O mercado que determina seu valor

O surf competição brasileiro passa por uma crise de grandes proporções. Em 2014, poucos eventos foram confirmados, e o Circuito Brasileiro Profissional foi realizado dentro das etapas dos estaduais. Não vejo muita diferença dos eventos amadores, com poucas competições e destaque.

Já dei minha opinião sobre a falta de apoio da mídia especializada e as suas consequências http://surf100comentarios.com.br/sera-que-midia-especializada-nao-esta-equivocada/  . Também abordei a fragilidade do surf por este não ser um esporte olímpico, sem verbas públicas que poderiam ser recebidas. Mas será que, além disso, não há nada de errado com os formatos das competições? Que elas não agradam à televisão, nós já sabemos. Além da impossibilidade da participação dos atletas do WCT no circuito brasileiro, será que é legal assistir a 70 baterias de um mesmo evento que começa às 8 horas da manhã e termina às 5 horas da tarde, todos os dias? Sinceramente, temos que repensar isso. Nem o mais apaixonado pelo esporte consegue acompanhar, posso garantir.

Trabalhei durante seis anos na OSP e durante dez na ABRASP, aprendendo com os erros e os acertos das mudanças necessárias que o esporte exigia. Uma coisa que aprendi é que quem determina se o seu produto é bom ou atrativo é o mercado. Se o mercado não te quer é porque você precisa mudar. E mais, é preciso adquirir esta sensibilidade para conseguir se manter. A iniciativa da ASP de proibir que os brasileiros que corriam o WTC participassem do circuito brasileiro foi o primeiro sinal de que as coisas iriam se tornar mais difíceis. Foi durante os anos de Super Surf (circuito brasileiro) que veio essa proibição da ASP, porém, era uma venda de mídia da Editora Abril, em que o nosso esporte servia como pano de fundo e como um bónus para quem estava entrando como patrocinador no projeto . É lógico que eles também queriam os melhores atletas do Brasil, mas a força deles era tão grande no mercado que isso não complicou naquele momento o fechamento de todas a cotas de patrocínio.O Brasil crescia economicamente e era apontado como o futuro da economia mundial. A editora Abril tinha uma grande demanda por algo novo, ligado ao público jovem, e daí veio a ideia do Super Surf. Foram dez anos bancando a primeira divisão do Circuito Brasileiro de Surf Pro, o melhor circuito nacional de surf do mundo.

Circuito Super Surf foi o brasileiro sde surf por 10 anos.

Circuito Super Surf foi o brasileiro de surf por 10 anos.

A saída da Abril veio com o desgaste dos anos de trabalho. A Brasil 1 ficou no seu lugar e promoveu o circuito durante 2 anos, oferecendo uma premiação de 1 milhão de reais a cada ano, coisa inédita no surf brasileiro. Foram tempos de fartura, mas sempre recebíamos alertas de que precisávamos fazer ajustes para dar mais atratividade ao evento, pensando tanto no público da praia quanto no público midiático em geral, principalmente o televisivo. Felipe Zobaran, meu amigo e diretor do núcleo Super Surf, foi o primeiro a alertar. Ele tinha total razão. Naquele momento achávamos que podíamos melhorar se mudássemos o nosso formato para o formato do WCT. Depois veio o pessoal da Brasil 1, também nos dando alertas. Infelizmente não conseguimos imaginar nada para melhorar o produto, para torná-lo mais atrativo, e tudo foi se deteriorando até chegar ao fundo do poço. O surf brasileiro não tinha mais ídolos dentro de seus eventos e isso foi cobrado pelo mercado num momento posterior. Os anos de fartura acabaram e a crise brasileira afetou ainda mais a situação.

O formato do brasileiro amador da CBS também deveria ser repensado. Os custos são muito altos para que as federações levem as suas equipes para os quatro eventos realizados no Brasil. Não seria melhor regionalizar e fazer um grande evento no final? Esta é a minha opinião, que pode não significar muita coisa, porque, no final das contas, é o mercado que estabelece o formato a ser dado aos produtos ou eventos. Será que alguém está ouvindo o que eles tem a dizer? Uma competição por equipes não está desgastada? São questionamentos que faço para pensarmos numa melhora do surf nacional de uma maneira geral.

