Qual é a solução para o “surfrimento” brasileiro?

O litoral brasileiro é amaldiçoado no quesito ondas para prática de surfe de alta performance. Sei que vai ter um monte de patriota, local e patotinha de deslumbrado reclamando, me xingando, esperneando mas isso é um fato e posso explicar. Partindo da premissa que beachbreak de vala gorda e/ou ventando não entra em nossa discussão, 90% do litoral brasileiro já está excluído. A prática do surfe de alta performance é baseada em ondas tubulares e com paredes longas. Isso não existe no Brasil. Pode me falar que Noronha tem tubo, que Saquarema tem paredes longa, que Maresias dá tubo, que Regência quando quebra dá para dar 10 manobras e que Barra Grande tem bancadas de coral iguais a Indonésia. Sim, concordo, inclusive já surfei em todos esses lugares diversas vezes. Mas ao longo dos meus 35 anos viajando para surfar, lendo e escrevendo sobre o tema, nunca vi no litoral brasileiro ondas que nem de perto lembrassem as ondas que o mundo está de comum acordo que são ondas de alta performance. Vou citar meia dúzia de ondas famosas e que a maioria dos leitores desse blog já surfou ou viu imagens em algum lugar dessa rede mundial de computadores. Vamos a elas: Desert Point, Jeffrey’s Bay, Cabo Blanco, Nias, P-Pass, Cloudbreak, Punta Mango, Punta Rocas, Pavones, Macarronis, Lances Right, Burleigh Heads, Snapper Rocks, Mundaka e aquela onda da Namibia que não sei o nome, são algumas que me veem a cabeça rapidamente. Escolha a que você mais gosta e insira ela aqui.

Jeffreys Bay é considerada por muitos a melhor direta do mundo. Foto: Aaron Chang

Jeffreys Bay é considerada por muitos a melhor direta do mundo. Foto: Aaron Chang

Para os free surfers de plantão, por favor me diga onde no Brasil quebra uma onda dessa? Nem vou entrar no mérito do tipo de fundo e nem da constância, porque ai é bater em cachorro morto. O Brasil tem diversos fundo de corais porém localizados em áreas de baixa intensidade de swell. Quero deixar claro que sou brasileiro, amo as ondas do Brasil, surfo todo final de semana e estou sempre sonhando com próximo swell perfeito em nosso litoral. O Brasil gera ondas boas, porém com uma inconstância desanimadora. Para tudo dar certo, a ondulação certa, com vento certo, na maré certa, é raro. E provavelmente vai acontecer em um dia de semana que você estará trabalhando!

Já ouvi alguns dizerem que ao voltarem de uma surf trip para “world class waves locations” ficam até mais animados para encarar o surfrimento brasileiro. Para mim bate ao contrário. Badtrip surfistica pesada. Quem sabe a poderosa indústria farmacêutica vai lançar um remedinho para curar esse sintoma? Poderiam aproveitar e lançar um embelezador de ondas (sei que existe um ilegal rs) que poderia ter distribuição gratuita pelo SUS também! E para você, qual é a solução para o surfrimento brasileiro? Enquanto essas respostas não aparecem, continuemos nossa busca pela onda perfeita por aqui mesmo. Boas ondas!

Desert Point é o sonho dos tube riders. Foto : Slim Shady

Desert Point é o sonho dos tube riders. Foto : Slim Shady

O caminho certo dos iniciantes

Os surfistas iniciantes tendem a escolher a primeira prancha atraídos pela beleza e não pela funcionalidade. Acham que vão sair surfando com qualquer prancha, o que é um grande engano.

Quando era sócio de uma loja de surf, aqueles que queriam começar a surfar sempre me perguntavam que prancha comprar. Eu aconselhava a compra de uma prancha velha, com bom tamanho e largura, tipo funboard. Explicava que, nas mãos de um iniciante, uma prancha nova ficaria velha com pouco tempo de uso. A falta de prática levaria a isso, já que o novato cai bastante em cima da prancha, dá muitas joelhadas, embicadas e encalhadas na beira.

Com o tempo, entretanto, meu aconselhamento mudou. O surgimento das escolinhas de surf acabou facilitando a vida dos aprendizes do esporte, pois, além de oferecer aulas com professores que entendem do riscado, também oferecem, durante as aulas, pranchas de borracha que tornam as primeiras quedas mais seguras. Passei, então, a indicar as boas escolinhas para depois indicar a prancha certa.

