Nordeste anos 80 – Minhas lembranças

Nordeste anos 80.

O programa 80 e Tal, do canal Off, trouxe lembranças maravilhosas para quem viveu naquela época. Fui convidado para ser um dos entrevistados e me senti honrado em contribuir com minhas lembranças para esse projeto. Meu pai era militar, e boa parte dessa década morei em Recife, onde fiz grandes amigos. Com certeza foram os melhores anos da minha vida.

Semana passada fui para Pernambuco relembrar os bons tempos, e cada amigo que encontrava me falava do programa. Perguntavam porque A, B ou C não haviam sido citados no episódio do nordeste. Expliquei que é impossível mostrar em 25 minutos dez anos de história de uma região. Que o intuito do programa é contar um pouco do momento do esporte durante aquela década.

Fiquei pensando nisso por um tempo, imaginando que poderia fazer um texto para falar de figuras e fatos que me marcaram naquele período. Por isso estou aqui rabiscando alguns pensamentos. Claro que fica mais fácil falar de Pernambuco porque foi onde morei.

Algo de extrema importância para o desenvolvimento do esporte no nordeste, foram as fábricas de pranchas. O trabalho realizado por seus donos ajudaram a formar grandes atletas do surf nordestino e brasileiro. Eles patrocinavam e apoiavam os surfistas de seus estados e da região.Posso citar algumas que tiveram grande relevância no cenário nordestino dos anos 80. A Nortão, de Odalto Castro do Ceará; A Radical, de Ronaldo Barreto, do Rio Grande do Norte; A Realce Nordeste, de Rogério e Romulo Bastos; A Magia, de Ricardo Marroquim; E a Arrecifes de Ary e Yalor Araújo, as três últimas de Pernambuco.

Eraldo Gueiros, Carlos Burle, Romulo e Rogério Bastos em cima da van da equipe Realce Nordeste. Foto Instagram Realce

Eraldo Gueiros, Carlos Burle, Rômulo e Rogério Bastos em cima da van da equipe Realce Nordeste. Foto Instagram Realce

Odalto era um dos nomes fortes do Ceará. Foi o primeiro brasileiro a sair em uma capa da Surfing Magazine, surfando em Pipeline, no Havai. Patrocinava os melhores atletas do seu estado. Cesar Picureia, na minha opinião o melhor surfista competitivo do Ceará dos anos 80, era atleta Nortão. Ronaldo Barreto tinha uma equipe de respeito. Suas pranchas eram consideradas mágicas por muitos que usaram. Felipe Dantas, Sérgio Testinha, e Joca Junior devem ter sido seus melhores pilotos de teste da época. Rogério e Romulo tinham muita visão de mercado. Assumiram o posto de prancha líder de vendas no nordeste. A equipe da Realce era muito forte. Só para ter uma ideia dos atletas que usaram suas pranchas na segunda metade da década, Fabio Gouveia, Joca Junior, Sérgio Testinha, Zé Radiola, Eduardo Fernandes, Hilton do Valle, Fred Barros, Carlos Burle, Carlos Pereira, Jojó de Olivença e outros que me fogem a memória. Conseguiram formar um dream team nordestino. Ricardo Marroquim, o Marroca, é um shaper muito bom até hoje. As melhores pranchas que tive na época foram dele. Uma adaptação de uma prancha de Joey Buran foi uma grande evolução para a galera de Pernambuco. Seu irmão Claudio Marroquim, Eraldo Gueiros, Carlos Burle ( antes de sair para a Realce ), Sandro Black, Helio Coutinho, Rogério Soares, Rodrigo Trajano e o próprio Ricardo, arrepiavam por todo o litoral. Ary e Yalor também tinham uma bela equipe. Antônio Carlos, Fabio El Loco, Xuca, Marcelo Loureiro, Ratinho, e Ary, davam um gás nas competições. As pranchas eram shapeadas por Ary e Yalor cuidava do negócio. Encontrei com Ary semana passada e sua prancha me chamou bastante atenção pelo refinamento do seu shape, principalmente nas bordas.

Ricardo Marroquim continua shapeando em alto nível.

Ricardo Marroquim continua shapeando em alto nível.

Um shaper que não posso deixar de falar é Piet Snel. De família holandesa, Piet teve uma importância enorme para a evolução do esporte em Pernambuco. Seu conhecimento e experiência, trazidas de suas viagens pelo mundo, foram de suma importância para a galera local. Foi um dos descobridores de alguns dos picos de fundo de pedra que fazem a diferença hoje em dia. Sua prancha, a Concha Surfboards, sempre foi feita de forma artesanal. Paulo Cristo, André Albuquerque da Universo,  João da Argo,  Júlio Marques da JM , Anderson Ginani da Alamoa, e Suíno, também faziam boas pranchas para a galera.

Mudando de assunto para eventos, três foram de grande importância para o intercâmbio entre o sudeste e o nordeste. O Arrecifes Pro, realizado em Gaibú; O Circuito Realce, que começou com uma triagem no Acaiaca, em Boa Viagem, e terminou em Maracaípe; E o Match Balin, também realizado em Maracaípe . Os dois primeiros trouxeram grandes nomes do Rio de Janeiro para concorrer a pranchas e passagens para o exterior. Em Gaibú, no Arrecifes Pro, Marcelo Bôscoli, do Rio de Janeiro, venceu na Pro, e seu conterrâneo Sergio Noronha no amador. A etapa do Realce foi vencida por Zezito Barbosa, com Daniel Friedmman em segundo, Cauli Rodrigues em terceiro, e Sérgio Testinha em quarto.

Marcelo Bôscoli levantando o troféu do Arrecifes Pro.

Marcelo Bôscoli levantando o troféu do Arrecifes Pro.

