A Sétima Arte do Surf

Lembro o tempo em que ver um filme de surf era algo mais inacessível. Você assistia a algumas sessões no hotel Nacional ou na casa de amigos abastados que tinham um vídeo cassete, aparelho eletrônico bem caro no final da década de 70 e no começo dos anos 80. Era algo raro, mas um sonho para nós, iniciantes no esporte. Muitas vezes me peguei imaginando como seria eu naquelas ondas longas e tubulares que nossos ídolos domavam com total maestria. Era como se eu pudesse me teletransportar para aqueles lugares paradisíacos que os filmes mostravam.

O primeiro filme a que assisti na televisão foi Endless Summer, de Bruce Brown, como título abrasileirado de Alegria de Verão. As ondas mostradasnão eram boas, mas o filme revelava o espírito aventureiro e nômade dos surfistas. Nessa época, era possível ver alguns filmes na sessão da tarde da Globo. Sua programação pós-almoço tambémexibiaMar Raivoso, em cujo elenco encontrávamos Greg Noll dropando as bombas de Waymea. Era um filme romântico com surf. Além desses, havia outros como Gidget e a turma da praia. Em minha opinião, era passatempo que mostrava o esporte em segundo plano. Com exceção de Endless Summer, o resto não me fascinava.

The Endless Summer é um marco na história dos filmes de surf

The Endless Summer é um marco na história dos filmes de surf

Morning of the Earth foi o primeiro clássico que me conquistou completamente. As ondas, a trilha sonora, as performances, tudo me impressionava muito. Michael Peterson foi meu primeiro grande herói. Sua linha de surf era agressiva. Ele acabaria influenciando muitos da geração seguinte (Geração Free Ride). Além de Peterson, Nat Young e Terry Fitzgerald arrebentavam de uma forma animal. Gostava mais de assistir aos australianos do que aos tão idolatrados havaianos. O filme era de 71, mas só pude vê-lo em 79 — a defasagem de tempo era grande, os filmes demoravam a ser lançados pelo mundo, bem diferentede como acontece hoje em dia.

Morning Of The Earth tem Michael Peterson, Nat Young e Terry Fitzgerlad como protagonistas.

Morning Of The Earth tem Michael Peterson, Nat Young e Terry Fitzgerlad como protagonistas.

Em 1983,na casa de um amigo, assisti ao filme que mais gostei até hoje: FreeRide. Além de o filme contar com o trio ShaunTomson, Mark Richards e Rabbit Bartholomew, que chegou para revolucionar o surf competitivo, havia uma trilha sonora que era foda. Quem viu Bustin Down the Door, que conta como essa geração invadiu o Havaí e derrubou a porta, pode ver um pouco das imagens desse outro clássico (Free Ride) que marcou uma época.

Free Ride é um clássico dos filmes de surf.

Free Ride é um clássico dos filmes de surf.

O desenvolvimento da tecnologia trouxe o vídeo para dentro de todos os lares, e os filmes feitos em 35 e 16 mm foram substituídos pelas produções mais baratas, que não se importavam tanto com a qualidade da imagem (porque só queriam mostrar as performances dos surfistas profissionais). Assim, o romantismo e a qualidade das produções deram lugar à divulgação dos atletas e das marcas. Foram lançados vários vídeos de qualidade duvidosa, com fotografias e trilhas sonoras fracas. O filme que marcou essa fase foi Blazing Boards, de Chris Bystrom. Cheguei a apreciar bastante três filmes do gênero: Amazing Surf Stories, The Searche e Surfer’s, themovie. Além de apresentarem imagens de melhor qualidade, eles conseguiam aliar as performances dos surfistas a um bom produto. Curren, Archy e Potter mostravam um jeito novo de surfar, com muita categoria e energia. Occy também começava a ser estrela dos filmes.