O começo na escolinha.

O começo na escolinha.

Exemplo concreto: Estevão, funcionário da empresa Blackkat, onde trabalho atualmente, queria aprender a surfar. Indiquei a escola do Paulinho Dolabella, no Arpoador, porque era o lugar mais próximo da sua casa e porque acreditava na competência do professor, meu amigo de longa data. Em pouco tempo Estevão já estava cortando as esquerdas do pico mais tradicional do Brasil. Sempre que chegava ao trabalho, depois de uma caída, sua expressão era de pura felicidade. Mas ainda faltava algo: sua primeira prancha. Ele, então, me pediu para auxilia-lo na escolha da prancha e eu prontamente concordei. Pensei em algo com muito volume para deixar sua remada confortável e para deixá-lo em condições de disputar as ondas com o crowd feroz do pico (Arpoador).

Encomendamos uma André Cebola 6’5″( aproximadamente 1 metro e 86 cm ) com 22 polegadas de largura (aproximadamente 57 cm)  e 2 e 5/8 de meio (aproximadamente 7 cm), prancha que seria boa para um cara de 95 kg (Estevão pesa 58 kg, mas fiquem certos que essas medidas o ajudou a ganhar, na remada, de muitos caras mais experientes que ele).

Estevão e sua 6'5"André Cebola.

Estevão e sua 6’5″André Cebola.

O que tento explicar com este relato é que a evolução de um surfista iniciante pode ser rápida se for bem orientada. Hoje ele surfa com uma 6’0″( aproximadamente 1 metro e 82 cm) com 20 polegadas de largura ( aproximadamente 50 cm ) e 2 e 5/8 de meio ( aproximadamente 7 cm).

Surf atual com sua 6'0".

Surf atual com sua 6’0″.

Estevão tem apenas 9 meses de surf (contados os 2 meses de escolinha),  e acredito que ele já poderia reduzir a espessura da prancha que não sentiria muito.

Hoje o iniciante não precisa mais de uma prancha grande para começar a praticar o surf. Pode diminuir o tamanho da prancha pondo mais espessura e largura nas medidas. Fica ai a sugestão.

Eraldo, o guerreiro

Minha família é do sul e do nordeste. Minha mãe é gaúcha de Santana do Livramento e meu pai pernambucano de Timbaúba. O dois foram criados no Rio de Janeiro e a vida conspirou para seguirem juntos até hoje.

Meu pai era militar do exército e gostava muito de visitar seus parentes quando tinha oportunidade. Admirador de sua terra natal, conseguiu algumas transferências para Recife, onde passei grande parte da minha vida.

Foram anos maravilhosos. Surfava em Boa Viagem sem ataques de tubarão, acampava em Itapuama e Gaibú com os amigos e seguia de vez em quando para Maracaípe e Cupe, o filé mignon da época (depois descobriram alguns fundos de pedra, mas isso deixa pra lá).

Existia uma rivalidade amistosa entre os surfistas dos bairros de Recife, que partiam em busca das ondas fora da cidade, e a galera de Piedade, Boa Viagem, Olinda, Casa Forte e de outras localidades, que se encontravam nos picos ou nas escassas competições que rolavam em PE. Todos loucos para arrepiar com suas pranchas preferidas: Arrecifes, Magia, Realce, Universo, Corais, Argo e outras que nem lembro.

Fazia parte da turma da cidade, que englobava Espinheiro, Casa Forte, Madalena, Derby e adjacências. Os colégios da região nos aproximava ainda mais para marcar o surf do fim de semana. Saíamos para as praias em busca de surf e diversão. Podia ser de carro, trem ou ônibus. O importante era contar as aventuras segunda na escola.

Os melhores surfistas da época normalmente eram os que moravam em Boa Viagem, Piedade e Candeias. Todos estavam bem perto da praia e treinavam nas marolas da cidade.

Eraldo Gueiros era da turma de Piedade e confesso que não era o cara que eu mais gostava de ver surfando. Achava Cláudio Marroquim, Paulinho Porrete e Zezito Barbosa os surfistas que mais arrepiavam.

Mas Eraldo sábia o que queria e investiu em pranchas e viagens que o tornaram o melhor da nossa geração. Depois de sua mudança para a Califórnia, passando uma boa temporada no Hawaii, ele voltou com status de grande nome do surf brasileiro. Roberto Valério, lendário empresário e surfista, o convidou para ser atleta de sua marca Cyclone, apostando na capacidade de surf do Eraldo em qualquer tamanho de onda.