 

O Match Balin, em fevereiro de 86, foi um evento grandioso. Talvez o maior realizado antes do Fico, em Salvador, no ano seguinte. A premiação foi muito boa, e surfistas do Rio e São Paulo prestigiaram a competição. Maracaípe foi invadida por uma legião de jovens querendo curtir a semana perto dos grandes nomes nomes do surf nacional. Tinguinha Lima, de São Paulo, venceu na Pro, e Coquinho, do Rio de Janeiro, no amador. Uma semana de competições e festas. Geraldo Cavalcanti, que organiza os eventos até hoje, junto com Ernani Bergamo da Match e Serginho da Bali, foram os responsáveis pelo sucesso do campeonato.

Muitos me perguntam porque os nordestinos são tão talentosos. Acho que a reposta está na água quente que permite ficar horas dentro d’água treinando suas manobras sem ser incomodados por roupas de borracha ou frio. Fora isso, surfam em fundos de pedra, tem Noronha do lado, e  beach breaks que permitem fazer diversos tipos de manobras. O que mais me impressiona é a velocidade que imprimem em suas pranchas.

Paulinho Porrete foi um dos melhores surfistas de Pernambuco nos anos 80.

Paulinho Porrete foi um dos melhores surfistas de Pernambuco nos anos 80.

Nos anos 80 muitos arrepiavam. Vou começar por Pernambuco porque foram caras que acompanhei mais de perto. Tenho que iniciar minha lista por Paulinho Porrete. Extremamente talentoso, tinha uma linha de surf muito bonita. Tanto de front quanto de back, sua maneira de surfar era impecável. Junto com seu companheiro, e amigo, Zezito Barbosa, faziam uma dupla vencedora em competições pernambucanas e nordestinas. Zezito era uma máquina de competição. Rápido e habilidoso, foi o vencedor da final memorável do Circuito Realce. Era um competidor que arriscava muito e errava pouco. Claudio Marroquim também fazia parte desse seleto grupo de vencedores. Surfava com muita pressão e versatilidade. Suas manobras me impressionavam muito. Continua em forma, sendo campeão brasileiro master da sua categoria. Peguei umas ondas com ele na Pedra Preta, semana passada, e pude constatar que ainda está arrebentando.

Claudio Marroquim em ação no brasileiro master da CBS. Foto: Divulgação

Claudio Marroquim em ação no brasileiro master da CBS. Foto: Divulgação

Zezito Barbosa surfando no Boldró, Fernando de Noronha em 80 e Tal. Foto: Nelson Veiga

Zezito Barbosa surfando no Boldró, Fernando de Noronha, em 80 e Tal. Foto: Nelson Veiga

Continuando a lista de grandes nomes do surf pernambucano, Fábio Quencas era um monstro. Habilidoso nas marolas, quebrava nas ondas grandes. Foi um dos surfistas mais completos que já conheci. Talvez o surfista com o maior potencial da época. Venceu uma etapa organizada para brasileiros no Havai. Seu amigo de Candeias,  Zé Radiola, também tinha muito prestigio.  Quebrava muito de backside. Seu pico preferido era um fundo de pedra para esquerda impossível de ser surfado hoje em dia. Os tubarões tomaram conta da bancada . Mudou para o Guarujá para representar muito bem o estado nos eventos da ABRASP. Outro que arrepiava muito para a esquerda era Hilton do Valle. Tinha um estilo muito bonito. Suas rasgadas eram algo de empolgar. Um competidor feroz, que não se entregava.

Fabio quencas Brasileiro master 2012.foto fabriciano jr Related images: Related image Related image Related image Related image Related image Related image Related image Related imageView more Images may be subject to copyright.Send feedback Fábio Quencas campeão da 1ª etapa do Circuito Pernambucano de Surf ... www.surfguru.com.br630 × 422Search by image O master Fabio Quencas surfou muito e ganhou a master na 1ª etapa do Pernambucano 2011 de Surf em Maracaípe - foto: Fabiana Mourato

Fabio Quencas é um dos maiores nomes da história do surf pernambucano. Um surfista completo.   foto: fabriciano jr

Eraldo Gueiros e Carlos Burle, meus amigos e companheiros nesta década, foram referência do nordeste no Circuito Brasileiro da ABRASP. Fizeram parte dos Top 16 por alguns anos. Tive o prazer de ser técnico dos dois por um bom tempo. Surfavam qualquer tipo de onda com a mesma maestria. Eraldo tinha um pouco mais de pressão, mas menos competitividade. Mudaram seus rumos e se tornaram dois surfistas internacionais em ondas grandes. Fizeram uma dupla de sucesso no Tow In, quebrando recordes e alcançando o pódio em várias competições. Burle ainda está representando o Brasil em competições da WSL Big Waves. Acabou de ficar em quarto lugar na etapa do México, com ondas de 15 a 18 pés.

Eraldo Gueiros e Carlos Burle fizeram seus nomes surfando ondas grandes, na remada ou no Tow In. Foto: Globo.com

Eraldo Gueiros e Carlos Burle fizeram seus nomes surfando ondas grandes, na remada ou no Tow In. Foto: Globo.com

