Aula de tubo

Quem teve o privilégio de assistir a 5a bateria do Round 3 do Billabong Pro Teahupoo ontem, 17/08, teve uma aula grátis de como se deve entubar, tanto de front quanto de backside. Gabriel Medina e John John Florence estão entre os melhores tube riders do mundo e a performance da dupla simplesmente beirou a perfeição, com ambos marcando 37,84 em 40 pontos possíveis. Um duelo de titãs!

Para mim, que sou um amante do bom surf, pouco importava quem venceria. Já passei daquela fase ufanista, onde torcer para que um brasileiro vencesse a qualquer custo ditava minha vida. Prefiro que ganhe o melhor. Se ele for um conhecido ou alguém que simpatizo, ótimo! E deu Medina, que na minha opinião quase foi prejudicado pelos juízes. Tudo bem que JJF estava de backside e as ondas eram visivelmente mais fáceis para os goofies, mas realmente o havaiano teve todas suas notas altas um pouco overscore, o que obrigou o brasileiro a fazer mágica no finalzinho da bateria com um 9,73 muito bem surfado.

Medina surfou a sua melhor bateria do ano, até o momento,   contra JJF. Foto : WSL / Stephen Robertson

Medina surfou a sua melhor bateria do ano, até o momento, contra JJF. Foto : WSL / Stephen Robertson

Mas voltando a aula, como é bom ver dois talentos tão jovens ditando as regras num circo onde os melhores tuberiders passam dos 30 anos, Kelly então passa dos 40. Isso prova que os home breaks de ambos, sem comparar Pipe com Maresias, foram fundamentais na base sólida que Gabriel e John John possuem na arte de se entocar. O fato de Medina não ter tanta experiência em cracas quanto Florence não transparece tanto quando as condições estão perfeitas, ainda mais pra esquerda. O brazuca compensa com muita intuição, inteligência e sensibilidade para saber onde as ondas estão quebrando para proporcionar tubos mais longos. JJF está num nível acima de Medina, até porque realmente ele faz coisas dentro dos tubos que só vi Slater fazer. Só que a diferença entre eles, ao menos em Teahupoo 6 a 8 pés, é mínima e uma onda um pouco melhor poderia fazer a diferença para qualquer um dos lados. Na real, as 3 melhores ondas de Gabriel foram melhores que as 3 melhores ondas de Florence. E isso foi o que definiu a bateria.

Devemos ter uma parada no evento com o recomeço lá pelo dia 23 ou 24. A previsão é de ondas maiores. Mesmo assim, Gabriel é um dos grandes favoritos ao título da etapa. Seus maiores concorrentes na sua chave até a final são Owen Wright, que inclusive já fez final ali em ondas enormes, e Bruno Santos, vencedor em 2008. Do outro lado, C.J. Hobgood, que enfrenta Julian Wilson, Jeremy Flores, que encara Joel Parkinson e Kelly Slater, que pega Sebastian Zietz, são os favoritos, mas todos tem baterias duríssimas pela frente. Como Medina já derrubou seu gigante (talvez o maior deles), a pressão está principalmente em Slater, que não engoliu a derrota para Gabriel ano passado e deve estar querendo uma revanche.

A vitória sobre JJF foi tão emblemática, vide a comemoração efusiva com seu padrasto Charles no canal, que acredito até numa redenção já neste ano, ao menos para uma posição mais honrosa no ranking, tipo Top 5. Após o Tahiti, temos Trestles, França e Portugal, todos lugares onde Medina tem potencial para excelentes colocações. Sei que para brigar pelo título está complicado, mas como os primeiros colocados estão marcando toca, não duvido nada que este seu sprint de final de temporada possa deixar ainda mais equilibrada a briga pelo caneco da WSL em 2015.

John John Florence voltou de contusão, mas surfou no melhor da sua forma. Foto: WSL / Stephen Robertson

John John Florence voltou de contusão, mas mostrou a facilidade que tem para entubar. Foto: WSL / Stephen Robertson

QUEIMANDO A LINGUA

Para finalizar, preciso fazer um mea culpa em relação ao potiguar Ítalo Ferreira. Não gosto muito do estilo do garoto, mas é inegável a vontade e determinação, além da enorme capacidade de evoluir, que ele vem demonstrando ao longo do ano. Não levava muita fé no menino, mas depois de sua atuação no último dia de Fiji e nas vitórias em Teahupoo no Round 1 e 3, sou obrigado a aceitar que o cabra é bom mesmo! E digo mais, parece ter uma inteligência tática acima da média entre seus pares. Uma bela surpresa! Pra quem como eu, que apostava no Roockie Of The Year para Wigolly Dantas, me parece que vai ser complicado tirar este prêmio lá do Rio Grande do Norte. E Medina que se cuide no Round 4, pois Ítalo não me parece se incomodar com status de campeão disso ou aquilo… Pra ele é todo mundo João!

O campeão brasileiro de 2014, Italo Ferreira, tem grandes chances de ser o melhor estreante do CT 2015. Foto: WSL / Stephen Robertson

O campeão brasileiro de 2014, Italo Ferreira, tem grandes chances de ser o melhor estreiante do CT 2015. Foto: WSL / Stephen Robertson

1 Response

  1. Ding Dong 18 de agosto de 2015 / 19:54

    Todo mundo Joao me lembrou Garincha, mas digo q falta uma visao apaixonada sem preconceito a escrever de surfe a exemplo do que escreveu Nelson e do que vez em quando escreve Xico Sá, onde queres Postinho sou Pontal, na zona sul carioca ou litoral sul potiguar.

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