Eraldo Gueiros em Jaws, uma das ondas mais perigosas do mundo. Foto: www.multisolution.art.br

Eraldo Gueiros em Jaws, uma das ondas mais perigosas do mundo. Foto: www.multisolution.art.br

Veio morar no Rio em 88 na busca de um centro mais desenvolvido para seguir sua carreira de surfista profissional. Seu apartamento ficava na frente do quebra mar da Barra da Tijuca, local de localismo mas de boas ondas.

No Sundek Classic 86, em Ubatuba, posso afirmar que ele era o cara que mais impressionou nos dias grandes e poderia ter ido mais longe se tivesse acreditado que venceria. Ficou com a quinta colocação. Picuruta Salazar, um dos maiores vencedores do surf brasileiro, levou o caneco.

No ano seguinte terminou na décima colocação do recém fundado Circuito Brasileiro de Surf profissional, promovido pela ABRASP. Neste momento, ele tinha ao seu lado o grande parceiro de carreira, o conterrâneo Carlos Burle, que como ele adorava ondas grandes.

Carlinhos, como era chamado, tinha em Eraldo o grande ídolo. Este por sua vez, passou todo o seu conhecimento havaiano para o pupilo, deixando que Burle ficasse em sua casa, treinando constantemente com ele.

Eraldo Gueiros e Carlos Burle fizeram história dropando as maiores ondas do planeta. Foto: Globo.com

Eraldo Gueiros e Carlos Burle fizeram história dropando as maiores ondas do planeta. Foto: Globo.com

Os dois seguiram anos a fio entre os Top do Brasil e tentaram a sorte em etapas do Circuito Mundial mundo afora. Eram os grandes nomes de Pernambuco ao redor do planeta.

A coragem dos dois era comentada por quem voltava das ilhas havaianas.

Algum tempo depois, o jet ski foi incorporado ao surf de ondas grandes e a dupla logo se destacou com o novo brinquedinho. Conseguiram feitos históricos. Eraldo pegou um tubo profundo em Jaws, com direito a capa de jornal local. Burle foi protagonista inúmeras vezes em situações extremas.Os dois se completavam. No primeiro evento de ondas grandes, em Jaws, ficaram com a terceira colocação.

Capa do Jornal de Maui Foto : Carol Oliva

Capa do Jornal de Maui Foto : Carol Oliva

Eraldo foi influência para muitas gerações de Pernambuco. Um guerreiro que puxou o nível do surf do estado para outro patamar.

 

Eraldo impressiona pela coragem Foto: Arquivo

Eraldo impressiona pela coragem Foto: Arquivo

Entrevista com Rafael Alla nova geração do Surf

O RioSurfCheck fez uma entrevista com Rafael Alla,  atleta carioca da nova geração, que faz alguns comentários sobre o surf Brasileiro

RIOSURFCHECK: Quais as perspectivas para sua carreira ?
Então, até um tempo atrás eu queria continuar competindo e tentar realizar o sonho de todo competidor que é entrar no WCT, mas dei uma desanimada em participar das competições. Acabei optando pelo lado de fazer matérias, vídeos, aparecer em sites, free surf, etc.

RIOSURFCHECK: Como você vê a evolução dos Brasileiros no WCT ?
Os brasileiros estão SINISTROS !! Eles estão evoluindo cada dia mais. Aperfeiçoando manobras, procuram sempre melhorar os seus pontos fracos.  Não só no WCT, mas no WQS também. Eles estão competindo de igual para igual com os gringos.

RIOSURFCHECK: Quais atletas da sua geração você aponta como futuros surfistas do tour ?
No Brasil tem uma galera muito sinistra. Victor Bernardo, Lucas Silveira, Ian Gouveia, Jesse Mendes, Yago Dora, estão dando muito trabalho.

RIOSURFCHECK: As competições de base no Brasil deram uma diminuída, como vc analisa isso ?
As competições deram uma caída mesmo, mas acho que no Rio nunca tiveram muitos campeonatos , tinha um ou outro. Se você quiser ser um surfista top e está querendo entrar no WCT,  não pode só competir no seu estado. Tem que ir pra outros estados e até outros países, competir com outras pessoas, com surfistas com o nível maior que o seu. Isso é fundamental para sua evolução.