Além dos nomes citados, posso dizer que já bati palmas para atletas que se destacaram em competições locais e nacionais levando a bandeira de PE. Walter Coelho, Napinho, Marcelo Jacques, Sávio Carneiro, Deca, Alexandre Martins, Paulinho do Derbi, Bráulio, José Antônio, José Tavares, Sergio Buarque, Marcelo Cutback, Sandro Black, Hélio Coutinho, Gerson Bambam, Clemente Coutinho, Antônio Carlos, Fabio El Loco, Xuca, Marcelo Loureiro, Ratinho, Fernando Cruel, Eduardo Fernandes, Rogerinho, Paique, Fred Barney, os irmãos Rodrigo e Diego Trajano, Kaká Campos ,Guga Roque, Luizito Almeida, Mario Neto,Paulo Smurf, Romerinho, Gustavo Aguiar, Bolinho, Paulo Tampinha, Marinho e outros que me fogem a lembrança.  Também tenho que citar alguns surfistas de alma que sempre estavam presentes nas sessões de surf. Guilherme Coutinho, Manolo, Duda e Henrique Dick, Paulo Roma, Adolfo, Luiz Godoy, Augusto Godoy, Kang, Rubro, Zé Henrique, Caverna, Alexandre Vovô, Alvaro, Guga Babu, Mauricio da Fonte, Olímpio, Chico Calango, Topó, Artur Tavares, Caneta, Albino Malta, Marlon, Beja, Bruno Pig, Rui Chapéu, Sergio Murilo, Edgar Negão, Fernando Guilherme, Fernando Murrinha, Trapa, Alexandre Gueiros,  Giorgito, Flavio Melo, Balaco, Nem Batatinha, Suíno, Biu Rodinha, Airton PB Almeida, Hiltinho, Júlio Marques, Ivan, Tenente, Caneca, Alex, Poica, Mocorongo, Ney , Edinho, Panterinha, Paulo Charuto, Baiano, Leopoldo, André Maia, Zelo, Nildinho, Lucídio, Robinho, Marcio e André Quebra Coco, Coveiro, Neno, Renato Mazzini e alguns que me fogem da memória.

Em minhas viagens para campeonatos pela região pude acompanhar de perto outros surfistas de grande qualidade. Felipe Dantas e Sergio Testinha eram os dois maiores nomes do surf potiguar e nordestino. Felipe era um competidor nato. Talvez o maior tuberider do nordeste naquela época. Já conhecia vários fundos de pedra, e suas viagens para Noronha eram constantes. Na minha opinião o primeiro surfista profissional do nordeste. Testinha era talento puro. Muita velocidade e criatividade nas manobras. Uma maquina de competição. Ganhar dele era foda. Fabio Gouveia teve muita influência desses dois atletas. Outro que pode ter influenciado Fabinho foi João Maria, da Baia Formosa. Muito humilde, e com poucas viagens, não conseguiu mostrar todo seu potencial a nível nacional. Quem o viu surfar no nordeste ficou de queixo caído. O Rio Grande do Norte tinha outros nomes de peso, mas a década foi de Felipe e Testinha. No final dos anos 80, Joca Junior e Hemerson Marinho apareceram como a renovação do surf potiguar. Os dois foram atletas do WCT e isso basta para dizer a grandeza desses atletas.

Felipe Dantas uns dos maiores tuberiders do nordeste de todos os tempos. Lagundri Bay, Nias, Indonésia. Foto: Santos Wau..

Felipe Dantas uns dos maiores tuberiders do nordeste de todos os tempos. Lagundri Bay, Nias, Indonésia. Foto: Santos Wau..

No Ceará tinham muito bons surfistas. Zorrinho, Odalto, Sarará, Picolé, e David mandavam bala na primeira metade da década. Depois Cesar Picureia foi o grande nome do estado em competições nacionais e regionais. Estilo polido, de manobras bem executadas, era um competidor frio, de muitos recursos. Em Alagoas, Carlos Pereira era o cara a ser batido. Tinha bastante versatilidade e força nas manobras. Estava sempre em Pernambuco, fazendo intercâmbio com a galera. Na Paraíba os dois atletas que me impressionavam eram amadores. Fabio Gouveia e Brainer Brito, o Mocó, destruíam nas competições de sua categoria. Em Sergipe, Saulinho estava sempre presente nas competições. Na Bahia, o número de atletas bons era muito grande. Jojó de Olivença foi o primeiro campeão brasileiro nordestino depois do surgimento da ABRASP. Porém, no começo da década Hilton Issa era O cara. Depois vieram Olimpinho, os irmão Argolo, Ricardo BC, Marcos Boi, e o próprio Jojó, que faziam a frente baiana no circuito brasileiro.

Jojó de Olivença foi o primeiro nordestino a ser campeão brasileiro de um circuito da ABRASP. Foto: Domingos Jr

Jojó de Olivença foi o primeiro nordestino a ser campeão brasileiro de um circuito da ABRASP. Foto: Domingos Jr

Gostava muito de ler a Visual Esportiva. Achava a revista a cara do começo da década. Depois veio a Fluir e fez uma frente a Visual. Era mais voltada para o surf. As duas mostravam muito do eixo Rio – SP, deixando a galera do nordeste com pouca visibilidade. Com a criação da Surf Nordeste, por Regi Galvão, os momentos dos atletas, e as competições nordestinas, passaram a ter seu espaço próprio. Até hoje Regi faz um bom trabalho de divulgação do surf da região. O Matador, jornal de surf, que trabalhei com Hélio Coutinho e Clemente Coutinho, foi outro veiculo que divulgou bem a galera de Pernambuco. Mais tarde Helinho, Clemente, Bia, e Marcelo Cartaxo, fariam o Surf Press, lider de mercado por anos em todo o nordeste. Helinho é extremamente criativo e inteligente. Ele e Regi são figuras importantíssimas na história do surf pernambucano e nordestino.

Revista Surf Nordeste em nova versão.

Revista Surf Nordeste em nova versão.

Se esqueci de alguém, ou de algum fato, me perdoem ou me ajudem lembrando de alguém ou de algo que não falei.  Meu intuito é lembrar os bons tempos que passei no nordeste, nos 80 e Tal.

Que tal?

Em Fiji, Medina deu aula de competicão, Slater de conhecimento e técnica para entubar, Taj de como se deve encarar a aposentadoria, mas o que ficou na minha cabeça nestas duas semanas foi como o episódio de estréia do “80 e Tal”, exibido no último dia 14 de junho e que irá passar às terças no canal Off, mexeram com os sentimentos dos quarentões, cinquentões e até sessentões que viveram dias de ouro nos anos 80. Éramos felizes e sabíamos!