A Billabong resolveu contratar o realizador de Storm Rider, Jack Maccoy, para fazer os filmes da sua poderosa equipe. Bunnyap Dreamin, Green Iguana, Sons of Fun, Sik Joy e Occymentary foram grandes filmes da marca Billabong realizados por um dos melhores diretores de filme de surf da história. Em minha opinião,Green Iguana e Occymentary, com Mark Ochilupo como protagonista, foram os dois melhores da série.

Green Iguana é um dos melhores trabalhos de Jack Maccoy.

Green Iguana é um dos melhores trabalhos de Jack Maccoy.

No começo dos anos 90 um grupo de amigos e surfistas profissionais americanos resolveu criar o seu próprio jeito de fazer vídeos de surf. Taylor Steele resolveu juntar-se ao colega Rob Machado e seus parceiros de circuito mundial para filmá-los no free surf. Dessa brincadeira ele lançou Momentum, um filme meio tosco, que impressionava pelas performances dos atletas e pela trilha sonora — manobras explosivas de uma nova geração e muito punk rock. Slater, Dorian, Rob, Williams e Knox, entre outros, vinham com tudo.Vários filmes seguiram a mesma fórmula: Focus,Good Times, The Show, Hit andRun etc. Na busca por um público mais maduro, Taylor Steele abandonou a fórmula antiga e refinou seu estilo para fazer Sipping Jetstreame ,Shelter e Castles in the Sky.

Os vídeos mudaram seus formatos depois de Momentum.

Os vídeos mudaram seus formatos depois de Momentum.

No Brasil surgiram alguns discípulos de Taylor Steele. Considero os filmes Lombro 1, 2 e 3, de Rafael Melin, a versão tupiniquim da geração Momentum. Leo Neves, Marcelo Trekinho, Raoni Monteiro, Pedro Henrique, entre outros, seriam os nomes da nossa nova escola brasileira. Rafael foi influenciado por Taylor, mas também se inspirou nos trabalhos de Pepê Cesar: seus Cambitos 1, 2 e 3, 002 Surfe e Trocando as Bordas. Pepê tem alma de artista, além de ter sido um dos primeiros a disputar o circuito mundial da ASP. A mania de filmar tudo o transformou em um dos melhores diretores e roteiristas de filme de surf. Fábio Fabuloso, documentário sobre a trajetória de Fábio Gouveia, feito em parceria com Ricardo Bocão e Antônio Ricardo, foi o seu melhor trabalho. Melin se tornou dono de produtora e fez trabalhos de alto nível como o filme Quintal de Casa. Seu documentário 70 e Tal, do canal Off, realizado com o pessoal do Grupo Sal, foi um marco na história do surf nacional. Outros trabalhos de valor foram feitos por vários videomakers brasileiros. Gosto muito dos filmes feitos pela galera da Q Lifestyle. Mental Session, de Paulo de Tracco, também me agrada bastante. Não dá para lembrar todos, mas a produção nacional manteve um padrão bem elevado. Surf Adventures, de Arthur Fontes, em parceria com Roberto Moura e o pessoal da Massangana, foi algo muito significativo para o surf nacional.

Fabio Fabuloso foi um dos melhores documentários feitos pela produção nacional

Fabio Fabuloso foi um dos melhores documentários feitos pela produção nacional

Com o desenvolvimento da internet, os vídeos de surf se banalizaram porque passaram a ser feitos em ritmo alucinante e a ser lançados gratuitamente. Poucos pensam em fazer um filme de surf com qualidade. Taylor Steele, Kai Neville (diretor de ModernCollective)e Jack Maccoy ainda mantêm um padrão de qualidade que se destaca. Sinceramente, sinto falta de época de Free Ride.

2 Responses

  1. Junior Pedroso 26 de maio de 2016 / 15:47

    Parabéns pelo artigo, muito bom mesmo.

    Seu blog em geral está muito bacana, qual o nome desse tema?

    • Marcelo Andrade 27 de maio de 2016 / 15:02

      Bom dia Junior,

      A sétima arte do surf.

      Fico feliz que tenha gostado.

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