RIOSURFCHECK: Tem Patrocínio? caso não: Encontrando dificuldades para encontrar patrocínio?
Sai da marca HD – Hawaiian Dreams a pouco tempo, mas estou com o apoio da GHOST, uma marca muita irada, que tem óculos, roupas, bonés. Além disso, tenho apoio de marca de prancha  ELECTRA, que me apoia desde muito novo.
Hoje em dia está muito difícil de conseguir um bom patrocínio. As marcas não apoiando quase ninguém, nem eventos amadores. Está muito difícil.

RIOSURFCHECK: O que você gostaria de falar do surf brasileiro?
Os surfistas brasileiros são os mais guerreiros, pois mesmo sem patrocínios estão sempre batalhando. Queria passar uma mensagem que não podemos desistir. Temos que correr atrás de nossos sonhos, pois o Brasil tem os surfistas mas talentosos do mundo.

Rafael Alla em ação no evento da FESERJ Foto: Pedro Monteiro

Rafael Alla em ação no evento da FESERJ Foto: Pedro Monteiro

 

Medina? Ou Slater?

“Achei que fosse demorar mais para declarar tal frase mas aí vai.. O surf do Medina está mais power e empolgante do que o do Kelly Slater, pronto falei!”

Não é um pensamento ou post meu porém certamente é um comentário que muita gente acha, ainda mais depois da grandiosa e diria até fácil vitória – nas quartas, semis e final – de Gabriel Medina em Fiji. O autor da citação acima no facebook é um velho amigo e excepcional shaper, Beto Santos, que inclusive fazia as pranchas do paulista quando ele era mais novo. Sendo uma pessoa crítica ao extremo, obviamente me permito discordar e, concordar com Beto.

Sim, realmente as atuações de Medina estão mais empolgantes não só do que Slater mas também de grande parte dos Top 34. Porém, em alguns momentos, e não de um modo geral, visto a inconsistência natural deste esporte tão equilibrado e da idade do Gabriel. E para mim esta é a diferença entre fenômenos como KS, Tom Curren e Andy Irons para outros ídolos do surf. A superação em momentos decisivos aliada a constância no alto nível de performance é a marca registrada das lendas. Medina tem que trabalhar muito para chegar lá. Mas está no caminho!

Gabriel Medina está no caminho certo para o título mundial. Foto: ASP divulgação

Gabriel Medina está no caminho certo para o título mundial. Foto: ASP divulgação

Num dos comentários deste mesmo post do facebook, Beto complementou que “A velocidade que o Medina anda na onda é de muita sincronia, nem mais rápido nem lento, impressionante!” Vou colocar de outro modo: Gabriel está conseguindo ter uma leitura da onda excelente, principalmente de frontside, que acumulada com sua facilidade para trocar de bordas com rapidez acaba lhe proporcionando uma projeção acentuada que resulta em muita água para fora da onda, manobras potentes e aéreos altos.

Bem, vamos lembrar que, nesta mesma idade, Slater não apenas era o melhor surfista do mundo competindo, como também liderou a revolução do esporte, com pranchas mais estreitas e manobras hiper modernas para a época, em quaisquer condições. E atualmente o surfista mais versátil do planeta é John John Florence, seguido pelo já não tão novo Dane Reynolds. Voltando as competições, esse aspecto pouco importa, já que com uma lycra de campeonato, Medina é um verdadeiro Rocky Balboa com seu olho de tigre. Quase insuperável!

Quanto ao power, discordo quase que totalmente do Beto. Slater, mesmo com 42 anos (tem uma filha de 18), ainda é o cara que mais extrapola batendo no lip (Ok, Michel Bourez tá demais!). Pode até não completar algumas manobras atualmente, e isso é um dos motivos dele não ter vencido nenhuma prova em 2014, mas sua virada, sinônimo de potência, é ímpar no surf. Ninguém consegue o drive de sua cavada. É uma coisa a ser estudada. Seus carves (para mim a manobra mais bonita e difícil do surf) são espetaculares e diria que apenas um punhado de surfistas conseguem repeti-los, mas sem igualá-los em pressão e velocidade. Na minha humilde opinião, o que anda atrapalhando é o pouco treino com os modelos diferentes dos usados em 2013, onde ele teve sua pior performance em ondas manobráveis. E convém lembrar, que mesmo super bem preparado e flexível, a musculatura de um homem de mais de 40 anos não se compara a de um pré-adulto de 20, o que acaba sendo desfavorável. Coisas da vida.

