais fácil. Gabriel terminou 2015 de forma contrária de como iniciou. Centrado, com a faca nos dentes e o surf no pé. Se tivesse mais uma etapa, ele tinha levado o bi. Tava complicado vencer o menino. Logicamente, muita coisa pode acontecer, mas não consigo enxergar alguém mais favorito do que ele. Filipe Toledo e John John são os caras que talvez mais ameacem o reinado de Gabriel. Filipe, se conseguir resultados mais consistentes em Teahupoo e Fiji vai incomodar, desde que mantenha seu arsenal de manobras mágicas na cartola. Florence, precisa decidir se tá dando uma caidinha de fim de tarde ou disputando bateria… Sei que vem trabalhando bastante a parte física com o amigo Álvaro Romano e sua Ginástica Natural. Precisa melhorar o foco e tentar manter-se são, pois sua forte torção no tornozelo no Brasil ano passado comprometeu sua temporada. De qualquer forma, acho que em 2016 a nova geração enterra de vez a velha. A não ser que o ET se reinvente e faça mais uma vez o impossível. Bem, depois do tubo que tirou em sua última onda no Eddie Aikau, creio que a palavra impossível não consta em seu vocabulário, por isso, de olho nele!

Medina terminou o ano com surf de campeão Foto : WSL / Stephen Robertson

Medina terminou o ano com surf de campeão Foto : WSL / Stephen Robertson

Adeus ao papel

Se o surf dentro d’água vai bem, não se pode dizer o mesmo fora. Com uma crise sem tamanho no país, as marcas de surfwear estão se matando para viver enquanto as revistas especializadas parecem se tornar mortas-vivas. Tá dando pena de ver as últimas edicões da Fluir e Hardcore com poucos anúncios. Mídias que eram fundamentais se tornaram apenas sustento para seus donos. Não tem relevância, apesar de ainda mostrarem em suas páginas ótimas matérias. Culpa da internet? Talvez. Ou não! Quem sabe? O que importa é que pela primeira vez em minha vida não comprei nem uma nem a outra numa banca (ou na FNAC). E sou obrigado a dizer que não me fez falta. Uma pena!

Amadorismo nos palanques

É verdade! 2015 foi o ano dos “profissionais amadores”. Foi um tal de promotor de evento dando cano em competidor e prestador de serviço… Em Saquarema, quem teve que pagar a premiacão dos surfistas foi a WSL, já que os organizadores do evento Prime do WQS não cumpriram com sua parte. Mesmo caso do 6 estrelas de Floripa, que também deu (ou tá dando) canseira em quem trabalhou. Culpa dos Governos dos Estados, principais patrocinadores dos eventos? Da WSL por permitir eventos sem saber se teriam condicões de pagar seus filiados? Dos promotores, por realizar os eventos sem terem a verba necessária? Sim, de todos! A moral da história é que Xandi Fontes é o novo representante da WSL no Brasil e que tem gente que não acredita mais em bla, bla, bla de promotor de evento. Sem contar que o SuperSurf, tão aclamado por voltar e dar peso ao Circuito Brasileiro, tá até hoje devendo neguinho pelo Brasil. Será que o exemplo dos safados dos nossos governantes pegou no surf? Tá parecendo que sim! Mais responsabilidade e menos malandragem é o que precisamos para levantar nosso esporte.

A volta do Super Surf foi motivo de orgulho para toda a comunidade do surf brasileiro. Foto: Pedro Monteiro

A volta do Super Surf foi motivo de orgulho para toda a comunidade do surf brasileiro. Foto: Pedro Monteiro

Na Memória

O Eddie Aikau 2016 vai ficar na memória de muita gente. Não só pelo tamanho das ondas, mas pelas performances dos atletas. Acho difícil alguém esquecer dos drops insanos de Ross Clarke Jones, Shane Dorian, John John Florence, e Makua Rothman; do tubo do Kelly Slater; da vaca de Grant Baker;  dos jet skis fugindo da série que fechou a baia. Sinceramente, não tem como esquecer. O evento teve o glamour que merecia.  Eddie Aikau é reverenciado como herói no Havai, e um evento dessa magnitude reforça a importância de sua figura para a comunidade local e mundial.

