Blackwater, uma revista à frente do seu tempo

Tive o prazer de fazer parte de um projeto que considero um dos melhores já realizados pela mídia especializada do surf: a revista digital Blackwater. Pioneira no Brasil, ela tinha o intuito de encher os olhos de seus admiradores com belas fotos e artes.

Concebida dentro da empresa Blackkat — formada pelos fotógrafos Fabio Minduim e Luiz Blanco, os designers Paulo de Castro e Duda Gaspar e o jornalista Vitor Froimtchuk —, a revista se propunha a abrir um novo mercado para os bons fotógrafos de surf que tinham suas fotos ignoradas pelas revistas impressas. Seu objetivo não era o de seguir uma linha conceitual rígida de edição. As fotos ditavam as edições. Sempre apareciam algumas surftrips, e o hedonismo do freesurfing era a prioridade. Dificilmente chegavam imagens de atletas com lycra de competição.

surf100comentarios

A apresentação do staff era cômica.

 

A Blackwater tinha a tecnologia a seu favor, o que permitia que um mesmo momento fosse registrado por foto e por vídeo, que conviviam lado a lado nas suas páginas. Também havia uma preocupação com o dinamismo da comunicação na internet, outra tecnologia só hoje assimilada por sites atuantes. Nascia, assim, um produto diferenciado, cujo poder de alcance ainda não era vislumbrado pelo mercado de então.

Os smartphones e tablets ainda não eram tão populares. Se fossem, certamente teriam ajudado a aumentar a visibilidade e as possibilidades da revista. De qualquer modo, os números de page views eram bem animadores, tendo em conta que a revista era acessada somente por computadores em geral (desktops ou laptops).
10529538_10204329318138291_1670680472_n
Outra característica da Blackwater era a agilidade que tinha para montar suas edições (assim como hoje fazem os sites), o que lhe dava a possibilidade de divulgar eventos relevantes do mundo do surf com muito mais antecedência que as revistas impressas. Um swell clássico em Teahupoo era mostrado três ou quatro dias depois na Blackwater. As revistas tradicionais levavam um ou dois meses para divulgar o mesmo evento. Bruno Santos venceu a etapa do WCT no Tahiti e uma semana depois já tinha sua entrevista pronta e editada na Blackwater. Era algo que impressionava muito.

A irreverência e criatividade do grupo ficavam bem aparentes nos editoriais, na apresentação do staff e na diagramação das páginas. Ninguém queria fazer algo igual a concorrência. Os leitores adoravam o deboche.

surf100comentarios

Irreverência e criatividade nos editoriais era a tônica da revista.

 

O crescimento foi constante e muitos foram os admiradores desse projeto. Contudo, quem fazia a revista nunca foi bem remunerado. Isto acarretou num desânimo de todos e a revista foi extinta por falta de investimento.

Acho que o mercado ainda não estava preparado para aderir a algo à frente do seu tempo.

O futuro que vivemos na Blackwater chegou há algum tempo para o resto do mercado. Para a equipe original ficou a sensação de dever cumprido e a certeza de terem sido pioneiros num mercado que se repete a cada ano sem nada de realmente inédito em termos de formato e conteúdo. Hoje, parte da equipe se juntou novamente para começar um novo projeto. Se assim o mercado permitir e aprovar.

Algumas capas da BW

Agradecemos Paulo de Castro, pelo envio de algumas capas.

Não basta ser bom, tem que ter categoria.

Acordei as 4 horas do último sábado para ver o anunciado día épico da final de J Bay. Os sites marcavam de 10 a 15 pés com vento terral o dia todo. Não foi tudo isso, mas tinha em média 6 a 10 pés sólidos, clássico, como a muito não quebrava. De vez em quando apontava algo maior, em torno de 12 pés. Acreditava que seria show de surf, e ainda, teria três brasileiros para torcer. Conforme a minha expectativa, foi um dos melhores eventos que assisti da ASP.

J Bay no último dia de evento. Foto: ASP/Kirstin

J Bay no último dia de evento. Foto: ASP/Kirstin

O evento recomeçou do round 5, com nossos dois melhores brasileiros no ranking lutando para se manter no topo do tour. Adriano de Souza abriu o round vencendo o perigoso Josh Kerr.  Gabriel Medina teve uma disputa muito acirrado contra CJ Hobgood e entrou na quartas com boas possibilidades de manter a liderança do circuito.  Alejo Muniz já estava classificado para as quartas por antecipação.