Kelly Slater sempre impressiona a todos. Foto: ASP divulgação

Kelly Slater sempre impressiona a todos. Foto: ASP divulgação

São louváveis os elogios, parabéns e tudo mais para este atleta brasileiro talentoso e sangue nos olhos, mas não devemos colocar o carro na frente dos bois. Da mesma forma que Medina destruiu em Cloudbreak (mesmo assim quase foi derrotado por um perigosíssimo Fred Patacchia no Round 3), ele surfou mal em Bell’s, logo depois de vencer em Snapper. O surf é assim, imponderável. Se Gabriel teve as atuações mais memoráveis até agora, Adriano de Souza, foi na minha opinião, o cara que surfou melhor contando as 5 etapas do Tour. Resultados não refletem performance. E vitórias muitas vezes são conquistadas pela tática ao invés do talento (Gabriel Medina, mesmo tão novo, é faixa preta nisso).

Gabriel tem apenas 20 anos, muito ainda a surfar e a vencer. Acho que, na pior das hipóteses, termina a temporada entre os 3 primeiros do WCT, o que já seria um feito e tanto, igualando Victor Ribas em 1999. O título mundial é palpável e bem possível, mas não será nenhuma decepção se ele não conseguir agora. Medina tem pelo menos mais 15 anos de carreira e não vejo num curto espaço de tempo, muita gente com competência para atrapalhar seus planos. O vácuo que Slater irá deixar ao se aposentar (esperamos que em breve), depois de atrapalhar os planos de muita gente em mais de 20 anos, será preenchido por ele, Mineiro, Julian Wilson, Owen Wright e principalmente John John Florence e Filipe Toledo (esse logo será tema de um post). Salvo uma grave contusão ou um abalo psicológico por causa de uma gatinha, Gabriel tem tudo para escrever seu próprio nome em mais algumas páginas da história do surf. Quanto a Kelly, deve ser incrível ainda ser motivo de comparação quando seus principais adversários tem idade para serem seus filhos. Isso só prova que apesar de tudo, ele continuará sendo inquestionável.

20 ANOS SEM ROBERTO VALÉRIO – POR PEDRO FALCÃO

Está fazendo 20 anos da morte do surfista e empresário Roberto Valério. Quem me lembrou disso foi o Biriba, que cresceu na Cyclone acompanhando de perto um dos melhores e mais importantes trabalhos feitos por uma empresa no surfe nacional.

Valério era um surfista de verdade, que construiu sua reputação em ondas grandes.

Equipe Rico no Stubbies de 1981 na Gold Coast - Austrália. Fred d'Orey, Valério, Rico e Valdir Vargas. Fonte; surfdragon.blospot.com

Equipe Rico no Stubbies de 1981 na Gold Coast – Austrália. Fred d’Orey, Valério, Rico e Valdir Vargas. Fonte; surfdragon.blospot.com

Foi também um empresário visionário que através da Cyclone criou uma das maiores e melhores equipes de surfe do país. Tinha o olho clínico. Tinha o conhecimento e as ferramentas para alavancar os surfistas.

Em uma ocasião, que não recordo exatamente quando, provavelmente no início dos anos 90, levou o time amador inteiro da Cyclone para o Havaí. Uma experiência única para aqueles garotos, uma atitude e tanto para aquela época.

Estava um passo a frente também quando fez o Mundial Amador na Barra da Tijuca, com três palanques simultâneos. Na época ainda fui critico, mas hoje tenho a noção exata de como ele foi uma pessoa visionária, corajosa.

Mas Valério morreu subitamente, em época de Copa do Mundo, exatamente no dia do jogo entre Brasil e Holanda, em 9 de julho de 1994. Deveria ter direito a um mês de comemorações.

Um ano depois de sua morte, um de seus patrocinados, Eraldo Gueiros, através de sua loja em Ipanema e com outros apoios, realizou um evento especial, que levou à praia sua esposa, muitos amigos e a nova geração do surfe carioca. Foi minha primeira experiência de organizar de evento, junto com Marcelo Andrade. A lona foi pintada a mão pelo André Cortês, um dos artistas que mais admiro. Surfista e de muito bom gosto. Inspirador!

Hoje, com a nova geração precisando tanto de apoio e os empresários precisando de exemplos vejo o quanto ele faz falta. Fica a lembrança. Que não seja esquecido jamais pelo que foi e pelo que deixou de legado.