Rafael Mellin nasceu naquela década mas com sua sensibilidade e ajuda de quem viveu intensamente aqueles anos, montou uma série de 13 episódios que contará muitas histórias divertidas e saudosas de gente que cimentou de vez a base do surf brasileiro. É óbvio que muita coisa boa e pessoas importantes ficaram de fora pois é impossível colocar todos. E que me desculpem os egocêntricos, o inportante aqui não é quem está na telinha, mas as lembranças representadas por uma grande turma que desfilou pelas praias país afora sonhando em viver do surf e para o surf.

As mensagens das meninas, agoras mães, dos gatões, alguns avôs, todos se referindo a uma época inesquecível, de muitas descobertas e aprendizado, me emocionou profundamente, me fazendo sonhar de novo com as viagens para a praia da Joaquina, palco principal do surf nacional naquela época. Também das esquerdas da Guarda e das direitas da Silveira com pouca gente (comparado a hoje) e muita estrada de barro. Das idas para Maracaípe e Stella Maris, com a galera sempre divertida e acolhedora do Nordeste. Das horas sem fim de surf no Meio da Barra recortado de valas, com minha CG e meus amigos farofados nas areias brancas ou batendo um rango no trailer Pureza.

Sinto saudade da rivalidade entre a Cristal Graffite, Hotstick e Hidrojets no Rio. Da idolatria pelo Cauli. De ver de perto o surgimento do fenômeno Dadá. Dos sábados com o Realce. Das gatinhas da Zona Sul. Da empatia com a turma de Nikiti (Dodô, Porquinho, Gilmar, Tatuí, Dico, Duca…). Dos foguetes do Beto, dos papos com Roberto (Valério), das risadas com Fedelho, Guto e Casquinha, da amizade pueril com Dudu e Guga. De Ubatuba. Guarujá. De descobrir o que eu queria fazer da vida ao conhecer Fafau e ele me fazer escrever meu primeiro texto pro jornal Staff.

Lembro de viajar de avião sem meus pais, da primeira trip de carro, de ter fã clube, de descobrir que em São Paulo tinha muita gente boa como a galera da Ripwave: Renan, Chulé, Pen, Zé Paulo. Das zoações no Joaquina Beach com Duca e Beto Cavalero. Das gaúchas, lindas de morrer. De passar o mês de julho em Garopaba num frio do cão. Do Mistura Fina na Barra, do Adrenalina do Xu. Dos tubos do Postinho. De ver o Brasa, Valdir e o Zulu destruindo no Quebra Mar. De apreciar meu camarada Xandinho desafiando as cracas no seu bodyboard. De ter conhecido Stephany, Mariana, Belinha, Tatiana e Glenda, as verdadeiras sereias dos sete mares.

Nunca vou esquecer do que assisti no Waimea 5000, com Fred X Cauli num Arpoador de gala. Nem de ver o Picuruta na Barra, com roupa de borracha verde e laranja surfando que nem gringo (nesses tempos isso era um baita elogio). De apreciar os estilos de Muga, Teté e Betinho Maluco na valinha do 3100 ou escutar o mestre Meco sobre a arte de esperar a onda certa. De ter meu walkman e escutar sem parar U2, Iron Maiden, INXS, The Cure e Fleetwood Mac. De ir morar no Barramares e conhecer as pessoas que fazem parte de cada pedaço de minha alma, com risos e lágrimas, típicas de uma grande família.

Os anos 80 foram coloridos, criativos, desbravadores. Foi quando vi Free Ride. Quando tive meu calcão Sundek original. Quando tive minha primeira prancha (uma Dick Brewer 5’7″). Quando encomendei minha primeira triquilha com o Roberto Bataglin, irmão do Pedro. Quando tive minha primeira CG a preço de custo. Quando ganhei do meu pai o primeiro colete de neoprene da O’Neill. Quando a menina que fazia a inscrição do Circuito Company/Cyclone ficou com preguiça de escrever meu nome e botou Alex Guaraná, o que acabou virando meu nome de guerra no surf e no jornalismo (eu odiava que me chamassem de Alex).

Recordo também de ficar boquiaberto ao ver Teco surfando e mais ainda ao descobrir que Neco, um pingo de gente, podia ser melhor. De ver Dedé e Jesus crescerem e se tornarem grandes caras. De ver Léo Trigo, Cadu e Marcelus arrepiarem com as pranchas do Pastor. De não acreditar nas ressacas que Rodrigo (Resende) se metia surfando morras impensáveis com apenas 17 anos. De usar os calções Flake dos Marcelos Burla e Magrão (este com papai do céu). De conhecer Wanderley Carbone, um gênio das artes e Marcelo Andrade, um dos meus maiores amigos. Tantas memórias…

O que é a vida sem olhar as páginas viradas? Somos o somatório delas e cada uma tem suma importância em quem você é. Lembrar de ontem é compreender o hoje.

Obrigado “Kid” Rafa pela busca do passado, importante na história de qualquer sociedade.

 

 

 

Morte anunciada

Já rolavam uns boatos, mas a notícia em primeira mão foi dada pelo Marcelo (Andrade), aqui no Surf 100 Comentários. Depois de 32 anos e alguns meses, a FLUIR deixará de circular.

Sou da geração que viu a Visual Esportivo nascer, para tomar o lugar da Brasil Surf. E que viu a versão paulista da Visual, a FLUIR, engolir a carioca por ter uma gestão mais profissional.

Comprei a edição número 1 da Fluir, que era fina, mal feita, com muitas fotos em P&B, porém tinha algo de novo. Sua evolução foi rápida e já na sexta edição, veio potente com excelentes matérias. Na verdade, não sei se eram tão boas, mas certamente, para quem tinha pouca idade, era uma miragem em meio a um deserto de informações sobre o surf no Brasil.

Capa da primeira Revista Fluir.

Capa da primeira Revista Fluir.

Passaram-se anos, e a gestão mais profissional mostrou-se não tão profissional, meio que quebrando e sendo vendida para um conhecido empresário do ramo editorial, Ângelo Rossi, que tinha criado a Editora Azul, que algum tempo depois se tornaria um braço da Editora Abril, maior grupo editorial da América do Sul durante décadas.