Fazendo um paralelo com o futebol, os fãs do esporte preferem ver os jogos da Liga dos Campeões com Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo, do que jogos do brasileirão, que cada dia que passa tem jogadores menos qualificados. Continuam acompanhando seus clubes do coração, mas não têm grande interesse por outros jogos, com times meia boca.

Quanto vale a Liga dos Campeões para os patrocinadores? E o nosso brasileiro de futebol? O mercado, que hoje é globalizado, defini esses valores. No surf é a mesma coisa. Todos querem ver o WCT e deixam de lado o brasileiro. Torcem por seu surfista favorito no brasileiro, mas não querem ver  baterias medianas. A grande diferença é que o futebol é o esporte número um do mundo e, ainda que os brasileiros não tenham grandes ídolos, a paixão fala mais alto. O mercado sabe disso. Precisamos de nossos ídolos no Circuito Brasileiro de Surf Pro para o produto voltar a agregar valor.

A Copa do Mundo e as Olimpíadas também atrapalham na busca por patrocinadores, mas temos que rever conceitos para o surf brasileiro voltar a ficar fortalecido internamente. Não podemos nos contentar com um pouco de verbas públicas de prefeituras e governos para sobrevivermos.

Falta pouco

A etapa do WCT da França termina com vitória de John John Florence e o título mundial mais perto de Gabriel Medina. Se o brasileiro ganhar o próximo evento, em Portugal, leva o caneco em definitivo. Seus oponentes diretos, Kelly Slater e Mick Fanning, não vem mostrando forças para conseguir mudar o objetivo traçado por Medina. Kelly Slater poderia ter colocado mais pressão na disputa, mas caiu frente a Jordy Smith nas quartas, ficando em quinto, mesma colocação de Medina. Mick Fanning deixou a competição uma fase antes e já não assusta tanto. Só uma combinação de resultados muito ruim pode tirar a conquista dos sonho dos brasileiros.

Jadson André foi o melhor brasileiro em águas francesas, com a segunda colocação.  O Potiguar mostrou muita raça e disposição para encarar qualquer um. Na bateria contra Joel Parkinson, na quinta fase, poderia ter tido mais conforto, mas suas notas não representaram sua performance, deixando emoção até o fim. Depois de uma semi final impecável, contra o embalado Jordy Smith, Jadson não teve forças físicas para encarar John John.

Jadson André mostrou muita garra e disposição nas bombas do WCT da França. Foto: ASP/Kirstin Scholtz

Jadson André mostrou muita garra e disposição nas bombas do WCT da França. Foto: ASP/Kirstin Scholtz

Particularmente, gostei da performance dos brasileiros nesta etapa. Miguel melhorou sua posição no ranking e vem mostrando maturidade para conquistar mais uma vez a vaga pelo WCT. Felipinho está em situação confortável no WQS, mas tem surf para ficar pelo ranking de elite. Adriano está garantido mais um ano e acredito que seu objetivo é terminar como top 5. Alejo e Raoni que terão muitas dificuldades para conseguir disputar o tour de 2015. Precisam se superar nas etapas restantes do WQS, pois pelo WCT parece bem improvável. Alejo ainda tem uma pequena possibilidade de ser convidado por contusão, já que ficou de fora de duas etapas.

Que venha Portugal !!

Chutômetro das ondas 03-10

Sábado – Aproximadamente 1,5 m, com ondulação de sul, e vento leste/sudeste moderado. Melhores opções na zona oeste : Prainha, Macumba e Grumari
Melhores opções na zona sul : Arpoador, Leme e Posto 8 Ipanema.

Domingo _ – Aproximadamente 1,5 m, com ondulação de sudeste, e vento leste/sudeste de fraco a moderado.
Melhores opções na zona oeste : Prainha, Macumba e Recreio.
Melhores opções na zona sul : Arpoador e Leme.

Minduim-5
foto:Minduim

Sangue novo

Toda etapa do WCT gera um monte de discussões, mas a central sempre é sobre julgamento. Este velho, diria pré-histórico debate, não tem fim e do jeito que as coisas vão será eterno. Muito se fala da subjetividade de julgar uma onda surfada em competição. Mas vamos checar no dicionário o que seria esta palavrinha subjetividade: “s.f. Característica, particularidade ou domínio do que é subjetivo (particular e íntimo). Filosofia. Estado psíquico e cognitivo do sujeito cuja manifestação pode ocorrer tanto no âmbito individual quanto no coletivo, fazendo com que esse sujeito tome conhecimento dos objetos externos a partir de referenciais próprios.” Ou seja, basicamente é a opinião pessoal de alguém, no caso sobre uma pontuação de manobras executadas. Sendo assim, creio que o problema principal é a falta de capacidade das pessoas que usam sua subjetividade para julgar eventos de surf. Posto isso, vou abranger um pouco mais os problemas das notas mal dadas.

