Educação e Respeito

Por Bruno Marinho.

 

Hoje fui surfar sozinho, o que tem sido frequente pois minha fissura ultimamente está superando a de meus amigos mais próximos. Sábado, Rio de janeiro, resquícios de uma ondulação de leste. Condições bem fracas na maioria das praias, mas na Joatinga, embora pequenas, ondas com excelente formação.

Melhor pedida para o dia, já que a baixíssima temperatura da água espantava o crowd, normalmente comum na pequena faixa de areia da famosa praia carioca. Entrei na água e achei bem confortável, pois nem era tão cedo, as ondas estavam constantes e apenas umas 5 cabeças no pico. Dois amigos, uma menina, que aparentava ter uns 12 anos, e mais 2 outros surfistas. Passaram-se uns 20 minutos e assisti uma situação que me motivou a me aventurar com as palavras – o que domino muito pouco, e escrever este texto.

Um dos amigos que conversavam em voz alta no pico começou a falar sobre imóveis, e reclamou do país: “Este país é uma merda! ” – Reclamação usual que temos escutado muito ultimamente por aí.

Em seguida veio uma série e outro surfista que esperava sua vez, na preferência, remou e foi rabeado por aquele insatisfeito com o país. Quando ele voltou para o pico, deu um esporro no surfista que tinha a preferência da onda, alegando que era local do pico. Gritando, “Eu sou local, moro aqui na frente. A primeira onda é sempre do local e você tem que esperar. Eu sou local”.

Localismo em Teahupoo

Localismo: tema sempre polêmico

Sobre localismo, nunca fui a favor, nem radicalmente contra, mas temos que analisar caso a caso. Desconsiderando o localismo no Quebra mar, que nem vale a pena incluir na análise, vamos ao caso das ilhas Havaianas, por exemplo, que se trata de uma questão colonial, onde os nativos tinham uma relação praticamente indígena, com suas terras e suas ondas, e viram uma invasão de fora. Sentindo uma grande ameaça as suas pacatas ilhas, preocupação que se estendeu por gerações, o localismo atual, até certo ponto, possui um propósito. Até certo ponto, discutível ou aceitável.

Outro caso é do Arpoador, onde vemos hoje o que eu considero a forma mais elegante e educada de localismo. Quando tá clássico, os locais surfam com mais 3 no pico e quem quiser surfar paga com a antecedência necessária e garante sua vaga. Quando tá clássico tem campeonato, e quando tem campeonato, tá clássico. Brilhante idéia para um pico que nem a noite você surfa sem crowd.

Mas aonde está minha maior motivação em escrever? Pelo fato de a menina surfista que aparentava seus poucos 12 anos ser filha do surfista, que implantava o localismo ultrapassado e incabível descrito, assistir toda a cena. É clichê, mas não podemos deixar de ressaltar que para termos um país melhor depende de cada um de nós. Estamos num país onde uma pessoa, sem nenhum respeito ao próximo, acha que pode se dar a um direito sobre outra, por qualquer conclusão própria. Ele acha que pelo simples fato de morar em frente, tem o direito de ser, ou se achar, dono de uma praia, desrespeitando o outro que também desfruta daquele espaço público com educação. Aliás, era onde eu queria chegar: EDUCAÇÃO. Que educação uma jovem com 12 anos vai obter, assistindo este exemplo de moral e cidadania de seu próprio pai. E ele reclamando do país… talvez se ele não tivesse reclamado do país minutos antes, eu não estaria escrevendo.

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Ensinamento com mais de 2000 anos do filósofo Confúcio: “Não faça aos outros o que você não quer que seja feito a você.”

Não adianta botar toda a culpa na Dilma, no Lula, no PT se continuarmos com atitudes como esta por aí. Agindo desta forma e com essa mentalidade, podemos ter o governo da Finlândia na direção do nosso país, que vai continuar dando errado.

Respeito não se impõe, se conquista. Se você é local de alguma praia, conquiste seu respeito com educação, simpatia e gentileza. No surf, no trânsito, na vida, reclame menos e ajude a mudar o país com pequenas atitudes ou pequenas mudanças de atitude.