Fernando e Roberto Valério durante o 1º Festival Olimpykus de Surf… Foto: Fernando Mansur Ano: 1982 Fonte: baudosurf.wordpress.com

Fernando e Roberto Valério durante o 1º Festival Olimpykus de Surf… Foto: Fernando Mansur Ano: 1982 Fonte: baudosurf.wordpress.com

Quem precisa de TV?

Ao assistir a final de Fiji onde Medina merecidamente levou o caneco fiquei pensando como as coisas evoluíram no nosso dia a dia.  Queria saber exatamente qual a audiência do público que assistia a final do Fiji Pro na internet. Alguém sabe me responder?
A qualidade da transmissão melhorou muito e ainda irá evoluir mais com as mudanças que estão chegando. Pensar que a transmissão vem lá do meio do mar. Ao vivo. Isso é maravilhoso.
Semana passada o Google começou a vender no Brasil um aparelho pequeno (chromecast) que parece com um pendrive onde você conecta seu celular n a TV e assiste o You Tube em tela cheia. Aos pouco estamos mudando nossos hábitos e como disse o Vitor aqui no blog (veja o artigo) a nova geração digital está chegando ao surf e fora dele.
Parar de trabalhar e assistir uma final brasileira em Fiji em seu laptop é uma mudança enorme. Na verdade uma quebra de paradigma.
O mercado de surf cresceu graças à internet e vai crescer ainda mais. Concordo com Guaraná (veja o artigo) quando fala que o nível dos comentários em português deixa a desejar nas etapas da ASP.
Com referência a opinião de Guaraná o senador Cristóvão Buarque publicou um artigo (dia 06) nos principais jornais com o título “Basta de Fingir” e nele diz que passamos em 20 anos de 1,6 milhões de alunos nas universidades para perto de sete milhões. E que a grande maioria que está aí sabe ler e escrever de forma medíocre. O que podemos esperar de um país quando não se investe em educação? Baixa qualidade, baixa produtividade.
Precisamos ser cada vez mais exigentes com a qualidade de transmissão, com o nível dos debates e o nível do surf no nosso país. Mas precisamos cada vez mais investir em educação. E precisamos escolher bem nossos políticos. Sem educação continuaremos a ser  reconhecidamente  indesejados  em vários picos de surf (isso é assunto para um outro post). Continuaremos a ser conhecido fura-fila (inclusive no surf) e continuaremos atrasados em quase tudo.
Voltando a falar da TV como não existe mais horário nobre e as noticias chegam fresquinhas pela net, a televisão cada dia perde audiência. Antes uma novela tinha 60 pontos de audiência hoje não chega 20 pontos.
A  diversão está garantida a qualquer hora em qualquer lugar, basta ter uma conexão com a net. Assistir a uma final em Fiji em tempo real no You Tube, não tem preço. A comunidade do surf agradece ao Google e agora o Brasil tem pelo menos até a etapa de Jeffrey Bay um campeão mundial de surf.
Quem hoje precisa de TV?

Highlights: Fiji Pro Final Day

 

 

Será que a mídia especializada não está equivocada ?

Depois da vitória de Gabriel Medina em Fiji, comecei a pensar na renovação do surf brasileiro. Difícil imaginar a próxima geração tão boa como essa. Como vamos preparar as futuras gerações sem competições ? O que mais me incomoda é a falta de atenção da mídia especializada aos eventos nacionais.

Vejo que a mídia especializada adora fazer a apologia do lifestyle, do freesurf, das gatas e das festas promovidas pelas próprias revistas. Não consegue enxergar que a cobertura de campeonatos também pode ser proveitosa para as suas futuras receitas. Acha que estes eventos (os campeonatos) são seus concorrentes diretos na busca por uma fatia do orçamento das empresas anunciantes.

Criar ídolos é certeza de vendas garantidas, mas aqui no Brasil não se pensa muito assim. As revistas especializadas gostam de dar cinco páginas para a modelo do mês, de investir em matérias de viagens e, ainda, em conteúdos superficiais que envolvem a estética do surf. Compreendo tudo isso e concordo que uma boa revista é a que mescla todos esses assuntos equilibradamente. Observo, contudo, que elas se esquecem de dar destaque aos eventos que vão formar os novos campeões do esporte.