Gabriel Medina ainda é o lider do circuito. Foto: ASP/Kirstin

Gabriel Medina ainda é o lider do circuito. Foto: ASP/Kirstin

O mar começou a melhorar na quartas e logo na primeira bateria Joel Parkinson despachou Adriano de Souza. Como havia dito em outro artigo que escrevi no blog, a leitura de Joel,das ondas de Jeffreys, é perfeita. Sua linha impressiona pela classe e uso constante da borda nas manobras. Adriano mostrou muita vontade, mas as finalizações de Parko pesaram nos números finais. Na segunda bateria o australiano Matt Wilkinson parecia o Occy em seus bons tempos de J Bay. Com ele não tem essa de aliviar, é tudo ou nada. Suas rasgadas e batidas estavam no limite. Taj Burrow, seu oponente, surfou muito, e mesmo com uma nota 9,27, foi derrotado pelo surfista que mais impressionou de backside. Todos aguardavam a bateria de número 3 do líder do circuito Gabriel Medina. Seria a possibilidade dele disparar na liderança, já que Michel Bourez e Kelly Slater, segundo e terceiro do ranking respectivamente, tinham sido eliminados no round 3 da competição. Medina mostrou habilidade numa onda que nunca havia surfado. Foi beneficiado por um chaveado mais tranquilo, e independente disso, tirou algumas boas notas, chegando as quartas. Ainda não chegou no nível dos melhores de J Bay, e por isso considero um ótimo resultado a quinta colocação.  Owen Whight passou para as semi, deixando Medina na torcida para Joel não levar a etapa e assumir a liderança. Na quarta bateria Mick Fanning atropelou Alejo de forma contundente. Alejo precisa ampliar suas manobras para utilizar mais os espaços da onda. Ficou um pouco a desejar, no dia em que a leitura precisa da onda foi fundamental.

Matt Wilkinson foi o melhor ataque de backside do evento. Foto:ASP/Kirstin

Matt Wilkinson foi o melhor ataque de backside do evento. Foto:ASP/Kirstin

Antes das semi, Tom Curren deu um show para os fãs do esporte. Convidado para uma disputa de exibição, contra seu grande rival dos anos 80 Mark Occhilupo, o mestre do estilo desenhou as ondas de J Bay de uma forma que muito profissional do WCT não conseguiu fazer. Deveriam filmar as ondas de Curren para aprender como se surfa aquela onda. Tirou nota 10 e foi um capítulo a parte do evento. ( LER TEXTO A LENDA CONTINUA DE ALEXANDRE GUARANÁ).

Depois da exibição do mestre, Joel Parkinson fez a melhor exibição do dia. Deve ter se inspirado em Curren para tirar um 10 que valia 12, na minha opinião. Seu somatório foi 18,83 e não pensem que isso intimidou Matt Wilkison. Wilko deu uma série de bolachas e rasgadas que levantaram o público na praia. Pancadaria geral de backside. Começou devagar na bateria e no final se recuperou com um 9,77. Pena que já era tarde. Na segunda semi outra aula de como surfar as direitas maravilhosas que rolavam. Mick Fanning impôs seu ritmo fortíssimo para bater seu compatriota Owen Whight. A Abordagem de Parko e Fanning eram tão melhores que as dos outros, que a final não poderia ser mais correta. A categoria dos dois é algum absurdo em Jeffreys.

Joel Parkinson usa muito a borda nas suas rasgadas. Foto: ASP/Kirstin

Joel Parkinson usa muito a borda nas suas rasgadas. Foto: ASP/Kirstin

A final gerava muita expectativa, mas Fanning mostrou muito mais preparo físico e poder de chegada para definir o resultado a seu favor. Joel até tentou igualar a disputa, mas ficou muito abaixo de seu grande amigo e companheiro de Gold Coast. Fanning fechou o caixão em pouco mais de 12 minutos de disputa. Começou com 9,0 e logo depois pegou um 8,0. Parko meio sem gás não conseguiu fazer frente. De qualquer forma, ficou provado que os regulares levam muita vantagem em J Bay.  Depois de Occy, a exatos 30 anos, nenhum goofy venceu mais o evento.

A lenda continua

Mark Occhilupo e Tom Curren. Duas figuras distintas em praticamente tudo. Um é goofy, o outro regular. Um é australiano, o outro americano. Um é extrovertido, o outro super tímido. Um é força, o outro harmonia. Um é Indomável, o outro Perfeito. Ambos são gênios!

Uma das poucas coisas realmente interessantes que a antiga ASP tinha feito nos últimos anos era este revival entre grandes campeões como Sunny Garcia, Martin Potter, Simon Anderson, Tom Carroll e em diversas ocasiões Occy X Curren. A nova ASP manteve a boa idéia e apenas mudou o nome do desafio. Ao invés de Clash of Icons agora o duelo tornou-se ASP Heritage Series. O que menos importa é como serão chamadas estas batalhas. O que vale é que a galera nascida dos anos 90 em diante tenha a oportunidade de ver, ao vivo, alguns dos sujeitos que influenciaram os milhões de surfistas existentes, incluindo aí todos os campeões mundiais a partir de 92, quando Kelly Slater, fã de Curren, iniciou sua dinastia.