O ídolo Dadá Figueiredo

Era mais ou menos 16:30 h de um dia da semana, em meados de setembro de 1986. Minutos após a entrega da premiação do campeonato de surf do colégio São Vicente de Paulo, alguém grita, na areia do meio da Barra: “olha o Dadá na vala ali do lado…” Surfava há menos de um ano e não conhecia quase nenhum dos principais surfistas da época. Mas para não passar por um completo iniciante, apenas perguntei “Cadê?”.

“Ali na direita…. O estilo dele é irado…. Ele surfa com os antebraços arqueados em cima da prancha…” Identifiquei na hora. A onda que ele surfava tinha 1,5 mt e a figura dele composta em cima da prancha, bem como a leveza com que ele trocava de borda de backside, harmonizava com a perfeição da onda. Um belo por do sol emoldurava o momento.

Passado pouco mais de três anos, em algum dia de fevereiro de 1990, marco com o meu camarada de surf, Cristiano, de irmos surfar no meio da Barra, na altura do 3100. Sabíamos que o fundo estava excelente por lá. No auge dos meus 15 anos, surf é o único esporte que me interessa. E nessa mesma época Dadá é “o” surfista do RJ e certamente o surfista brasileiro mais talentoso.

Após a nossa terceira caída, eis que aparece do nosso lado a figura do cabeludo Dadá. Naquele momento, só havia 3 pessoas no line up: eu, meu amigo Cristiano e o Dadá. Lembro que o Dadá havia acabado de sagrar-se campeão carioca (antiga OSP), um ano antes, em 1989, com performances memoráveis. E, subitamente, surge uma onda excelente para a esquerda, com cerca de um metro.

No temor de não fazer feio perto do ídolo, nem percebo que a onda é para o lado em que ele está posicionado: faço a boia no mito e me posiciono mais a esquerda para dropá-la. Dadá rema para onda e toda aquela fama de ‘bad boy’ desaparece: sem reclamar que eu fiz a boia, nem simplesmente rabear, Dadá dropa e faz um movimento com a prancha, pisando forte na rabeta, como quem fosse entubar, para frear a sua prancha e permitir que eu passasse por ele.

Dadá fazia manobras inovadoras nos anos 80.

Dadá fazia manobras inovadoras nos anos 80.

Percebendo a atitude do mestre, bem como a minha indelicadeza em fazer a boia, o ultrapasso por baixo da onda, com todo o cuidado para não chocar as pranchas, e saio imediatamente da onda permitindo que ele a surfasse até areia.

Há três dias atrás, vi um post no Facebook homenageando os 50 anos do Dadá. Pensei, imediatamente, em quantas vezes fui surfar arqueando os antebraços, tentando rodar a rabeta na junção, ou tentando conectar as ondas do outside para o inside, com a mesma fluidez com que ele fazia. Em outras palavras, o quanto Dadá me inspirou durante esses 30 anos que eu pratico o esporte.

E, aproveitando a vitória do Filipinho Toledo em Snapper Rocks, penso o quanto importante foram as performances do Dadá ao longo de sua carreira, para ajudar a formatar essa geração Brazilian Storm, mesmo que indiretamente.

Pois bem, há 25 anos atrás, Dadá “plantou a semente” do Brazilian Storm com performances jamais vistas no Brasil ou mesmo no mundo. Destaco aquela batida na junção/layback, na final da etapa da OSP no Arpoador em 88; ou a memorável bateria em que ele perdeu para o sempre inspirado Ricardo Toledo no OP Pro de 88, no Quebra Mar; ou a velocidade que ele imprimiu durante o Tribuna Niasi, também em 88, no Canto do Maluf; ou a devastadora atuação durante o TDK Gotcha Pro, na praia de Sandy Beach, em 89. E muito mais…

A verdade é que o Dadá talvez nunca tenha sido um atleta profissional, obcecado por resultados. Acredito que ele foi um artista do esporte. Com toda a genialidade, peculiaridade e excentricialidade que qualquer grande artista possui.

Minha sincera homenagem. Parabéns e vida longa.

Com certeza um dos maiores ídolos do surf brasileiro de todos os tempos.

Com certeza um dos maiores ídolos do surf brasileiro de todos os tempos.

Intolerância

É dificil escrever com um sentimento de revolta e ao mesmo tempo de medo. Pois essa conta tá chegando próxima de nós.
O surf nunca esteve tanto em evidência como agora. Infelizmente, de forma trágica, o Jornal Nacional acaba de anunciar que o surfista Ricardo dos Santos, ou simplesmente Ricardinho, não resistiu aos tiros de que foi alvo. Faleceu na tarde de hoje. Um jovem cheio de futuro, que já havia feito história como um dos maiores big barrel rider – não sei nem se há essa classificação – do Brasil, mundo afora.