Numa empresa de porte, com pessoas mais acostumadas a um padrão de excelência, a FLUIR teve uma evolução, embora ficasse meio “quadrada” em termos editoriais. Diria que tecnicamente evoluiu mas editorialmente ficou careta.

Uma vez na Abril, a revista ficou ainda mais industrial, mas com a direção de Felipe Zobaran, manteve um linha bacana e informativa, com conteúdo próprio mas limitada a um projeto gráfico da casa.

Diria que a grande virada da revista foi em 1999, quando Rossi, um dos fundadores da Abril, resolveu criar outra editora, a Peixes, e levou a FLUIR, perdida entre tantos títulos na gigante editora paulista, começando um portfolio jovem e interessante. A sede na Rua Helena, no Itaim, foi crescendo e logo o 4o andar se tornou pequeno. Mais 3 andares do prédio foram ocupados e 10 selos criaram a 5a maior editora do país.

Sob gestão de Adrian Kojin, um eterno freesurfer de alma e excepcional jornalista, a FLUIR foi criando asas e entrando numa metamorfose que viria a ser referência no mercado jovem brasileiro.

Entrei no time em 2000, ocupando o cargo de editor. Foi um desafio para mim sair da tranquilidade de morar em frente a praia e surfar todo dia e encarar um ap em Campo Belo, ao lado do meu amigo Felipe Silveira, hoje CEO da Rip Curl. Dividimos o aluguel durante 3 anos, onde as discussões e bate papos foram importantes na minha maturação na relação editor X marca de surf.

Felipe é um mestre do marketing e suas dicas me deram muitas idéias para consolidar a marca FLUIR fora do mercado especializado. Queríamos ser mais do que uma simples revista de surf. Queríamos ser a melhor revista jovem do Brasil. E conseguimos! Não porque eu ache isso mas sim porque fomos premiados. Era o sonho se realizando. Tudo baseado em três coisas: independência, muito trabalho e opinião.

Prêmio Fluir sempre foi considerado o Oscar do surf brasileiro. Foto : Fluir

Prêmio Fluir sempre foi considerado o Oscar do surf brasileiro. Foto : Fluir

Sempre tivemos total liberdade para exercer nosso papel de jornalistas. Nunca, nem uma vez, Ângelo Rossi se meteu em quaisquer situação polêmica. Sempre ficou ao nosso lado, o que nos dava muita segurança na forma de atuar, principalmente com o departamento comercial, que basicamente quer vender, seja da forma que for. Os embates com os responsáveis foram titânicos e não foi uma ou duas vezes que minha cabeça foi pedida, pela forma com que eu defendia, com aval do Kojin, os projetos para a revista.

Comecei a participar de reuniões com publicitários e ver que a FLUIR era sinônimo de jovem neste seleto ramo. Carro com a logo, mensagens nos celulares (para a época era a vanguarda da vanguarda), camisas, barracas, festas inesquecíveis, premiações histórias para os surfistas preferidos dos leitores… Tanta coisa, construída sem vender a alma…

Muito se fala, no mundo todo, que a internet acabou com a mídia impressa. Discordo! Assim como a TV não acabou com o rádio, a internet não vai acabar com revistas e jornais. O que acontece é uma simbiose entre ambos, onde a qualidade e interação se faz necessária, com competência obviamente. E me parece que a editora que comprou a quase falecida FLUIR da extinta Peixes, não se preocupou em fazer isso. Apostaram no site Waves, tradicional no mercado, mas que competia com a revista e sua marca, infinitamente maiores.

Aos poucos, a revista perdeu sua maior qualidade, a liberdade, e passou a flertar com o perigoso mercado, sempre querendo mandar no que não entende. Assim como um jornalista não sabe produzir uma bermuda, um empresário de surfwear não tem a menor idéia de como publicar um bom veículo de comunicação. Eles se completam sim, mas cada um no seu limite de espaço. A partir do momento que as marcas passaram a controlar o que saía nas páginas, a vaca foi pro brejo. A partir do momento que o site da FLUIR foi esquecido em prol do WAVES, a vaca foi pro brejo. Um erro de avaliação que custou caro. E pela terceira vez, a FLUIR sucumbe a má administração e falta de visão, só que dessa vez, me parece, sem um herói para resgatá-la.

Sei que Adrian (Kojin), Paulinho (Paulo Costa Jr.), Naninho (Ernani Mesquita), Waltinho (Walter Garrote), Ale (Alessandro De Toni), Lucky (Luciano Ferrero) e Steve (Steven Allain) estão como eu, muito tristes pelo fim de uma era. Nós, que vivemos os tempos de ouro da revista, que de patinho feio se tornou o carro chefe de uma grande editora nacional, sentimos que uma parte de nosso espírito some junto da FLUIR.

Torçamos para que a Hardcore, a eterna rival, continue viva e aprenda a lição de que o importante no jornalismo é buscar a informação e mais do nunca opinião bem embasada. O jovem pode estar perdido entre telinhas e telas de smartphones e tablets, mas ainda tem muita gente, quarentões como eu, que querem um algo mais, que precisam de conteúdo, que curtem sentar e folhear uma boa revista e, quem sabe, passar este hábito para seus filhos e estes para os seus netos. O papel não acabou, apenas se transformou. Jornal e revista são produtos para quem quer qualidade. E é isso que causou a morte da FLUIR. Não foi internet ou outra desculpa. Faltou ser a melhor onda!

Fluir_86_3280

Despedida?

Arpoador? São Conrado? Postinho? Meio da Barra? Macumba? Não, Grumari.

Tantas sedes, tantas dúvidas, mas enfim o evento considerado de maior apelo popular da WSL terá seu palco principal na ainda desbravada Grumari, um local de acesso limitado principalmente por ser uma Área de Preservação Ambiental.

O motivo não foi a falta de ondas boas, nem a tão temida água suja. Apenas uma série de ressacas que envergou a enorme estrutura que estava sendo montada no Postinho.