Se eu perguntar informalmente para dez pessoas quais são os seus surfistas preferidos, tenho certeza de que nove ou dez dos nomes dados nas respostas serão de competidores do tour. É possível que Kelly Slater seja o mais citado, já que é considerado o maior surfista de todos os tempos. Mas o que o tornou o maior senão os seus onze títulos mundiais e mais uma dúzia de feitos em competições? Os freesurfers também arrebentam, mas provavelmente serão esquecidos durante as respostas. Comparem o destaque dado a Bruce Irons quando ele era competidor ao que é dado a ele hoje, como free surfer. Será que é o mesmo? Os big riders também são muito reverenciados, porém, os mais citados são os que vencem eventos pelo mundo afora, em condições extremas. Até um prêmio foi criado para quem dropar a maior onda. Isso não é competição? Uma exceção à regra é Lair Hamilton, mas a sua maneira de pensar é muito profunda para os garotos que sonham em ser campeões, vencedores.

Na busca de novos Parkos, Tajs, Fannings e Medinas, as grandes marcas de surf patrocinam atletas. Sabem que a sua prosperidade depende muito das competições e, por isso, investem pesado em atletas e campeonatos. Quais são as marcas de surf que mais vendem? Será que é coincidência que a Billabong, a Quiksilver e a Rip Curl sejam as maiores do mercado e as que mais investem em atletas e grandes eventos?

As revistas gringas também sabem que sem ídolos a engrenagem para. Com apenas 12 anos John John já era apontado como o tal.

Por que, então, a mídia especializada não costuma dar valor às competições do Brasil? Além da questão orçamentária, citada no início do texto, diria que houve uma banalização dos eventos, que seus formatos estão ultrapassados e que os grandes ídolos estão correndo os eventos da ASP. Ok, mas, mesmo assim, penso que é inaceitável deixar de cobrir os campeonatos.

Um bom indicativo de que a cobertura dos campeonatos atrai interesse são os fóruns de comentários dos sites, que aumentam os debates quando o assunto diz respeito às competições: baterias que foram bem ou mal julgadas, vitórias de brasileiros pelo mundo, manobras impossíveis que foram vistas durante os eventos, previsões de quem serão os campeões do ano etc.

Como explicar aos empresários de surfwear que seus atletas e eventos não vão aparecer em lugar nenhum? Isso se tornou o grande motivo para a redução dos patrocínios das marcas no Brasil. Quem investe quer retorno.

O pior dessa situação toda tem sido a diminuição dos eventos de base, que têm recebido pouquíssimo destaque na mídia especializada. Isso, a meu ver, deverá gerar consequências graves num futuro próximo. Diante desse quadro, como vamos formar novos atletas profissionais?

Na ordem inversa, se não temos eventos profissionais, o garoto que sonha em seguir uma carreira no esporte e se tornar um campeão tomará outro rumo. É simples, não é?

Se não abrirmos os olhos, em pouco tempo não teremos mais Medinas, Mineiros ou Pupos. E por aí vai …

Victor Bernardo, campeão brasileiro pro Jr, promessa da nova geração. Foto: Basílio Ruy

Victor Bernardo, campeão brasileiro pro Jr, promessa da nova geração. Foto: Basílio Ruy

P.S: Fora isso, vale dizer que a quantidade de matérias compradas no exterior diminui o espaço dos profissionais locais, brasileiros, que poderiam estar acrescentando ao nosso conteúdo nacional. Quantos fotógrafos bons saíram do surf por não serem valorizados?

Orgulho Brasileiro

Você está lendo essas palavras em um blog. Você assistiu o campeonato pela internet. Comentou as baterias no whats app.  E provavelmente você postou algo sobre a vitória do Medina no facebook. Eu postei.  Essa etapa do circuito mundial de surfe profissional foi uma das mais legais que já assisti. Não só porque o Medina venceu, mas porque foi muito interativa. A nova organização por trás da ASP está elevando o nível de conhecimento de todos através do conteúdo de qualidade disponível ao acesso de todos. Todos nossos telefones celulares receberam uma carga extra de digitação nas fases finais com cada tubo, batida e aéreo do Medina. Hoje o acesso está muito fácil.