Ross Clarke Jones e Jamie Mitchel dividindo um bomba em Waimea. Foto: WSL/Keoki

Ross Clarke Jones e Jamie Mitchel dividindo um bomba em Waimea. Foto: WSL/Keoki

O que mais chama a atenção nesse evento é a mistura de gerações. Nomes consagrados de décadas passadas ainda mostram muita disposição e técnica para enfrentar os garotos da nova geração.  Ross Clarke Jones, já está chegando aos 50, quase levou a disputa.  Ficou em segundo, mostrando muito gás para um competidor da sua idade. Cair duas vezes naquelas bombas de Waimea não é para qualquer um. O único que ficou a sua frente foi John John Florence, um dos melhores do mundo na atualidade. Sua facilidade é enorme para surfar qualquer tipo de onda. Arrisco a dizer que ele poderia ser o novo Kelly se tivesse o mínimo de vontade competitiva. Parece que nasceu para surfar as ondas sem compromisso ou regras. Um showman com certeza.

John John Florence e Mason Ho no limite. Foto: WSL/Keoki

John John Florence e Mason Ho no limite. Foto: WSL/Keoki

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi a coragem de Clyde Aikau. Aos 66 anos, Clyde não precisava provar mais nada a ninguém. Foi campeão deste evento, em 1987, e participou de todos os eventos que levaram o nome do seu irmão. Claramente as condições estavam bem complicadas para alguém da sua idade. Ele sabia disso, mas deixou que o respeito que tem pelo nome de seu irmão e sua família falassem mais alto. Foi uma atitude digna de um membro do clã Aikau. Tiro meu chapéu para ele.

Fuga dos jets skis da série que fechou a baia. Foto: Clark Little

Fuga dos jets skis da série que fechou a baia. Foto: Clark Little

Também tiro meu chapéu para Danilo Couto. Nosso único representante mostrou muita determinação. Arriscou um drop quase impossível na primeira onda de sua participação.Quebrou a prancha, não foi bem sucedido, mas chamou a atenção da praia lotada. Depois dropou uma monstruosa que levou o público ao delírio. Os juízes deram 91 pontos de 100 possíveis e depois alteraram a nota para 69. Não sou juiz de ondas grandes, mas de 91 para 69 tem uma grande diferença.  De qualquer forma, fomos muito bem representados.

 

Campeões do Eddie Aikau
1986 Denton Miyamura
1987 Clyde Aikau|Mark Foo
1990 Keone Downing|Brock Little|Richard Schmidt
1995 Não finalizado
1999 Noah Johnson|Tony Ray|John Gomes
2001 Ross Clark-Jones|Shane Dorian|Paul Paterson
2002 Kelly Slater|Tony Ray|Paul Paterson
2004 Bruce Irons|Ross Clark-Jones|Shane Dorian
2009 Greg Long|Kelly Slater|Sunny Garcia
2016 Jonh John Florence/ Ross Clarke Jones/ Shane Dorian

A Conquista do Guerreiro

O raio caiu duas vezes no mesmo lugar. Mick Fanning que o diga. Na mesma Pipeline, em uma disputa de título com um brasileiro, perdeu sua chance de ganhar mais um caneco, em uma derrota para outro brasileiro. Os algozes e os campeões foram diferentes, mas a sensação a mesma. Logo ele, que todos afirmavam que estava sendo ajudado pelo julgamento da WSL, tomou uma virada nos minutos finais, de uma manobra que não consta nos critérios de julgamento das ondas surfadas em Pipeline. Isso foi bom para acabar com a teoria da conspiração que todos falavam nas redes sociais. Adriano de Souza é o legitimo campeão mundial e nunca tivemos um ano tão bom como 2015. Caio Ibelli levou o QS, Adriano de Souza o CT, Gabriel Medina a Triple Crown, e Italo Ferreira a revelação do circuito. Fora os terceiros no mundial de longboard, de Chloé Calmon e Rodrigo Sphaier, e o título de Caio Vaz no mundial de SUP. Será que somos tão prejudicados pelo julgamento ?  Julgamento é subjetivo e em várias ocasiões discordamos das notas, mas não acredito em manipulação ou desonestidade por parte dos juízes. Como diz um amigo, chega de chorôro, vamos comemorar.
Na briga pelo título sabia que levávamos vantagem pelas leis da estatísticas. Tínhamos 75% de chances de levar.  Sabia que a briga estava entre Mick Fanning, Filipe Toledo, Gabriel Medina e Adriano de Souza. Owen Whight e Julian Wilson estavam com poucas chances de levar o caneco para austrália.Filipe Toledo foi um monstro em vários eventos durante o ano. Porém, nas etapas de esquerdas grandes e tubulares ficou a desejar. Poderia ter passado a bateria de Mason Ho, mas os juízes consideraram que faltava 0,27. Com certeza vai ser esta reflexão que vai levar para 2016. Ele é muito jovem e tem muito a aprender. Seu talento é enorme e com certeza estará em outras disputas pelo título mundial.