Relembrando o retorno da etapa do mundial para o Rio, noto que este ano termina o contrato que a Prefeitura carioca (maior patrocinadora do evento) fez com os responsáveis pelo Tour. E visto a enorme repercussão negativa do ano passado em relação a água lotada de coliformes fecais durante a disputa, creio que seria mais fácil, na cabeça dos políticos, não dar sequência a este evento, notando que resolver o problema do esgoto (que é atribuição do Estado) e principalmente o Sistema Lagunar da Barra da Tijuca, este sim responsabilidade do município, é bem mais complicado.

Seguindo este raciocínio, tenho o leve receio de que o Rio vai perder mais um evento internacional, pois com o fim das Olimpíadas e do mandato do Prefeito Eduardo Paes (que não está com cara que vai eleger algum sucessor) me parece razoável que a etapa vá para outro estado, que ao meu ver seria São Paulo.

Ano passado já tinha feito um texto com a sensação de que a etapa 6 estrelas de Maresias caminhava a passos largos para se tornar um evento da WSL. Esta minha compreensão está cada vez mais clara. O Governo do estado de SP, mesmo com problemas financeiros, tem muito mais recursos do que o do RJ por razões óbvias. As praias do litoral paulista tem ondas excelentes, na minha opinião de melhor qualidade do que as da cidade do Rio. E os dois campeões mundiais brasileiros, Medina e Mineirinho, são paulistas. Além é claro de Filipe Toledo, Wiggolly Dantas e Miguel Pupo todos serem do litoral norte de SP. Oras, com tantos fatores a favor, não me surpreenderia nada que em 2017 as cidades de São Sebastião ou Ubatuba recebessem a parada sul-americana da WSL.

Analisando friamente, diria que seria uma solução melhor. Ambas cidades tem estrutura para realizarem este evento. Tem ondas muito boas, principalmente no período do ano onde rola o campeonato, maio. A WSL fugiria do padrão “evento de massa” para uma coisa mais country, já que ambas cidades tem um astral mais natureza do que as grandes capitais. Mesmo com as complicações da distância dos aeroportos, diria que pra se chegar em Margaret River é pior ainda e não vejo a onda de Main Break melhor que Maresias.

Para quem gosta do surf bem surfado, mesmo sendo carioca, prefiro um evento nos moldes que vi no Sundek Classic em 1988, com os melhores surfistas do mundo em ondas épicas na praia de Itamambuca, felizes de vida, num local lindo, numa cidade acolhedora, com alguns problemas logicamente, mas sem esta insegurança e descaso que vemos atualmente no Rio de Janeiro. Uma ciclovia que mata, uma praia que contamina, ondas marrons, vírus de todos os tipos, balas perdidas… Agora, uma penca de atletas avisando que não virão, sem ao menos dar uma desculpa satisfatória, sendo eles dois campeões mundiais do porte de Slater e Parkinson, um fora da zona de classificação para o ano que vem e o outro disputando o título… Já vi este filme algumas vezes e isso me parece final de feira.

Pelo bem do surf, prefiro a mudança, pois sei que aqui nada vai se alterar.

O Rio recuperou o lugar de destaque que o surf tinha perdido na grande mídia.

Mas tá na hora de recuperarmos o espírito que nosso esporte sempre teve na ligação direta com a natureza, preservando-a, coisa que por aqui foi deixada de lado há tempos.

Prainha, Macumba, Grumari, todas são lindas e sensacionais. Mas mudar o evento pra lá só taparia o sol com a peneira.

Sejamos humildes e pensemos no coletivo.

Entre gastar milhões para se fazer um evento e gastar milhões para dar um jeito no que está fétido, prefiro que meu imposto seja gasto na segunda opção, embora saiba que provavelmente ele seja usado em alguma obra mal feita e de caráter duvidoso.

Posso estar até enganado, mas seguindo meu feeling, lá vai: Valeu Rio! Até a próxima!

Filipe Toledo carregado pela torcida brasileira. Foto: WSL

Filipe Toledo carregado pela torcida brasileira. Foto: WSL

 

Chutômetro das Ondas 08-04

Sábado dia 9/04 – Meio a um metro, subindo um pouco a tarde. Ondulação de sudeste e vento oeste fraco pela manhã, passando a sudeste fraco a tarde. Os fundos da Zona Sul estão ruins e o melhor lugar deve ser São Conrado canto esquerdo, que tem sido o lugar mais constante. Na Zona Oeste o Canto do Recreio deve ser uma boa opção. Macumba CCB e Rico Point, Prainha canto esquerdo, e Grumari, também devem ter boas ondas.

Domingo dia 10/04 – Um metro, séries maiores, com ondulação de sudeste e vento nordeste fraco pela manhã, passando a sudeste moderado a tarde. Os fundos da Zona Sul estão ruins e o melhor lugar deve ser São Conrado canto esquerdo. Na Zona Oeste o Canto do Recreio deve ser uma boa opção. Macumba no Rico Point, Prainha canto esquerdo e Grumari, também devem ter boas ondas.

