Carta ao Conselho da ABRASP

 

Depois de 10 anos cuidando da parte executiva da ABRASP, tive o prazer de ser convidado para trabalhar em três etapas do Super Surf 2015 fazendo parte da equipe de transmissão da web. Para quem dedicou parte da vida ao esporte, foi uma grande satisfação fazer parte do recomeço de algo tão significativo para o surf profissional brasileiro. O Super Surf, como falei em outro texto, tem uma importância enorme para o nosso esporte. Fiz um texto elogiando a volta do circuito, pedindo vida longa a sua existência.

Porém, agora faço outro texto pedindo a análise pelo Conselho da ABRASP de algumas questões que observei e que, na minha opinião, acho que precisam ser reavaliadas. Meu intuito não é criticar, mas sugerir algo que seja positivo.

Não sou o dono da verdade e é claro que muitos vão divergir do que estou escrevendo. Mas a divergência de pensamentos sempre é válida para se evoluir. Começo pela quantidade de baterias para serem feitas em cinco dias de competição. Oitenta e três baterias me parece algo totalmente fora da realidade para um tempo tão curto. Se tiver dois dias off, por falta de onda, ou algum imprevisto, a vaca começa a ir pra o brejo. Muitos vão dizer para abrir mais um dia, mas isso não é tão simples, pois o dinheiro normalmente é contado para se fazer cada etapa. Sempre foi assim. Acho uma temeridade fazer essa quantidade de baterias com, normalmente, um swell de três dias por semana que entra em nossas praias.

Das quatro praias escolhidas, apenas Ubatuba tem uma constância de ondas que tranquiliza a parte técnica do evento. Em Maresias, se a ondulação estiver vindo de leste, esquece. Saquarema tem seus dias de vento sudoeste forte quase impraticáveis. Joaquina é bem constante, mas o vento sul também estraga a ondulação. Quem conhece bem a praia de Florianópolis sabe que quando o sul entra pode ficar até três dias.

Ondas pequenas foram a tônica da etapa de Maresias . Foto : Smorigo

Ondas pequenas foram a tônica da etapa de Maresias . Foto : Smorigo

Graças aos deuses do esporte, neste ano não deu nada errado, mas em Maresias alguns atletas tiveram que tirar leite de pedra em dois dias quase flats. Com um menor número de baterias a possibilidade de os atletas surfarem em ondas melhores é muito maior. O cronograma não fica tão apertado e a competição pode fluir sem muitos estresses. Além disso, os juízes, por mais que tentem, não conseguem manter o mesmo grau de concentração com 10 horas trabalhadas. Acho uma temeridade para o espetáculo continuarem com essa maratona de baterias. Outra coisa que observei foi a pontuação dos estaduais em relação ao Super Surf. Neste primeiro ano de volta do circuito é compreensível que tenham dado mais pontos para os eventos de maior importância, mas colocar 6.000 pontos em um evento que dá 60 mil de premiação e 1.000 pontos em um estadual que dá 30 mil de premiação é desproporcional. O maior exemplo disso foi em Ubatuba. Na mesma praia, com os mesmos atletas, o Hizunome Bettero ganhou o paulista e levou 1.000 pontos. Um atleta do Super Surf, que entrou na quarta fase, e que não passou nenhuma bateria, fez mais que o dobro de pontos que o vencedor do paulista. Se isto não é um absurdo, me expliquem, por favor. Falando em quarta fase, que foi a escolha do formato do Super Surf 2015. Entendo que o circuito tentou acolher todos os atletas, mas o formato para 144 atletas seria bem melhor que o formato para 160, adotado neste ano. Seria melhor, principalmente, pela quantidade de amadores que participaram de cada etapa. Se fossem 144 atletas, poderia ter sido escolhido o formato do QS, com dois rounds para definir 48 atletas, seguindo o processo de eliminação. Seriam 11 baterias a menos, o que significa meio dia de evento. Além do mais, no formato atual, com três fases para chegar no round dos tops, mostra que eles são extremamente protegidos. Nenhum dos tops, que entraram em todas as etapas no quarto round, vai ficar de fora do circuito 2016, fechado para provavelmente 96 atletas. Mesmo perdendo em todas as etapas neste round.

Hizunome Bettero foi um dos destaques do Super Surf 2015. Foto: Smorigo

Hizunome Bettero foi um dos destaques do Super Surf 2015. Foto: Smorigo

 

Sinceramente, sou contra a qualquer tipo de formato protecionista. Acho que o CT nos mostra o melhor formato. Todos entram na mesma fase, com chances iguais no circuito, do começo ao fim. A renovação normalmente ocorre melhor dentro de formatos com mais igualdades de condições.

Depois de uma maratona de 332 baterias, Kristian Kymerson levou o caneco do circuito para o ES. Porém, o campeão brasileiro só vai sair depois da etapa de Torres, que será em dezembro. Muita gente acha que o capixaba é o campeão brasileiro, supondo que a última etapa do Super Surf definiria o campeão. A melhor forma de evitar essa confusão de rankings de 2015 seria terminar o circuito com a última etapa do Super Surf.

Sei que o Super Surf só fechou em maio e que tudo teve que ser ajustado para acomodar um circuito dentro de outro circuito, o que não é fácil. Conheço os trâmites da ABRASP e sei que a reunião de fim de ano define todas as regras do ano seguinte. Por isso, sugiro ao Conselho da entidade avaliar todos os problemas enfrentados em 2015 para que consigam evitar que isso ocorra novamente em 2016. Torço muito por isso.

2 Responses

  1. arnaldo campello spyer 29 de outubro de 2015 / 11:51

    Marcelo , esse é o nosso Brasil ! dominado por grupetos medíocres que legislam em interesse próprio .Uma pena esse nosso país ter tomado esse rumo…Quanto a ABRASP , a solução é criar uma nova Associação , Liga ou coisa que o valha …. Essa estrutura foi feita em outros tempos , numa outra realidade . Infelizmente bom senso é coisa rara por aqui .Cabide de Emprego = Abrasp hoje.

  2. tinoco 5 de novembro de 2015 / 22:13

    Análise perfeita com boas sugestões parabens

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