Gabriel Medina é o melhor surfista do mundo, na minha opinião. Ele e John John Florence são acima da média. Contudo, John John não tem a vocação para competidor. Gabriel, ao contrário, é um dos mais competitivos do tour. Talento e competitividade podem levá-lo ao patamar de Kelly Slater. Para isso não pode repetir o começo de ano de 2015, quando deu prioridade aos compromissos de seus patrocinadores. Tem que pensar que é uma corrida de longa distância, onde tem que manter o fôlego do começo ao fim. Poderia ter sido bi se não tivesse perdido para Glen Hall e Keanu Asing, dois atletas bem inferiores a ele. Vai levar essa lição para 2016.

Adriano nunca desitiu do seu sonho. Foto : WSL

Adriano nunca desitiu do seu sonho. Foto : WSL

Mick Fanning teve um grande ano. Venceu duas etapas e poderia ter vencido a terceira se não fosse o tubarão. Naquele momento pensei na sorte de campeão de Adriano. Imaginem se ele tivesse mais dois mil pontos na sua pontuação. Não estaríamos comemorando hoje. Em Trestles assumiu a liderança e parecia que não entregaria mais. Adriano ficou em segundo na etapa e mantinha uma proximidade da liderança. Filipe Toledo e Gabriel Medina ficaram em terceiro e vinham babando atrás dos lideres. Ainda tinha Owen e Julian Wilson com chances de título, mas que foram diminuindo na perna europeia. Mick chegou em Pipe como grande favorito, mas seu caminho rumo ao tetra era por demais ingrato. Pegar pelo caminho Jamie O’Brien, Kelly Slater, John John e Medina, em Pipeline, era uma missão muito difícil de superar. Com muita concentração e determinação foi vencendo um a um até chegar em Medina, na semi final. A morte de seu irmão, um dia antes de começar o evento, foi sua fonte de inspiração para superar as dificuldades. É um atleta idolatrado por seus companheiros de circuito, principalmente por seu caráter e profissionalismo. Lutou até o fim e merece aplausos dos amantes do esporte. Foi um digno adversário para o nosso campeão.

Ontem Adriano de Souza conseguiu o último título que faltava em sua brilhante carreira na ASP/ WSL . Foi campeão mundial Pro Jr, campeão do WQS, e agora do CT. Um vencedor nato desde sua infância, quando conquistou tudo que participou. Um fenômeno que despontou como a grande promessa do surf brasileiro.  Descoberto por Luiz Henrique, o pinga, sua carreira foi planejada com o objetivo de ser o primeiro brasileiro campeão do mundo. Entrou no CT sabendo se impor, mas faltava consistência para chegar ao título. Procurou evoluir nas ondas que tinha dificuldade, aprender com seus erros. Em 2011 venceu a etapa da Barra e sentiu o gostinho de ser o líder do ranking depois de 4 etapas. Não conseguiu acompanhar seus oponentes, mas sentiu que podia chegar. A entrada dos mais jovens no circuito, seguindo o mesmo planejamento do dele, mostrou que seu exemplo foi muito importante para o surf brasileiro. Miguel Pupo, Jadson André, Alejo Muniz e Gabriel Medina, junto com Adriano, mostravam ao mundo que esta seria a geração mais bem preparada e melhor até hoje, como digo na abertura do programa Brazilian Storm, do Canal Off.  O mundo do surf sentiu que a tempestade se aproximava para mudar de mãos o domínio do esporte.

Adriano veio de baixo e sabe dar valor as coisas que conquista. Trabalhou muito para chegar ao topo. Mostrou que muitas vezes não adianta só talento para alcançar as metas traçadas. Precisa ter garra e determinação para chegar ao lugar mais alto pódio. Um exemplo para nós brasileiros que temos a fama de nunca desistir. Acredito muito em trabalho, e por isso reverencio o novo campeão mundial de surf. Que o exemplo dele siga para as próximas gerações.