Tanto Mark quanto Tom, diferentes mas com destinos similares, passaram por inúmeros problemas em suas grandiosas carreiras. Occy abandonou o Tour, se envolveu com drogas e bebida e chegou a passar dos 100 kg, sendo salvo por Gordon Merchant, fundador da Billabong, que fez de tudo para sua cria dar a volta por cima culmimando com o merecido título mundial de 1999. Curren, figura um tanto enigmática, basicamente não aguentou tanta gente enchendo seu saco após o bicampeonato mundial em 1986 e sumiu aos poucos. Talvez precisando de grana, resolveu retornar as competições e com alguns convites e atuações espetaculares teve o maior come back da história do surf sagrando-se tricampeão mundial em 90, vindo das triagens, para logo depois abandonar novamente o Tour.

Assistindo ambos nesta manhã de 19 de julho de 2014, em ondas de 10 a 12 pés em Jeffrey’s Bay épica, tive um déjà vu bacana dos meus tempos de garoto, onde minha idolatria por Curren beirava o fanatismo. Ao vê-lo, com 50 anos, totalmente em forma, se dirigindo para entrar no mar com uma 6’6″ Channel Islands, senti o quanto o surf representa para si, como se fosse uma religião, mantendo-o focado em levar uma vida plena e saudável. Occy, completamente fora de forma, com uma prancha grossa feito uma balsa, mais uma vez foi a antítese do maior rival.

Occy mesmo fora de forma, ainda tem a leitura correta de J Bay. Foto: ASP/Kirstin

Occy mesmo fora de forma, ainda tem a leitura correta de J Bay. Foto: ASP/Kirstin

O mais impressionante foi que Tom Curren surfou melhor do que a maioria dos Top 32 nas perfeitas, mas difíceis, condições de J-Bay. Não só pela nota 10 unânime, mas sim pela fluidez, visão, domínio e harmonia numa das ondas mais complicadas do planeta. Como um mestre, Tom domou não só o Touro como também as volumosas e rápidas direitas.

O tempo, cedo ou tarde, é cruel com todos. Por isso a minha felicidade ao ver um cinquentão dar uma aula de categoria aos jovens milionários e egocêntricos que vivem em busca de imagem. Em tempos de aéreos, rabetadas e discussões sobre julgamento, foi agradável ter a certeza de que a lenda Mr. Perfection resiste. Sempre discuti que um ídolo se faz por si próprio e não pela mídia. Thomas Curren é a prova viva disso!

Tom Curren mostrando toda a sua categoria no duelo contra Occy. Foto: ASP/Kelly Cestari

Tom Curren mostrando toda a sua categoria no duelo contra Occy. Foto: ASP/Kelly Cestari

 

O que está faltando para divulgar ?

O que está faltando para divulgar ?

Sei que passamos por esse mês de Copa do Mundo e que todas as atenções se voltaram para o futebol, mas a nossa mídia especializada tem como conteúdo o surf e não pode dormir no ponto. Parece que estou sendo chato ao tocar neste mesmo assunto pela segunda vez. No entanto, minha intenção é ser crítico, porque acredito que o óbvio não pode ficar de fora da cobertura das revistas ou sites.

Estava no Facebook quando enviaram uma postagem com a seguinte frase:“E ainda há pessoas que não acreditam na força do SURF BRASILEIRO!!Somos LÍDERES de 3 dos 4 principais circuitos de surf do MUNDO. VAI BRASIL!!!!.”

Olhei atentamente e reparei que nenhum site ou revista fez nenhum comentário ou matéria sobre isso (sobre a declaração acima). Foi no MOBISURF, movimento brasileiro de incentivo ao surf, que encontrei algo a respeito. O MOBISURF, por sinal, parece estar bem mais antenado do que a nossa mídia especializada.

Gabriel Medina, líder do WCT, Adriano de Souza, líder do WQS, e Silvana Lima, do WQS feminino. Nunca tivemos uma situação como esta! Temos que divulgá­la para valorizar nosso esporte e esses atletas que estão na disputa pelo topo do ranking. Lembro o tempo em que um atleta, isoladamente, conseguia alcançar algo que achávamos expressivo para o surf brasileiro. O terceiro lugar no circuito mundial conquistado pelo Victor Ribas ou o mundial amador conquistado pelo Fabio Gouveia; tudo era motivo de capa de revista e orgulho a todos nós. Ser top16 do WCT já era muito foda!

Adriano de Souza lider do WQS. Foto: ASP/Kirstin

Adriano de Souza lider do WQS. Foto: ASP/Kirstin

O que está faltando acontecer para ser divulgado pela nossa mídia? O Medina perder a liderança em J­Bay?

Gabriel Medina mantendo a liderança do WCT desde a primeira etapa. Foto: C Banh

Acho que não vai ocorrer, mas…

Obrigado MOBISURF.

FUN IN THE WEDGE

Stephan Figueiredo é um surfista profissional que viajou o mundo em busca de ondas. Nos últimos 10 anos, ele volta ao mundo, mas ainda havia uma onda que ele sempre quis surfar, uma onda que ele só havia visto em revistas e vídeos – The Wedge em Newport Beach, Califórnia.
Depois de passar um mês na Califórnia, um swell atingiu.
Stephan finalmente foi capaz de realizar seu sonho de surfar The Wedge. Uma onda que ele descreveu como “perfeito, pesado e exótica”, do jeito que ele gosta.