Tendência da água – 21 a 22 graus. (quente)

Video Ezalx

IMG_7853

Xandi explica

Xandi Fontes, responsável pela organização da etapa brasileira do WSL, que será realizada na Barra da Tijuca em maio, responde minha matéria “A Vaga”, me corrigindo e tirando dúvidas em relacão a escolha dos convidados para o Oi Rio Surf Pro. Abaixo sua explicação:

“A regra está atualizada (última atualização início de Março de 2016) e é clara! Artigo 14: Wildcards: 14.01 Segundo o Artigo 14.02, para cada Temporada de Surf em Eventos do CT: (a) 2 (Masculino) / 1 (Feminino) Wildcard(s) devem ser escolhidos pelo Comissariado para a Temporada de Surf (Wildcards de Temporada). Os Wildcards de Temporada receberão pontos durante toda Temporada de Surf; e (b) 2 (Masculino) / 1 (Feminino) Wildcard(s) devem ser escolhidos pelo Comissariado para cada Evento (Wildcard de Evento). Os Wildcards de Evento receberão pontos de CT. 14.02 Todos os Wildcards que competem em Eventos da WSL devem assinar o Contrato dos Surfistas da WSL e estarão sempre sujeitos à aprovação do Comissariado. Explicando melhor: no masculino – Top 32 + 4 convidados = 36 competidores. Dos 4 convidados 2 vagas são dadas pela WSL Internacional para os atletas que não se classificaram por contusão (anual) e as outras duas vagas restantes  são indicadas pelo WSL Commissioner’s Office (Comissariado), o qual não faço parte, para cada evento, ou seja, estas vagas podem trocar de evento para evento! No caso do CT do Brasil uma dessas vagas foi repassada para a WSL South America, que assim como nos anos anteriores, destinou está única vaga para a Federação Estadual de surf – FESERJ, que neste ano decidiu fazer uma triagem local.”

Na explanação acima, Xandi deixa claro que não tem nada a ver com a escolha dos convidados. Nestes meus 35 anos de surf dentro e fora d’água, sei que a política interna age forte para que os interesses de organizadores, patrocinadores e a própria ASP, no caso agora a WSL, vão de acordo com o que seja melhor para eles e, nem sempre, para o esporte em si. Digo que o responsável pela escolha do outro convidado terá, na minha humilde opinião, um ato covarde e sem bom senso se não chamar o atual campeão brasileiro de surf profissional Bino Lopes. A FESERJ pode ter sido corporativista no seu direito de escolha mas está sofrendo as consequências encarando de frente sua decisão. Qua apareça o gênio, ou gênios, que farão o segundo convite, e tal qual a entidade carioca, que de, ou dêem, a cara a tapa.

Como disse antes, o que falta nesta polêmica toda é transparência. Afinal, boa parte do dinheiro que está sendo usado há tanto tempo neste evento vem do meu, do seu, do nosso bolso carioca.

 

Screen shot 2016-04-06 at 12.05.21 PM

A vaga

Tá dando o que falar a decisão da FESERJ (Federação de Surf do Rio de Janeiro) de fazer uma triagem com 16 surfistas pela sua vaga de convidado na etapa brasileira da WSL, que rola em maio na Barra da Tijuca, ou quem sabe Grumari. Tradicionalmente, e não é de agora, mas sim de algumas décadas, o campeão brasileiro sempre teve o direito de participar do evento de forma direta, salvo uns dois ou três anos atrás, quando Jean da Silva foi obrigado a disputar um trials também.

Entenda como funciona a escolha dos quatro wildcards nos eventos da WSL: Segundo o artigo 14.01 do Livro de Regras da entidade que promove o Circuito Mundial, a própria WSL tem o direito de convidar dois surfistas a sua escolha. As outras duas vagas são do promotor do evento, no caso o catarinense Xandi Fontes. Como a Prefeitura do Rio é uma das fortes apoiadoras, seja com o empenho da Secretaria Municipal de Esportes ou com incentivo fiscal, no caso para a Oi (a Prefeitura por meio de ISS. Não sei se o Estado autorizou o uso de incentivo de ICMS), um destes convites, por acordo, é da FESERJ, por onde é obrigado a sair a verba municipal (não o $$ incentivado). Antes desta polêmica, as duas vagas eram oferecidas ao campeão carioca e ao campeão brasileiro, isso quando o evento era o Alternativa International e depois, na era da promotora Leilane Barros durante os anos de 1997 a 2002, antes do evento ir para Santa Catarina. Pelo que saiu de notícias, Xandi estaria inclinado a convidar o atual campeão mundial Pro Jr Lucas Silveira, que é da Cidade Maravilhosa. Se for assim, fica mais latente a falta de bom senso dos cariocas, já que estariam sendo representados por Lucas, uma ótima escolha por sinal.

O atual campeão brasileiro, o baiano Bino Lopes, questiona a participação dele na triagem. Foto: Abrasp

O atual campeão brasileiro, o baiano Bino Lopes, questiona a participação dele na triagem. Foto: Abrasp

Pois bem, o presidente da Federação, Abilio Fernandes, pressionado pelos surfistas filiados que não queriam perder sua vaga, resolveu ser democrático e deixou a cargo deles a decisão de quem seria o dono do convite. Numa escolha digna do Congresso Nacional, fez-se uma lista, incluindo aí o nome de Bino Lopes, o atual campeão do país e mais 15 atletas, escolhidos pelo ranking carioca de 2013 (??????), melhores colocados fluminenses no Circuito Brasileiro de 2015 e Lucas Chianga e Jerônimo Vargas por suas posições no WQS 2015 (Lucas o 221º e Vargas o 262º) além de um indicado da ASBT (Associacão de Surf da Barra da Tijuca) e outro pela ASAG (Associacão de Surfistas e Amigos de Grumari). Ora, mais corporativismo que isso no nosso esporte, realmente nunca tinha visto.

Sou obrigado a concordar que Abílio teve bom senso em passar a bola para os verdadeiros donos das entidades. É uma pena que eles não consigam entender o quanto é importante seguir uma boa tradição, homenageando o campeão nacional, não interessando de que Estado ele seja, afinal este evento é internacional. Os surfistas cariocas deveriam estar se preocupando em ter um Circuito Estadual Profissional de verdade, cobrando seus dirigentes por uma melhor ação em seus cargos. Quem sabe assim, eles tivessem chances maiores de trazer o caneco da Abrasp para o Estado do Rio e de quebra o direito de disputar este evento tão importante.