Parabéns Mineiro !! Campeão mundial 2015 !!

Parabéns Mineiro !! Campeão mundial 2015 !!

A vitória da paixão

E o mundo do surf tem um novo rei. E ele saiu das favelas do Guarujá. Uma vitória, como ele mesmo falou, “impensável” para a maioria absoluta da comunidade surfística. Mas enfim, ela veio. As pessoas podem associar um título mundial, ainda mais este que foi tão disputado, às atuações na etapa derradeira, no caso em Pipeline. Mas não podemos esquecer que Adriano de Souza liderou o Circuito Mundial por cinco etapas e sempre se manteve entre os três primeiros do ranking desde o evento de abertura na Gold Coast australiana.

Uma vez dito isso, vamos ponderar que realmente ele pegou um lado da chave de baterias muito mais fácil, em que Slater, Florence, O’Brien, Medina e o próprio Fanning, se mataram na parte de cima. Porém, suas atuações seguras quando as ondas beiraram os 12 pés foram suficientes para mantê-lo na briga. Até que chegou o dia final em condições que acabaram mostrando-se favoráveis. Não que ele seja maroleiro ou não saiba entubar, mas o fato é que seu nome nunca foi e talvez, mesmo sendo o campeão do Masters de 2015, nunca estará no rol dos favoritos em Pipe. Mas o que importa? Bede Durbidge, Taj Burrow e até o atrapalhado comissário da WSL Kieren Perrow já venceram ali em condições fracas sem estar no topo das apostas.

Vencendo Medina na final, Mineiro também diminuiu um pouco a surpresa com a virada pra lá de polêmica de Gabriel sobre Mick Fanning na semifinal que deu o título mundial ao brasileiro. Um 6,5 overscore acabou com qualquer dúvida em relação as conspirações contra os brasileiros na WSL. Para mim, um erro que serviu como uma facada no coração de um digníssimo Mick Fanning, que dramas à parte, teve um ano de 2015 para esquecer. O head judge Richie Porta e seus fracos comandados parecem querer aparecer mais que os atletas e ao invés de fazer uma disputa justa entre os dois últimos postulantes ao caneco, resolveram se intrometer e quebrar uma tradicão sagrada em Pipe, onde o que conta são os tubos e nada mais do que os tubos. E nunca um full rotation, numa marola, completado forçadamente poderia valer mais que um barrell na Rainha do North Shore. E olha que já vi Tom Carroll aplicando uma rasgada insana em morras de 12 pés! Adriano tinha toda a condicão de vencer qualquer um neste dia, e penso que seu título, no exterior, pode ter esta pequena mácula, imerecida pela tremenda temporada do único competidor que fez quatro finais (vencendo duas). Nós merecíamos ver Mick X Mineiro!

Na maré de maus exemplos que acontecem no Brasil, Adriano de Souza mostra que com muita dedicação, profissionalismo e talento, pode-se chegar ao topo. Mineirinho é a consagração do brasileiro honesto, que não desiste de seus sonhos e nem se deturpa para realizá-los. Assim como Medina, Adriano é o Brasil que dá certo, mesmo por caminhos tortuosos, onde a remada contra a maré é forte e cansativa.

MICK FANNING

Para finalizar, gostaria de destacar a forma com que Fanning, que quase foi engolido por um tubarão, que perdeu outro irmão de forma repentina, que pelo segundo ano perde a oportunidade de conquistar seu quarto título mundial, soube ser derrotado. É na hora mais escura que você conhece a alma e o caráter de um homem. E Fanning está, a cada dia que passa, se mostrando um ser iluminado, humilde, bondoso. Uma pena que o mundo não tenha mais seres humanos como ele. E tenha certeza, de que tanto Gabriel quando Adriano se espelham nesta figura bacana que é Mick Fanning. E ainda tem Filipinho Toledo, que numa aula de fidalguia após sua conturbada derrota no Round 3, mostrou ser um garoto de bom senso e um dos meus favoritos para o caneco em 2016.

Parabéns Mineiro, há muitos anos o escolhi, bem moleque, para ser a capa da Fluir comemorativa de 20 anos, porque acreditava que você seria o surfista responsável pela mudança brasileira no Tour. Gabriel foi o primeiro a vencer o título, mas você é o grande líder, o cara que mostrou o caminho a ser seguido, longe das drogas, com dedicacão, seriedade, profissionalismo e acima de tudo paixão. Você pode não ser um ET como Slater ou um mago como Medina, mas ninguém é mais apaixonado pelo surf do que ti!