De cara, a posição do Head Judge, figura controladora que exerce influência nos árbitros, está mais do que ultrapassada. Para que um sujeito feito o Richie Porta, que fala bobagem a torto e direita, comandando os critérios de julgamento da ASP? É ele quem escolhe os juízes. É ele quem estabelece a forma de julgar. É ele o maior responsável pela enxurrada de reclamações, agora também dos próprios Top 32. O surf moderno não precisa mais de um chefe de juízes. A ASP precisa é utilizar seus ex-integrantes, alguns bem capazes intelectualmente, para analisarem seus ex-companheiros. Ninguém melhor do que um Taylor Knox ou Rob Machado, por exemplo, para validarem a dificuldade das complicadíssimas e atuais manobras feitas nos dias de hoje. Mas para isso acontecer, temos que melhorar este formato chato de competição e remunerar bem estas pessoas capacitadas para fazer um julgamento mais condizente com o que vemos na água.

O surf de Medina, Florence, Wilson, Pupo, Toledo merece mais do que este julgamento doido. Vejo diversos posts do ex-campeão brasileiro Ricardo Toledo, pai de Filipe, detonando os juízes. Lógico que tem muita emoção envolvida por causa do filho, mas a real é que Ricardinho tem razão em várias dessas reclamações, além do que, foi e é um grande surfista. Ele tem autoridade para exercer sua opinião com base, DENTRO D’ÁGUA. E pra quem acha que só os brasileiros reclamam, tá por fora. Neguinho xinga na Austrália, Hawaii, Califa, Europa… Em tudo quanto é canto detonam o julgamento da ASP.

Não adianta dizer que ao vivo é melhor para julgar. Discordo plenamente. O surf não é futebol, onde o campo é enorme e tem 11 jogadores pra cada time. Com diversas câmeras envolvidas nas transmissões, diria até que seria melhor os juízes nem estarem no palanque, para não ficarem envolvidos na pressão de torcida e tudo mais. Numa fria sala, longe da papagaiada dos eventos, acho que os juízes seriam menos falhos.

Já escutei gente falando de curso, reunião, comissão… Mas a verdade é que os juízes não acompanharam a evolução do surf atual e não estão sabendo distinguir o que é mais difícil. Estão apegados a uma fórmula que já morreu há tempos, mas que insistem em reviver. Se o negócio é subjetivo, vamos então colocar quem ao menos surfa no mesmo nível de quem está competindo. A ABRASP fez isso no Brasil e o nível técnico melhorou horrores. Se existe aquele ditado de que árbitro de futebol é um jogador frustrado, diria que na ASP, a maioria absoluta dos juízes são surfistas frustrados, que no fundo adorariam estar com uma lycra, ao invés de usar um monitor e teclado.

Num esporte onde a imensa maioria não é reaproveitada no mercado, porque não usar parte desta gente julgando? Porque a ASP não investe nos seus próprios integrantes para criar futuros juízes. Porque não gastar um pouco mais no salário e investimento destas pessoas, para garantir mais qualidade? Um evento do WCT não sai por menos de 3 milhões de dólares. Será que um ajuste no orçamento não garantiria melhores condições para melhores árbitros? Tá na hora da WSL (World Surf League) se atentar mais para esse lado, pois corre o risco de ver todo este dinheiro ser jogado no ralo pelo descrédito de um possível campeão de etapa ou quem sabe, mundial. Os fãs do esporte, gostam de jogo limpo (menos os fanáticos). Longe de chamar o julgamento da ASP de desonesto, a real é que enquanto Medina e John John estão voando de backside a dois metros do lip, os juízes da ASP estão com os cutbacks de Tom Curren ou as batidas de backside de Occy na mente. O mundo mudou. A ASP, ou se preferir WSL, continua a mesma.

Palanque