Vai ou não vai ?

Grande parte das pessoas que eu conheço tem ciência de que trabalhei com o surf. Por isso, quem não faz parte do meio, já há um tempinho, me faz a mesma pergunta: “O Medina vai ser campeão?” E muito deste interesse surgiu da exibição em massa na Rede Globo (site do Globo Esporte e programas do gênero) da real possibilidade de um título mundial ser conquistado por um brasileiro, no caso Gabriel, o primeiro na história.

Hoje, dia em que escrevo este texto, é sábado, 6 de dezembro e acabei de assistir a uma chamada sobre o Gabriel Medina para o Jornal Nacional, programa no horário nobre da TV aberta nacional. Para você ter noção do tamanho da audiência, seriam cerca de 16 milhões e trezentas mil pessoas (o JN tem em média 25 pontos no IBOPE – cada ponto corresponde a 217 mil aparelhos ligados X 3 pessoas) sendo informadas de que um brasileiro tem enormes chances de se tornar campeão mundial de surf, algo inatingível para nós até então.

Estes números, podem num primeiro momento, dar uma idéia de que o futuro do esporte passaria a ser mais promissor com um ídolo conhecido para a grande massa. Tenho escutado inclusive muita gente do meio falar que a conquista do paulista daria um gás no mercado de surfwear, tão combalido nos últimos anos. A Globo poderia dar mais apoio, eventos apareceriam e os atletas teriam novamente bons prêmios e patrocínios. Não sou tão otimista. Não acho que o provável fato de Gabriel Medina ser campeão mundial vá mudar tanto assim a situação econômica do surf brasileiro.

Para Gabriel, certamente será ótimo. Dono do maior salário já pago a um surfista no país, o garoto de quebra deve ganhar um belo bônus pelo título. Consolidará uma imagem de vencedor, que aliada a cara de bom moço lhe renderá mídia e mais apoio. Para a Rip Curl brasileira também será o tiro certeiro, já que apostou no menino desde cedo e quebrará a supremacia EUA/Hawaii/Austrália no esporte. E para o resto, não sei o que melhoraria. Vamos aos fatos.

A entidades do surf nunca estiveram tão deficientes. O unico evento realmente que faz barulho é a etapa do WCT, realizada no Rio por causa da Prefeitura, que coloca 4 milhões de reais viabilizando o projeto. Sem este recurso público, simplesmente seria dificílimo realizá-la no Brasil (com uma vitória de Gabriel acho que seria bem mais fácil). O Circuito Brasileiro Profissional não existe. As categorias amadoras estão a deriva, vivendo de campeonatos aqui ou ali, sem conseguir empolgar ninguém. A mídia especializada está respirando por aparelhos. As revistas, que ditaram a informação durante tantos anos, se tornaram simplórias, publicadas no vermelho. Os sites sofrem com a falta de pautas distintas, experiência e textos mais inteligentes. Não há originalidade. A informação tornou-se repetitiva. Ninguém critica, as pessoas tem medo de apontar os erros, tão importante para se melhorar. Nos restam os programas nas TVs a cabo, que focam muito mais o entretenimento. E os jovens surfistas, cada vez mais preocupados em seguir os passos de Medina e Cia, caem mais cedo na estrada do WQS, deixando um buraco no Brasil, já sem eventos e agora sem ídolos reais. Sim, porque a trupe brazuca no WCT não pode correr eventos sem a chancela da ASP. Ou seja, não podem competir no próprio país, a menos que em etapas do WQS ou WCT. Agora te pergunto, quem vai querer botar dinheiro numa competicão nacional se o maior ídolo não pode competir? Gostaria que a ASP respondesse.

Sempre amei o tênis. E passei muitas manhãs, perdendo boas ondas, assistindo na TV Bandeirantes as performances de Gustavo Kuerten. Depois de terminar o ano de 2000 como melhor tenista do planeta, imaginei que o tênis teria uma revolucão e outros Gugas surgiriam. Pois o que aconteceu foi exatamente o contrário. Mesmo com a Rede Globo (vide Sportv) tomando da Band as transmissões o esporte não vingou com gente de ponta. Surgiram novos praticantes, mas faltou a manutenção, a estrutura. Assim como o surf, o tênis também sofria com suas entidades. E o resultado disso é sofrer mais ainda com Thomas Bellucci nas quadras, o filho mais bem rankeado da geração Kuerten.

Vou torcer para Gabriel conquistar seu merecido caneco, pois de fato foi o melhor surfista da temporada. E vou torcer ainda mais para que sua trajetória ilumine as pessoas que hoje fazem parte do meio, para que consigam pavilhar uma estrada segura para o futuro, onde outros Medinas, Todelos e Pupos apareçam as pencas. Sempre frisei que preferia ter cinco surfistas entre os 10 do mundo a ter apenas o número um. Continuo com este pensamento. Mas se entre estes cinco, um estivesse no topo, aí sim seria a cereja no bolo, a prova de que realmente os brasileiros tem motivo de se orgulhar. Não do talento individual e apoio de alguns, mas sim do trabalho coletivo de muitos em prol de um bem maior, que é formar vencedores no esporte e na vida. Se Gabriel tem o sonho de se imortalizar como o primeiro campeão mundial nascido no Brasil, também tenho o direito de sonhar com um esporte organizado, bem informando, com muita criançada na praia, competindo, se divertindo, conhecendo novos amigos e fazendo com que o surf no país tenha uma base sólida, junto com a sua tão cultuada contracultura.

A torcida é grande pelo título inédito do Brasil, com Gabriel Medina. Foto : ASP

A torcida é grande pelo título inédito do Brasil, com Gabriel Medina. Foto : ASP

Chutometro das ondas 06-12

Sábado dia 6 de dezembro – Ondas de aproximadamente 1 metro, com ondulação de sul e vento oeste fraco pela manhã. Melhores condições : Prainha, Grumari, Barra e Pontão do Leblon

Dominngo dia 7 de dezembro -Ondas por volta de meio metro séries maiores, com ondulação de sudeste e vento leste com fraca a média intensidade de manhã, turbinando a tarde. Melhores condições : Prainha, Macumba CCB e São Conrado canto esquerdo.

Foto: Minduim

Foto: Minduim