MINEIRO CAMPEÃO

 

 

 

Arrombando a porta parte dois

Quem assistiu ao filme “Bustin Down the Door”, que mostra o domínio de
uma nova geração de surfistas em águas havaianas, está assistindo uma
nova versão da história contada por brasileiros. O título mundial de
Gabriel Medina foi o começo do domínio brasileiro no tour mundial,
tanto no CT quanto no QS. A confiança tomou conta de nossos atletas e
os resultados podem ser vistos nos rankings da WSL. No CT temos três
atletas com chances reais de trazer mais um título para o Brasil. No
QS temos quatro atletas na lista dos dez primeiros, com vagas
garantidas na elite de 2016. O décimo primeiro é o cearense Michael
Rodrigues, com grandes chances de entrar também. Resumindo, além do
segundo título, que podemos conquistar depois de Pipeline, poderemos
ter entre 9 e 11 atletas na primeira divisão em 2016. Praticamente um terço dos 34
atletas que vão disputar o circuito do próximo ano.

Miguel Pupo ganhou o QS 10 mil de Maresias e garantiu mais um ano na elite. Foto: Daniel Smorigo

Miguel Pupo ganhou o QS 10 mil de Maresias e garantiu mais um ano na elite. Foto: Daniel Smorigo

A vitória de Miguel Pupo na etapa do QS 10 mil de Maresias foi a
décima primeira conquista do Brasil em trinta e seis eventos do QS,
até o momento, em 2015. Tem ainda Haleiwa e Sunset, mas acredito que
vencer em águas havaianas é bem mais complicado. De qualquer forma, se
compararmos com anos anteriores, veremos que nunca vencemos tanto como
agora. Se contarmos ainda com as vitórias em etapas do CT, notaremos
uma grande supremacia do Brasil diante das outras nações, que por anos
dominaram o circuito mundial. Vencemos cinco das dez etapas do CT
deste ano. São 16 troféus que levantamos neste ano. Quando imaginamos
esta situação?

Filipe Toledo executa as manobras aéreas com muita precisão

Filipe Toledo foi o único que venceu três etapas em 2015, até o momento. Foto : WSL

Vencer da forma que estamos vencendo é o que dá mais orgulho. Quando
Filipe Toledo ou Gabriel Medina entram no modo automático ninguém
consegue parar esta dupla. Em 2015 os dois colecionaram algumas notas
dez em baterias do CT. Filipinho ainda precisa melhorar em ondas mais
fortes, mas com o talento que tem, tenho certeza que será completo em
breve. Com pouca idade, e ainda precisando melhorar algumas coisas no
seu surf, foi o único que ganhou três etapas neste ano no CT. Não acho
que está fora da disputa como muitos falam. O garoto tem estrela e
acho que vai ser o grande adversário do Medina no tour se o John John
continuar com seu modo goiaba nas competições. Gabriel é completo e
vem como um furacão atrás de seu segundo título. Começou mal o ano,
mas ligou o turbo e, sinceramente, alguma coisa me diz que posso ver a
mesma cena de 2014, quando levantou o caneco de campeão mundial no
final de Pipe. Palpite? Pode ser.

Gabriel voltou a mostrar surf de campeão mundial. Foto: WSL / Stephen Robertson

Gabriel voltou a mostrar surf de campeão mundial.
Foto: WSL / Stephen Robertson

Seria uma injustiça se não escrevesse nada a respeito de Adriano de
Souza. Foi o maior guerreiro que tivemos no CT de 2015. Na perna
australiana foi um gigante. Mostrou que queria ser o primeiro campeão
da recém-criada WSL. Falou isso abertamente. Seu foco e determinação
foram fundamentais para colocá-lo sempre na briga por seu grande
sonho. Foi campeão mundial Pro Jr., campeão mundial do WQS, faltando
apenas o título máximo na sua carreira vitoriosa. Torço muito para que
o título termine com ele. Principalmente porque acho que foi o grande
exemplo para a geração Brazilian Storm, da qual faz parte, apesar de
ser o mais antigo. A verdade é que não somos mais apenas uma
tempestade, mas uma realidade.

Adriano de Souza continua com a liderança do ranking do CT. Foto: WSL /KC

Adriano de Souza nosso grande guerreiro no CT. Foto: WSL /KC