Vamos ter paciência

Não vi muita coisa do Vans US Open, realizado no “Postinho” dos californianos, Huntington Beach (brincadeira, o Postinho é muitooooo melhor). Mas o que vi me deixou sem o menor arrependimento de não ter visto. Ondas horrorosas, centenas de quicadas e quase sempre as mesmas manobras. Analisando algumas ondas do Filipe Toledo, achei que apenas uma virose, uma bala de canhão ou um shark atack poderia impedir o bi do menino no pico. Pois no domingo, depois de voltar da praia, fui dar uma checada no evento e peguei os últimos 15 minutos da semifinal entre ele e o havaiano Tanner Hendrickson. Ele estava ganhando mas o americano precisava de pouca nota e a tirou com uma ondinha onde fez duas manobras bem razoáveis. Vi depois que ele tinha um 7,17 e o Filipinho dois 6,17. No finalzinho, o brasileiro surfou uma marola com mais parede e executou três manobras pra frente, sem arriscar muito, e levou 6,90, insuficiente para virar o resultado.

Com o bico de sua prancha arrancado por socos depois de quebrá-lo na areia após uma finalização, o garoto já mostrava irritação, talvez por não concordar com o resultado ou até por perceber que estaria dando adeus a um evento que tinha tudo para ser novamente dele. Só que realmente o que me chamou a atenção foi quando ele chegou ao palanque correndo e passou batido pelo rival, que estava a espera do resultado com a mão estendida para um aperto, comum no esporte em geral. Confesso que fiquei meio chocado pela cena, pois o havaiano, com sua prancha branca, sem nenhum logo de patrocinador, estava no ápice de sua recente carreira e não precisava passar por uma situação daquela. Não demorou nem cinco minutos e Toledo, mais calmo, foi de encontro a Tanner dar um forte abraço no adversário, mostrando que fora apenas um momento de raiva, o que todos nós certamente já passamos. Isto é o que se espera de um grande campeão, saber vencer e perder.

Por isso, não concordo com as opiniões de que o garoto esteja marrento, achando que seja o melhor disso ou daquilo. Apenas teve um momento ruim, que logo foi resolvido com sua bela atitude, demonstrando espírito esportivo e educação. Quanto a ser prejudicado, acho que numa de suas ondas, quando acertou um bela manobra 360 de backside e tentou um aéreo reverse na beira, os juízes acabaram julgando a manobra incompleta, pois caso achassem o contrário, seria nota pra cima de 8,5, o que lhe daria a vitória. Só pode ser isso!

Fica impossível dizer, do Brasil de um monitor de computador, com uma pancada de cabeças na frente, se ele realmente completou o aéreo. Só quem estava ali na beira sabe o que aconteceu. Talvez por isso ele tenha ficado tão irritado. Bem, vida que segue. Outros eventos virão além de novas vitórias pois o seu nível, em condição como aquela por exemplo, bem comum em eventos do WQS, está no mínimo 2 degraus acima de qualquer outro, e ponho os Top 32 nessa turma. Quanto ao críticos do jovem Toledo, vamos dar uma aliviada gente. O moleque nem fez 20 anos ainda. Tem muita coisa pra aprender. Já vive uma série de situações completamente distintas para 99% dos caras de sua idade. Até concordo que seu pai, o fera e bicampeão brasileiro profissional Ricardo Toledo, as vezes exagera nas reclamações, mas qual pai não faria isso? É complicado separar emoção da razão quando envolve alguém tão querido. Tanto Medina quanto Filipe estão num processo de amadurecimento e chegará a hora em que eles terão que fazer suas escolhas sozinhos, tendo que encarar as nuances da vida como qualquer adulto faz. Cortar o cordão umbilical demora e acho muito válido que seus pais tentem estar juntos nesta fase onde os filhos estão mais suscetíveis as más companhias. Enquanto isso, os fãs dos surfistas brasileiros precisam ter mais paciência e entender que o mais importante no presente é reconhecer os erros e não repetí-los. É assim que moldamos o cárater.

Filipe Toledo estava um nível acima dos adversários  mas parou na semi final. Foto : WSL

Filipe Toledo estava um nível acima dos adversários mas parou na semi final. Foto : WSL