Escrevo não pela qualidade do surf do Ricardinho, que é inquestionável. Escrevo por ainda estar estarrecido com mais um fato inaceitável de nosso cotidiano.

Três coisas me chamam atenção nesse caso:

  1. Ocorreu na Guarda do Embaú, um local famoso por ser um destino de férias;
  2. Foi cometido por um Policial Militar de Joinville;
  3. Com três tiros a queima roupa, dois na barriga e um no peito, Ricardinho foi alvejado, ao que parece, com intenções claras de execução.

Qual o tamanho da raiva descabida que esse profissional armado carregava em um local que teoricamente é um destino clássico para descansar, relaxar? Um profissional legalmente armado para servir os seus cidadãos, não teria capacidade de argumentar de forma civilizada com o seu semelhante? Alguém na Polícia Militar avaliou este profissional antes que ele ingressasse na PM de Joinville? Após entrar na Polícia Militar, houve algum tipo de estágio probatório e avaliação para que esse profissional da PM permanecesse empregado e armado?

A comunidade do surf está de luto. Foto: Diario Catarinense

A comunidade do surf está de luto. Foto: Diario Catarinense

Enfim, são diversas perguntas que agora não vão trazer de volta Ricardinho, que lutou bravamente em mais de 7 horas em cima de uma mesa cirúrgica.

Agora, gostaria de escrever que a “presidenta” Dilma, com todas as suas atribuições, ao invés de pedir clemência por um traficante brasileiro condenado à morte na Indonésia, deveria sim liderar uma mudança ampla e profunda na sociedade brasileira. Uma mudança no pensamento de que tudo pode, de que há impunidade, de que o crime compensa.

Infelizmente, penso de modo romântico, pois os nossos governos (federal, estadual) mal conseguem planejar e gerir a oferta energética necessária para atender à demanda no verão; mal conseguem planejar e orientar a população quanto ao consumo e gestão adequada do abastecimento de água potável; mal conseguem controlar a inflação que eles mesmos fixam como meta.

A morte do Ricardinho é 100% culpa do governo federal e 100% culpa do governo de Santa Catarina. Mas também é 100% de todos nós que assistimos pacificamente à morte diária de milhares de inocentes em nossos telejornais, em uma frequência cada vez maior e com requintes de crueldade cada vez mais intensos.

Temos que berrar, chiar e manifestar sim. Hoje temos diversos canais para fazer barulho, mostrar a nossa insatisfação. Basta de morte de inocentes na Guarda, em Nova Iguaçu, de balas perdidas matando crianças. Se nós não temos respeito pelo próximo como é que podemos exigir que o governo, eleito por nós, tenha e imponha mudanças. Cabe a nós mesmos mudar, falar nos condomínios, nas comunidades, nas associações de bairro sobre cidadania, respeito ao próximo. Falar das leis que regem a sociedade. Avaliar se o nosso bom senso é só nosso ou é em prol da coletividade.

Vi um post no twitter de um amigo com o seguinte hashtag #Jesuisricardinho. Eu não quero ser Ricardinho, e nem quero que minha esposa e meu filho que vai nascer sejam. Aliás, ninguém mais precisa ser ele para que comecemos a mudar. As leis existem para ser cumpridas. Sem jeitinho, sem malandragem.

Toda vez que eu vejo um cara no acostamento ultrapassando os carros presos no trânsito, eu penso que a falta de respeito que esse motorista tem com o próximo é relativamente equivalente à falta de respeito demonstrada pelo PM assassino do Ricardinho. Imagino como o mundo ficará caso entremos num ciclo sem água no Rio/SP. Sem gasolina, temos o Mad Max. Agora, e sem água, que é um bem essencial e que não dá para não ter? Que sociedade será essa que construiremos sem começarmos uma mudança já?

Basta!

Que fique eternizada a imagem do Ricardinho dentro daqueles imensos salões em que ele surfava com uma grande maestria.

Ricardinho aonde se sentia mais a vontade. Foto: Surfer Mag

Ricardinho aonde se sentia mais a vontade. Foto: Surfer Mag