E outro acesso que melhorou com tudo isso foi o dos brasileiros ao topo do WCT. Temos 2 atletas no top 10 sendo um na liderança. Quem merece destaque também é Adriano de Souza. Muito veloz, prancha no pé, soltando as porradas secas no lip tirando muita agua da onda. Prova disso foi a bateria de round 3. As combinações de batidas e rasgadas com floaters incríveis somaram-se aos tubos encaixados com maestria deram dois high 9 absurdos deixando o Ace Buchan parecendo um amador. Depois ele perdeu o round 4, despachou Joel Parkinson lindamente no round 5 e só perdeu para um inspirado Kohole Andino. Falando nesse nome, acho que esse americano tomou alguma coisa aqui no Rio que deixou o garoto eletrizado até Fiji. Backside cirúrgico, calmo, técnica bonita de entubar de back, estilo irado. Despachou nosso Mineiro honrosamente surfando muito. Se continuar assim vai dar trabalho.

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Adriano de Souza impressionou com seu backside ataque. Foto; ASP/Kirstin

Michel Bourez merece um capítulo (leia-se paragrafo rs) a parte. O cara também tomou um passe de algum deus polinésio porque esse ano o cara está demais. No Rio todo mundo viu o que ele fez. Agora em Fiji o rapaz deu outro show. Combinações de porrada com tubos e rasgadas ogras que não deixavam dúvidas para os juízes. Não dá para não comentar o round 3 contra Jeremy Flores. Que que foi aquilo? Que mar era aquele? Não sei se era o mar que estava bom ou ele que estava surfando muito ou os dois, só sei que esses ingredientes geraram umas das baterias mais contagiantes que já vi. Infelizmente o outra francês fera braba de tubo de back também não se achou mas não atrapalhou o show do Bourez. Não satisfeito o cara foi até as quartas de final despachando o careca em uma bateria que contou com sorte e altas ondas para vencer o monstro sagrado americano.

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Michel Bourez segue firma na luta pelo título. Foto: ASP/Kirstin

Na semi ele só foi batido pelo sortudo Nat Young. Esse é um tremendo soldado do surfe americano. Treinamento 10, talento natural zero. O cara é uma máquina de manobras idênticas com uma chutadinha de rabeta aqui outra ali. Robótico, não cai da prancha nunca e sempre finaliza suas ondas para somar mais uns pontinhos nos seus somatórios sempre acima de 13, com exceção do round 1. Foi sólido até a final, mas com esse karma de vascaíno, será sempre eterno vice.

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Nat Yuong ainda não conseguiu vencer uma etapa do tour. Foto: ASP/Kirstin

Etapas passadas vencidas por brasileiro sempre deram margem a questionamentos sobre a validade da vitória nas comparações onda x julgamento x performance. Essa não. Não tem uma linha na mídia especializada questionando nada. Realmente deu orgulho de ser brasileiro. Isso é raro hoje em dia. Gabriel Medina é o novo líder do circuito. Gabriel Medina é o novo líder do surfe brasileiro. Gabriel Medina é a cara da nova geração. Nessa 4ª etapa do circuito mundial o surfe dele foi solto, combinou modernidade com powersurfing. Entubou e soltou batidas retas seguidas de rasgadas soltando a rabeta. E aqueles 2 aleeyoops monstros no meio da onda? Um minuto depois dessa manobra o instagram parecia que tinha dado tilt de tanta foto igual. There’s never been a Brazilian world champ and this is the chance, so I don’t want to waste it.”- Gabriel Medina. Depoimento mais empolgante que esse impossível.

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Medina vence a segunda etapa no ano e assume a liderança do tour. Foto : ASP/Kirstin

Comemorações a parte vale notar que essa etapa foi muito peculiar devido a um fator que poucos perceberam. O tamanho das ondas. As ondas nunca passaram de 5 pés. “It’s all about the size of the waves for sure”. “It’s smaller than what we expect when we come to Fiji — I feel like that’s why we all made the semifinals.”- Michel Bourez.  Eu concordo. Mas isso não tira o mérito de nenhum dos finalistas. O detalhe mais incrível ainda foi que as ondas melhores pontuadas eram longas e cheias dos famosos “combos” de manobras. Foi muito divertido ver todas aquelas manobras em sequência, uma a uma, como se fossem olés do atacante até chegar ao gol. Cada batida um grito, cada tubo um emoticon no grupo de whatss app, cada bateria vencida um post no facebook. Dizem que essa é a geração digital, no surfe uma nova geração está chegando pelo mar e pela internet um país inteiro vem a reboque. Troca de guarda? Ainda não, mas que a velha guarda já está com sinal de alerta ligado isso tenho certeza.