Cada um com seu limite

O primeiro dia do Billabong Pro Teahupoo, no Tahiti, com ondas de aproximadamente 12 pés, foi um verdadeiro espetáculo para os telespectadores que assistiram pela internet. Contudo, passou a sensação que muitos atletas não se sentiram a vontade naquelas condições.  Os críticos das redes sociais não deixaram passar e já começaram a cornetar alguns surfistas.  Que eles estão amarelando, tirando o bico, pegando as menores, surfando no rabo, e por aí vai. Sinceramente, acho que muitos esquecem que Teahupoo é extremamente perigoso e as possibilidades de uma contusão séria, ou até algo pior, pode ocorrer. No evento deste ano, dois locais do pico já foram parar no hospital. O irmão de Michel Bourez, Kevin, e o vencedor da triagem Tuamata Puhetini. Fora Jordy Smith, que afirmou em entrevista, após sua vitória no Round 2, ter passado o maior sufoco da vida na primeira fase da competição. Penso que se ocorrer o pior, as críticas passarão para o lado da ASP já que os críticos vivem a procura de vilões.

Pensando de forma racional, quem está no Circuito tem que estar preparado para esse nível de perigo. Os riscos são enormes mas fazem parte da profissão. Mas não é o que acontece. A verdade é que no máximo uns dez surfistas dominam estas condicões extremas enquanto o resto faz número. Se o limite de alguns atletas está abaixo de Teahupoo, Cloud Break e Pipeline em dias cabulosos, o melhor talvez seria seguirem para outro ramo. Por outro lado, os atletas tem que cobrar o máximo de segurança que a ASP possa dar. Direito e deveres para os ambos os lados.

John John Florence está preparado para surfar as ondas cabulosas do tour. Foto: Tim McKenna

John John Florence está preparado para surfar as ondas cabulosas do tour. Foto: Tim McKenna

Mas meu intuito neste texto é lembrar que cada um tem seu próprio limite. Lógico que o pensamento de muitos é superá-lo. Porém a evolução e a superação exigem uma preparação física e mental intensa e mesmo assim podem trazer consequências desastrosas. A big rider Maya Gabeira treina muito e se dedica intensamente. Sua profissão é essa, desafiar ondas gigantes. Só que quase perdeu a vida recentemente num dia monstruoso na praia de Nazaré, em Portugal. As cenas do resgate foram impressionantes. Compreendo até certo ponto seus desafios, mas será que vale a pena morrer para provar algo?

Olhando pela ótica do surf amador, ontem estava olhando o facebook e li a notícia sobre a morte de um surfista português em Sumbawa. Rui Cesar tinha 45 anos e era professor de judô. Tinha certa experiência do pico, pois frequentava a Indonésia de 2 a 3 vezes por ano. Bem, ele foi pego de surpresa num mar que estava 2 metros, com séries maiores, batendo forte em cima da bancada. Depois de tomar uma série na cabeça, ficou desacordado e se afogou. Alguns brasileiros tentaram socorrê-lo, mas 72 horas depois ele não resistiu e faleceu no hospital. Pelo perfil dele, acredito que estava preparado para encarar essas condições, mas muitos não estão, abusando da sorte por pressão dos amigos ou por simples egotrip. Pela idade dele, deveria ser um surfista experiente e maduro, sem muitas afobações. Uma semana antes, também em Sumbawa, um jovem australiano, Peter Luke, de 27 anos,  morreu ao ser “esmagado” por uma onda gigante na praia de Jelenga. Segundo os relatos, o mar estava perto dos 15 pés.  Foi o maior swell do ano nesta região. Será que ele estava preparado para tais condições ? Ele não poderia ter evitado essa fatalidade?

Amador ou profissional, os surfistas tem que ter a consciência dos seus limites. Falo isso porque pois as fatalidades podem se tornar uma tendência se não houver um pouco de prudência. Quantos despreparados surfam em Pipeline ou outros picos cavernosos e saem ilesos por pura sorte? Mas até quando isso vai durar ? Não consigo crucificar alguém que puxa o bico numa craca. Seja ele surfista de fim de semana ou Top do WCT. Como diz meu amigo Minduim, ninguém é super homem.

Maya Gabeira dropando uma onda montruosa em Nazaré. Foto : Arquivo Instagram.

Maya Gabeira dropando uma onda montruosa em Nazaré. Foto : Arquivo Instagram.

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