O campeão mundial Pro Jr, Lucas Silveira, será um dos convidados do evento. Foto: WSL

O campeão mundial Pro Jr, Lucas Silveira, será um dos convidados do evento. Foto: WSL

É claro que os surfistas daqui têm o direito de escolher seu representante, mas usar como argumento que toda a verba de surf do Município vai para este campeonato me soa como papo de quem não está a fim de realmente tocar o dedo na ferida, que é o completo descaso em relação ao surf carioca. Talvez, a desorganização e pouco comprometimento sejam as causas. O Estado ou Município não tem a menor obrigação de custear etapa do Circuito Mundial ou Estadual. A realidade é que as entidades esportivas ficaram viciadas em se sustentarem com ajuda política e esqueceram de como se faz para correr atrás de patrocínios no setor privado. É difícil, sim, mas não impossível.

Tenho certeza de que vão ter mais vagas em jogo, porque sempre falta gente na etapa daqui. Isso é notório. Creio que a triagem acabará premiando ao menos mais um surfista. E torço para que Bino consiga uma destas vagas. Nestes tempos de Governo e oposição “comprando” votos para conseguirem seus objetivos, o surf do Rio dá um mau exemplo. O pessoal podia passar por cima de ego, dinheiro e continuar prestigiando uma situação idealizada lá pelos anos 80, quando Roberto Perdigão, Arnaldo Spyer, Flávio Boabaid e outros grandes nomes responsáveis pelo Brasil entrar de vez no mundo do surf, fizeram com que o Hang Loose Pro Contest se tranformasse de semente em uma linda árvore, que deu como frutos Gabriel Medina e Adriano de Souza, nossos campeões mundiais.

Só que ficam duas perguntas: Como convidar o campeão carioca se não tem um Circuito no Estado há dois anos? Porque Xandi Fontes não pega a outra vaga da qual tem direito e convida Bino Lopes para ser wildcard?

Por mim, os convidados seriam Lucas e Bino! Sem mais nem menos!

Sim, cavalo paraguaio

Matt Wilkinson venceu as duas primeiras etapas do Tour, feito que poucos surfistas tiveram o êxito e a sorte de conseguir. Lidera o WSL com uma folga e tanto, é verdade! Quebrou a bolsa de apostas de praticamente o planeta do surf todo (nem seu técnico Glenn Hall apostou nele, rs)! Mas daí a achar que será campeão do mundo já é outra história. Diz meu amigo e shaper Cláudio Valle que ninguém tem bola de cristal, mas não me permito achar que um cara mediano como “Wilkso” seja o virtual dono do caneco desta temporada.

Pra início de conversa, não foi nem de perto o melhor surfista em Snappers e Bell’s. Passou as baterias surfando o de sempre, encaixando alguns adversários mais fracos e contando ainda com alguns empurrões do destino como a contusão de Filipe Toledo na Gold Coast e a prancha partida de Mick Fanning, que parecia imbatível em Bell’s, no Round 5. Muitos falam em performances incríveis de Stu Kennedy e Jordy Smith na primeira e segunda etapas respectivamente mas tanto Toledo quanto Fanning, eram pra mim os bicho papões e com pedigree de campeões. Ambos seriam rivais bem mais complicados do que foram Kolohe Andino e Jordy nas finais. Ou seja, imprevistos (ou sorte) fazem parte do jogo.

matt wilkinsom snapper

Não acredito que Matt vá repetir o feito de Curren e Slater vencendo as três primeiras etapas do Tour. Margaret River é uma onda pesada, tubular e mais a feição para caras como JJF, Parko e Kelly. Com as opções de The Box e North Point, duas direitas quadradas, acho bem complicado qualquer goofy vencer este evento, ganho apenas por Occy e Tom Carroll, os dois backsides mais potentes da história do surf mundial.

Como Wilko não tem um histórico muito bom em ondas como Fiji, Teahupoo e Pipeline, diria que apenas J-Bay seria um pico onde ele poderia tornar a vencer. De qualquer forma, duas vitórias, algumas semifinais e um tanto de quartas podem lhe dar a consistência necessária para levar o caneco, assim como Adriano de Souza o fez em 2015. Ainda tem que contar com os tropeços dos reais favoritos como Medina, Toledo, Florence e Parkinson, que ao meu ver, são caras que certamente vão fazer finais neste ano.

Creio que será mais uma temporada equilibrada, onde a decisão deve acontecer no Hawaii, na última etapa. A favor de Matt, a comprovada capacidade de seu coach Glenn Hall, um surfista mediano, mas muito inteligente, que está sabendo conduzir seu pupilo a um nível de concentração elogiável, visto que o aussie soube exatamente o que fazer para virar baterias ou manter-se na frente usando com destreza a prioridade, o que poucos Top sabem fazer. A sorte acompanha quem trabalha e a dupla Wilkinson/Hall é quem mais está suando nestes 30 dias iniciais de Circuito.

Como penso que o talento, na maioria das vezes, supera o esforço, continuo apostando minhas fichas numa vitória de um cara menos surpreendente. Não fosse a contusão de Filipinho, o tirando de duas etapas, diria que o garoto era a bola da vez. Não fosse a falta de sintonia de Medina com seu equipamento na perna australiana, apostaria cegamente nele. Não fosse a idiotice de Florence de perder duas bateria ganhas nos minutos finais para Stuart Kennedy (na Gold Coast) e Caio Ibelli (em Bell’s), onde tinha a prioridade e a perdeu bobamente, cravaria seu nome no topo. Como o “se” não é o “foi”, Matt Wilksinson lidera a WSL com 100% de aproveitamento, numa mistura de aplicação, competência e porque não dizer, acaso. Cabem aos bambambãs mostrar serviço e fazer virar realidade o favoritismo. Enquanto isso, o” espantalho aussie” saboreia a camisa amarela, que tem muito mais cara de preta e branca listrada. Se ele será o cavalo que desponta na frente mas sucumbe no final, só o tempo dirá. Mas minha aposta é que este cavalo tá mais pra paraguaio do que para um puro sangue inglês.

Wilko teve estrela na escolha de onda em bells. Foto: WSL

Wilko teve estrela na escolha de onda em bells. Foto: WSL